Abandonada, estação ferroviária de Santa Gertrudes vira depósito de lixo

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Prédio da Estação Ferroviária de Santa Gertrudes abandonado (Foto: Acervo de Santa Gertrudes).

Quando se passa pelo bairro Largo da Estação é impossível não observar o antigo patrimônio histórico – a Estação Ferroviária de Santa Gertrudes – em ruínas. O local encontra-se abandonado, a tinta das paredes esta desbotada e coberta de pichações, as portas e janelas do prédio principal – as que não estão destruídas – estão lacradas, o mato está alto e o teto esburacado.

A presença de cobertores e latas queimadas indica que moradores de rua buscam se abrigar no local. As casinhas onde moravam os trabalhadores se deterioraram e sobrou somente um terreno ainda com a estrutura do painel de energia que abastecia as casas. Porém, o que mais chama a atenção é a quantidade de lixo jogado na frente do grande prédio de tijolos à vista.

Atualmente, a Estação é usada pela Prefeitura como área de transbordo, até o lixo ser transferido para seu destino. Segundo a Secretaria de Habitação da cidade, o aterro foi interditado pela Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) há sete meses em virtude do descarte clandestino de lixo por caminhões de outros municípios.

O deposito de lixo pela prefeitura começa às 7 horas da manhã e após o fim desse trabalho, às 16 horas, moradores também descartam aquilo que não usam mais. Colchões, tábuas de passar roupas quebradas e outros utensílios caseiros inutilizáveis são jogados lá diariamente.

Moradores das residências mais próximas à estação denunciam o aparecimento frequente de escorpiões em suas casas e temem que esses animais peçonhentos venham do local abandonado. O acúmulo de lixo causa o aumento de baratas, alimentos naturais de escorpiões, e entulhos, tijolos e madeiras servem como esconderijo para esses animais.

“Essa semana encontrei um escorpião na área de casa, ao lado da minha sobrinha que brincava no chão. Estamos com muito medo, pois tenho duas filhas pequenas”, reclama Priscila Pagnocca, moradora de casa localizada em frente à estação. Ela chegou a fazer um abaixo assinado solicitando providencias e levou até a prefeitura, mas nenhuma providência foi tomada.

Lixo em volta do antigo prédio da estação ferroviária de Santa Gertrudes (Foto: Acervo de Santa Gertrudes).

A situação entristece os moradores, principalmente os que vivem há mais tempo no bairro. “Sempre que passo na frente da estação eu fico triste, brinquei muito aí quando era mais jovem, agora só serve como depósito de lixo e criadouro de escorpião”, diz José Aparecido Silva, que também mora próximo à estação.

Outra preocupação crescente dos cidadãos gertrudenses é acúmulo de água parada, principalmente em épocas de chuva, pois o lixo somado à água parada favorece a proliferação do mosquito da dengue (Aedes Aegypti).

Famílias

Nos períodos de funcionamento pleno da ferrovia, a Estação e seu entorno representavam progresso e esperança de emprego. Muitas famílias da cidade têm suas histórias ligadas diretamente à Estação.

Este é o caso de Claudelino Tavares, aposentado, que abandonou sua família e a cidade natal, em 1989, para vir trabalhar na estação de Santa Gertrudes. Em sua antiga cidade, a lavoura canavieira era a única opção de sobrevivência, enquanto no interior paulista a linha férrea trazia mais possibilidades de emprego. Tempo depois, Tavares foi buscar sua família para morar junto dele na colônia da estação, onde foram construídas casinhas para trabalhadores e familiares dos ferroviários. “Depois disso trabalhei na bifurcação perto de Rio Claro”.

Tavares conta que na época em que a Ferrovia Paulista cedeu os direitos da ferrovia para a Almeida, a nova companhia passou a cobrar aluguel das famílias que ali moravam e assim muitas tiveram que abandonar as residências.

Rafael Augusto Tavares filho de Claudelino, lembra que a estação era seu “parquinho de diversão particular”, onde cresceu e fez muitas de suas amizades. “Hoje em dia mudou muita coisa, você passa por aqui à noite e não tem iluminação, as pessoas mexem com droga, então um lugar que era gostoso ficou chato”. O pai da família conta que depois que vieram morar e trabalhar na cidade, a família nunca mais passou necessidade e que todos os seus filhos estão formados devido às possibilidades de emprego que encontrou na pequena cidade.

Paredes e teto do prédio principal da estação ferroviária se deteriorando (Foto: Acervo de Santa Gertrudes).

Rafael Augusto Tavares, filho de Claudelino, lembra que  a estação era seu “parquinho de diversão particular”, onde  cresceu e fez muitas de suas amizades. “Hoje em dia mudou muita coisa, você passa por aqui à noite e não tem iluminação, as pessoas mexem com droga, então um lugar que era gostoso ficou chato”.

O pai da família conta que depois que vieram morar e trabalhar na cidade, a família nunca mais passou necessidade e que todos os seus filhos estão formados devido às possibilidades de emprego que encontrou na pequena cidade.

Em Campinas e Araras, estações são transformadas em centros culturais

Mesmo com a desativação das ferrovias, em muitas cidades do interior paulista, a situação é diferente da vivida em Santa Gertrudes. Em muitos locais a estação ferroviária foi reformada e utilizada em projetos culturais, históricos ou para o lazer dos moradores.

Os cidadãos de Campinas (SP) e Araras (SP), por exemplo, podem desfrutar do patrimônio histórico como uma opção de lazer e ainda conhecerem esta parte importante da história das cidades.

