A origem do ‘caipiracicabano’

A cultura brasileira é uma das mais ricas do mundo. Aqui é possível encontrar a maior variedade de crenças, ritmos musicais, gastronomia e expressões artísticas. E uma das marcas da cultura brasileira é a sua linguagem. O modo de falar do brasileiro é variável, dependendo da parte do território onde se está. Essas diferenciações recebem o nome de sotaque. Já foram contabilizados 16 sotaques oficias no nosso país, sem contar os dialetos indígenas.

São eles: carioca, fluminense, gaúcho, mineiro, nordestino, baiano, cearense, pernambucano, maranhense, recifense, nortista, manezês, paulistano, sertanejo, sulista e caipira. O último, especificamente, é o que encontramos nas cidades do interior paulista, na região do baixo e médio Tietê – cidades que estão às margens do Rio Tietê.

O “falar caipira” é facilmente identificado na cidade de Piracicaba, aonde têm raízes muito fortes, e ficou conhecido como “caipiracicabano”. Não é difícil entender o porquê. O piracicabano, culturalmente, tem esse ‘erre’ puxado, desde os primórdios da cidade, e das outras da região. O surgimento desse sotaque no estado de São Paulo vem do século 18. Seu nascimento se deve principalmente ao encontro da população portuguesa que habitava a cidade de São Paulo com os índios, como explica Manoel Mourival Santiago de Almeida, professor e pesquisador da USP (Universidade de São Paulo) e um dos fundadores do ‘Projeto Caipira’, grupo que visa o resgate dessa cultura.

“Durante muitos anos, São Paulo recebeu imigrantes que falavam uma língua indígena baseada no tupi, chamada de nhengatu, uma língua-geral simplificada pelos jesuítas e utilizada pelos bandeirantes para comunicação com os índios. Essa língua foi falada na capital até meados do século 18”, conta Santiago. “Após essa data, seu uso foi proibido pelo marquês de Pombal, e São Paulo voltou a falar a língua portuguesa, mas ainda assim, carregada de sotaques indígenas, que se aproximaria muito do que é falado hoje no interior paulista”.

Devido a influência do nhengatu no falar do português arcaico, nasce o então “r” retroflexo, que se refere à maneira de falar em que a língua se dobra para trás durante a pronúncia – como é o caso de “porrta”. “Dos séculos 17 e 18 em diante, essa variedade se espalha para o interior, tanto do estado de São Paulo, quanto pelo interior do Brasil. Esse caminho é feito principalmente pelas águas do Tietê, entre outras vias fluviais, pelos bandeirantes que viajavam por lá, e assim se instala na região do Médio Tietê, que inclui Campinas, Piracicaba e Sorocaba”, explica o professor.

O preconceito em torno da cultura caipira. Entrevista com o pesquisador

Manoel Mourival Santiago de Almeida

E se engana quem pensa que são somente as pessoas mais velhas mantêm esse costume. Os mais jovens, por influência do convívio social, também adquiriram esse modo de falar que vai além do “r” retroflexo, mas que inclui também outra característica da cidade que são as gírias – ou vícios de linguagem – que significam outras palavras, e que todos que nasceram na cidade conhecem. Esse é o caso do piracicabano Matheus Semmler, coordenador esportivo do XV de Piracicaba. “Meus pais e familiares sempre usaram algumas palavras que são características do piracicabano, e todos entendem seu significado. Por exemplo, palavras como “campeá”, que significa procurar, “botar reparo”, que é prestar atenção. Eu uso muito essas coisas no dia a dia, é realmente um costume muito arraigado na região. Eu tento manter essa tradição”.

Cecílio Elias Neto
Cecílio Elias Netto, Jornalista e Pesquisador. Crédito Foto: Aline Soriani

 

 

 

 

 

 

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Livro Dicionário “Caipiracicabano: Arco, Tarco, Verva”, de Cecílio Elias Netto. Créditos: Reprodução

 

 

 

Dialeto Caipiracicabano – Essas expressões do falar caipira são tão reconhecidas que o pesquisador e professor Cecílio Elias Netto decidiu reunir as palavras mais usadas na cidade e montar um dicionário que trouxesse os significados de cada expressão. A montagem do dicionário iniciou-se em 1987, com o lançamento do jornal impresso A Província, de autoria dos jornalistas Cecílio Elias Neto e Gustavo Jacques Dias Alvim, na coluna “Arco, Tarco, Verva”, que pretendia recuperar frases e expressões do que se convencionou chamar de “dialeto caipiracicabano”. Até que a coluna transformou-se em livro e teve a primeira edição em 2001.

O Dicionário Caipiracicabano completa 29 anos em 2015, e está na sexta edição, reunindo mais de 600 palavras. “Há muito interesse de quem visita Piracicaba e conhece a cidade em também conhecer o dialeto caipiracicabano, entender o significado de algumas expressões. E também da população, que gosta de relembrar essas expressões, e que desde a primeira edição contribui enviando palavras novas”, conta Elias Netto. “Piracicaba tem essa característica diferente, que são essas palavras. Eu, preocupado em manter a memória da cidade, os costumes e o linguajar, montei esse glossário. É uma identidade da cidade que deve ser mantida”, finaliza.

 


 

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