2050: Uma Odisseia Alimentar

Os desafios e expectativas para o Brasil que alimenta o mundo

 

Não é por acaso que o ciclo de palestras da ABAG/RP tem essa denominação. A ideia de “ciclo” é a de algo que gira em torno de outra coisa, renovando-se de forma constante, tal qual o solo que faz brotar de si as mais diversas culturas a serem colhidas para que o processo se repita adiante. No caso das palestras, elas dizem respeito à temática do agronegócio, envolvendo diversos aspectos: antes da porteira, dentro e além dela.

Por exemplo: no ciclo de 2017, do qual participei, ouvi uma citação de um dos representantes, que nos recebeu no Veiling, de Holambra. Ele trouxe a seguinte frase, ouvida noutro lugar: “Até 2050 o Brasil vai alimentar o mundo.” Gostei da ideia, mas não levei adiante esse tema para a reportagem da revista daquele ano.

Isso até agora, no ciclo de 2018, quando a frase me voltou à memória, então aproveitei que novas fontes de outras palestras também tratariam acerca do tema da alimentação.

E o ciclo girou.

 

Agro é tech

No ciclo do ano passado, lembro com clareza do Prof. Dr. Carlos Augusto Colombo receber o ciclo de visitas no Instituto Agronômico de Campinas, no Centro Experimental Central da cidade. Ele disse, à época: “O Brasil tem uma área de cultivo como nenhum outro país tem igual.”

Se necessário, abra um mapa e acompanhe: os outros grandes países do top 5 em extensão territorial (Rússia, China, Canadá e Estados Unidos) estão dispostos em lugares que sofrem com intempéries climáticas em decorrência de suas latitudes. Todos esses países estão entre o Trópico de Câncer e o Círculo Polar Ártico. O Brasil, por sua vez, ocupa largamente, de ponta a ponta, um espaço privilegiado entre o Trópico de Capricórnio e a Linha do Equador. Retomando a fala do professor (e até o mapa), não tem país em dimensão que ocupe igual espaço na configuração atual do mundo.

Ainda assim, não é suficiente. Se, por um lado, aqui no Brasil são poucos os lugares influenciados por geadas, em geral concentradas na região sul, por outro, pelo próprio tamanho do país, a geografia/relevo é outro ponto a ser considerado. Ou ainda, por causa do clima tropical, é favorecida a proliferação de pragas, a exemplo da ferrugem da soja, a broca do café e as ervas daninhas – ameaças estudadas, por exemplo, pela Bayern, conforme visto no 2° ciclo do ano passado.

Além dos estudos desenvolvidos pelo IAC quanto às propriedades do solo, o professor Colombo (agora no ciclo de 2018) ressalta outra dificuldade a ser resolvida. “O que limita a agricultura é a declividade. O solo ajeita-se com química, mas para usar máquina, é preciso um terreno plano”, comenta durante apresentação ao grupo de estudantes.

Enquanto o professor Ricardo Marques Coelho dava início à apresentação sobre estudos de solos, chamei o professor Colombo a uma sala lateral e lhe propus a temática  do título.

“Eu acho que o Brasil tem potencial para isso. Pode ser um pouco força de expressão, mas pode sim produzir mais do que se produz hoje”, disse ele, dando destaque para a soja.

Mais do que lidar com matéria-prima, Colombo sugere a possibilidade de, inclusive, desenvolver o aspecto tecnológico para então trabalhar com estes produtos. Ele lembra o caso da Itália, que produz muita riqueza associada ao café sem mesmo plantá-lo em larga escala no país. “Podem-se produzir coisas diferentes, com valor agregado maior, gerar mais negócio, mais empregos, mais produtos, mas sem necessariamente ocupar o espaço com essas culturas todas”, ressalta.

 

Versatilidade engenhosa

Além do lugar de destaque da soja na agricultura nacional, outra cultura que merece atenção é a da cana de açúcar, em especial no interior do estado de São Paulo. Em visita à usina Iracema, em Iracemápolis, vê-se que nada do plantio da cana é desperdiçado. Seja pela finalidade energética do etanol, do açúcar para culinária, do melaço ou mesmo da vinhaça (resíduo do etanol), usada na forma de fertilizante e na produção de biogás.

Quem recebeu os alunos na visita à usina foi Luiz Tariffa, responsável pelo suporte técnico agronômico. Com ele também foi levantada a hipótese do título.

“Hoje o Brasil é o maior produtor de cana do mundo, então, faz sentido o açúcar estar dentro dessa estimativa, que também entra muito na parte de ração animal, resultando em proteína alimentar”, lembra Tariffa.

A partir disso se nota não apenas a ideia de ciclo, citada desde o primeiro parágrafo, como também, em especial, a de cadeias produtivas. O exemplo da cana deixa isso muito evidente, não somente pela pluralidade da cultura ao se desdobrar em vários produtos, mas também por servir de alimento à cadeia proteica.

Ainda, com a cana se produz combustível para distribuir esses alimentos entre cidades e até chegando a modais portuários para então alcançarem outros países. A expectativa a curto prazo sobre o biogás, apontada por Tariffa, é de substituir em até 30% as frotas de caminhão a diesel. Já o etanol atua na outra ponta ao servir de opção para o consumidor que se desloca pela cidade onde vive, rumo a supermercados, a fim de abastecer-se de suprimentos.

Sobre o que ainda falta para ser desenvolvido no campo do conhecimento agrário, Tariffa comenta que ainda são necessárias pesquisas sobre microbiologia do solo. “Conhece-se muito da parte química e da física, mas microbiologia ainda não se entende muito”, pontua. “A planta é muito mais adaptada que a gente, ela tem alguns sinalizadores que dão as respostas para o que ela precisa. E a gente não conhece isso. Então, como potencializar o genético da planta? Nessa parte, ainda se tem muito a ganhar”, completa.

 

2050 é logo ali

A estimativa do título não tem resposta. A pergunta permanece até que se alcance ou o patamar ou a data, o que vier primeiro. Para a eternidade, fica o registro nessa publicação. Quando 2050 bater, que alguém volte a esse texto e confira as previsões.

Apesar de todos os avanços científico-tecnológicos, contudo, ainda há um longo caminho a ser percorrido caso de fato se almeje obter o título de nação que alimenta o mundo. Seja essa uma visão otimista demais ou uma realidade próxima, é inegável o papel desempenhado pelo agronegócio no sustento da economia nacional. No meio disso tudo, território é o que não falta, nem pessoas interessadas tanto no desenvolvimento técnico quanto na produção efetiva das culturas.

Afinal, trata-se de vidas. Que surgem debaixo do solo, acima dele, ou que se sustentam por meio daquelas. Vida é transformação, são giros em torno de tantos outros ciclos que acontecem ao nosso redor.

 

 

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Gabriel Piazentin

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