O prédio da antiga estação ferroviária de Campinas tornou-se uma estação cultural, denominada Estação Cultura “Prefeito Antônio da Costa Santos“. A inauguração do projeto aconteceu em 11 de agosto de 2002A revitalização incluiu a recuperação do telhado, reforma da rede hidráulica e banheiros, revisão da rede elétrica, recuperação de pisos e janelas, padronização das pinturas internas e descupinização parcial. O prédio é utilizado para exposições, oficinas, cursos e seminários e outros eventos promovidos pela a prefeitura.

Em Araras (SP), o prédio da estação ferroviária municipal também foi reformado e recuperado, em 2004. Em 2003 a Associação de Cultura e Artes de Araras e o Instituto de Arquitetos do Brasil, juntamente com a Fundação Bienal de São Paulo, organizaram um concurso nacional para a requalificação da antiga estação ferroviária, com o propósito de transformá-la num centro cultural.

Um dos antigos armazéns de depósitos tornou-se um salão de exposições artísticas, o outro deu lugar ao auditório. Assim, a sala de apresentações acomoda 175 pessoas. No local também foram construídos sanitários, uma cozinha, que oferece suporte à lanchonete, um espelho d’água e uma biblioteca.

Escoamento de café determina construção

Pessoas embarcando no trem de passageiro no ano de 1909 (Foto: Acervo de Santa Gertrudes).

 Cheia de pessoas que passavam todos os dias para pegar o trem para as cidades vizinhas, de vendedores que ofereciam o famoso bauru com guaraná para os passageiros e de crianças que brincavam enquanto esperavam seus pais voltarem do trabalho. Este foi o cenário da Estação Ferroviária de Santa Gertrudes, durante quase cem anos, desde 1887 até por volta de 1980.

A Estação foi inaugurada no dia 1 de Dezembro de 1887 e o objetivo era atender à produção cafeeira das fazendas da região, especialmente da fazenda Santa Gertrudes. Na época, o município era apenas um povoado, denominado Gramado, que pertencia a atual cidade vizinha de Rio Claro.

Os solos do interior paulista eram férteis e o escoamento do café até o Porto de Santos era feito por tropas de mulas. Essas condições precárias de transporte elevavam muito o preço das sacas, diminuíam o lucro do produtor e em tempos de chuva perdia-se muito do produto.

Diante disso, uma elite rural de acionistas que procurava desenvolver elementos necessários para incentivar a produção investiu no transporte ferroviário e criou a estrada de ferro denominada São Paulo Railway. Os maiores investidores na época foram Eduardo Prates, Fidêncio Nepomuceno Prates e Fidélis Nepomuceno Prates.

Pouco tempo depois, a São Paulo Railway, por não ter interesse em prolongar a linha pelas cidades da região, cedeu os direitos para a Companhia Paulista de Estradas de Ferro, recém-fundada na época, que logo em seguida iniciou a construção do trecho.

Em 15 de Março de 1870 iniciou-se a construção da estrada, projetada para estender-se por 45km, de Jundiaí a Campinas, na bitola de 1,60 (bitola é a largura da distância medida entre as faces interiores das cabeças de dois trilhos em uma ferrovia). A execução das obras foi feita pelos empreiteiros Angelo do Amaral, João Pereira Darrigue Faro e Heitor Rademaker Grunewald, tendo João Ernesto Viriato de Medeiros como engenheiro chefe.

Os trilhos da Companhia Paulista partiram de Jundiaí e em 1872 chegaram até Campinas. Posteriormente chegaram a Limeira e Cordeirópolis, passaram pelo povoado de Gramado e, finalmente, Rio Claro, a ponta do trilho até 1884.

Após a construção, em 1887, a estrutura passou a se chamar Estação Ferroviária de Santa Gertrudes, devido à fazenda com o mesmo nome que ali existia. Um rancho de tijolos dotado de um telégrafo foi o primeiro prédio a ser construído e o telégrafo permitiu a comunicação da estação com as demais. No primeiro semestre de 1888 foram despachados cerca de 300 telegramas.

A estação férrea passava pelas divisas da Fazenda Santa Gertrudes para embarque do café lá produzido. Para fazer isso, seus empregados percorriam um caminho que é hoje a Rua 1 do município. E foi exatamente nesse percurso, principalmente em frente à estação, que começaram a ser construídas as primeiras casas que deram início ao núcleo inicial da povoação de Santa Gertrudes.

Durante os anos que se seguiram, além de várias mudanças por parte das companhias que administravam a linha (atualmente a Ferroban), o prédio da estação foi ocupado por serviços municipais, em 2007, antes de ser completamente abandonado. Na época foram instalados no local o almoxarifado, o Departamento de Compras, o setor de Recursos Humanos e o prédio também como depósito e serralheria municipal.

Prefeitura prevê restauro, mas não define prazo

O secretário de Cultura do município de Santa Gertrudes, André Brechoti, afirma que além de fazer o restauro, preservando a fachada do prédio, a administração têm a intenção de fazer salas de teatro e um espaço para música ao vivo. Tais mudanças, entretanto, segundo ele, não têm prazo para ocorrerem e dependem do empenho de toda administração e parcerias com setores do governo estadual.

A prefeitura também não tem um prazo para que a estação deixe de ser utilizada como depósito de lixo, pois depende da conclusão do processo de regularização, análise e liberação do aterro municipal, que está a cargo da Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo).

Segundo a secretaria de Obras e Serviços, a limpeza e o recolhimento do lixo são feitos a cada dois dias, depois disso o material é levado para aterros conveniados da região, como os de Cordeirópolis, Rio das Pedras e São Pedro.

O vereador Sivaldo Elias (PTB) diz que a prefeitura fará a erradicação das baratas e a pulverização dos bueiros para diminuir momentaneamente a infestação de escorpiões. Também não soube informar o prazo para estas providências.

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Ana Carolina Mariano

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