A vida além das ruas

Feriado de páscoa, 23, visitei a Casa Transitória Verdade e Luz às 18h a procura de um personagem que pudesse me contar como é ser um morador de rua. Fui recebida por uma das assistentes sociais e no mesmo momento em que entrei no lugar um homem com aparência cansada e com uma malinha na mão pediu para jantar. Eis o meu personagem!

Me identifiquei, um pouco receosa em relação ao que ele iria falar e fui surpreendida quando de forma educada ele me disse o seu nome e sua idade. Fomos para uma sala reserva para que pudéssemos conversar melhor.

José Reginaldo Cardoso tenho 32 anos, foi assim que ele se apresentou. Com toda tranquiladade e simpatia, Reginaldo começou a contar sua história…

Há algum tempo minha mãe faleceu, arrumei uma companheira e me casei, tive duas filhas lindas, mas acabei perdendo o meu emprego e não tinha mais dinheiro para sustentar a casa, as reclamações começaram a surgir e eu cansado de tudo aquilo e muito abalado com o falecimento da minha mãe fui para rua. E cá estou, há 5 anos andando de casa em casa pedindo comida, as vezes venho aqui nessa casa almoçar, jantar e tomar banho, mas na maioria das vezes me viro na rua mesmo. Tem dias em que tomo banho de balde com água fria e como bolachas que as pessoas me dão. E assim vou vivendo. É claro que tem dias que passo fome e frio, mas luto para conseguir um emprego e ter a minha própria casa que não seja uma casa abandonada, onde moro atualmente.
Recentemente fui acusado de ter assaltado uma loja, e isso fez com que meu nome ficasse sujo e que não conseguisse emprego, quero muito que tudo isso se resolva e que eu seja inocentado porque já vai para 5ª audiência e nada de se resolver e enquanto isso eu não consigo emprego.
A vida na rua é muito difícil, a falta da família é muita grande. Visito minhas filhas todos os finais de semana, mas a mãe delas mal quer me ver, tinha uma foto delas e a minha ex-mulher tirou de mim. Tudo é muito duro, me sinto muito mal de ter que viver assim e por isso acabo me envolvendo com as drogas, para esquecer um pouco de todos esses problemas.
Depois dessa conversa, Reginaldo foi jantar, fez um bom prato e comeu com muita rapidez. Declarou que estava desde o dia antes sem se alimentar e que realmente estava com muita fome.
Agradeci pela gentileza e fiquei com muita vontade de levá-lo visitar suas filhas, mas tive medo, medo do que poderia acontecer e percebi como nós temos preconceito em relação aos moradores de rua, que levam uma vida tão difícil e que deveriam ser prestigiados pela luta da vida.

Na saída da Casa Transitória, entrei rapidamente no carro porque tinha homem causando problemas e eu sinceramente tive medo. Fui embora daquele lugar pensando como minha vida é boa e reclamo de barriga cheia, fiquei refletindo durante muito tempo como existem pessoas que sofrem e nós nem se quer sabemos, e essas pessoas mesmo com tanta dificuldade têm tempo para sorrir e ser feliz, talvez elas desfrutem muito melhor de suas vidas do que nós.

Como dizia Charles Chaplin “A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos”.

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