Abelhas nativas: as polinizadoras das florestas e do Agronegócio brasileiro

Post By RelatedRelated Post

As abelhas nativas têm um papel fundamental na polinização de plantas e na manutenção das florestas

Você já pensou em conviver com até 100 mil indivíduos num espaço pequeno? Percorrer até 6 km para coletar comida? Ou até mesmo carregar um peso 300 vezes equivalente ao seu? Pois é, esse é o árduo trabalho que as abelhas têm. 

Além disso, o trabalho da abelha é voar de flor em flor para coletar pólen e néctar. Elas polinizam as flores permitindo a reprodução das plantas, resultando na geração de um número maior de sementes e frutos de melhor qualidade.  

A polinização feita pelas abelhas é de suma importância. Ela ocorre quando há transferência do pólen (gameta masculino) da estrutura reprodutiva masculina de uma flor (antera) para a estrutura reprodutiva feminina (estigma) da mesma flor ou de outras flores da mesma espécie. Dessa forma, o gameta masculino chega no gameta feminino (óvulo) e o fecunda. “Além de pegar o pólen como alimento, ela o transporta de uma flor para outra, produzindo assim sementes e frutos. A abelha é importantíssima em relação a polinização. Elas são fundamentais para a manutenção de florestas”, explicou Felipe Furtado Frigieri, apicultor e engenheiro florestal formado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (USP/Esalq). 

Em Itapetininga, cidade a 160 km de São Paulo, Frigieri cria as abelhas nativas com o intuito de multiplicá-las, entre elas está a Mandaçaia. Ele começou esse trabalho quando um amigo o apresentou às abelhas. Se inteirou no assunto e assistiu um curso de abelhas sem ferrão. “Após isso, na Esalq, fiz uma disciplina de insetos úteis, em uma das partes aprendia sobre as abelhas sem ferrão e isso me deixou mais inteirado”, contou. 

O manejo das nativas 

As abelhas sem ferrão, chamadas de meliponíneos, formam colônias que podem chegar de dezenas a milhares de indivíduos. Elas constroem seus ninhos dentro de buracos já existentes e, a maioria delas, vive no oco de árvores. Diferente da maioria, algumas gostam de hospedar seus ninhos no solo, como por exemplo em cupinzeiros. 

Caixas com abelhas nativas (crédito: Caio Nogueira)

As abelhas sem ferrão são criadas em caixas. “A caixa deve ser colocada em locais isolados da passagem de formigas, devido ao ataque desse inseto às colônias ser muito frequente. Para evitar isso, pode-se colocar as caixas em prateleiras e isola-las, isso impedirá a passagem das formigas”, disse Felipe. 

Fazer o levantamento das espécies de abelhas e observar as plantas utilizadas por elas na região é um bom começo. Definir seu objetivo também é importante: se pretende trabalhar com a comercialização do mel ou das colônias; se quer realizar pesquisas; polinização; preservação das espécies ou apenas pelo próprio prazer. 

Como as meliponíneos não possuem ferrão, o manejo é muito mais fácil. Elas não oferecem perigos de ocorrências como outras abelhas. Isso permite a criação, inclusive, em áreas urbanas.  

Segundo Felipe, escolher um local protegido da chuva para colocar a caixa é importante. “As abelhas precisam de um lugar seguro, flores e água limpa para produzirem bastante mel”, contou. 

Abelha Mandaçaia 

Com o tamanho entre 10 e 11 milímetros a Mandaçaia tem o nome de origem indígena que significa “vigia bonita”. No caso da Mandaçaia foi pelo motivo de ser uma abelha vigia que sempre fica na entrada da colmeia para proteger o seu ninho, entrada feita com barro, se diferenciando de outras. Ela é uma das abelhas nativas mais belas e mais chamativas, com cabeça e tórax pretos e abdômen com faixas amarelas, semelhantes a abelhas mais conhecidas. 

Abelhas Mandaçaia (crédito: Caio Nogueira)

Além de ser uma abelha muito mansa e polonizar plantas nativas, ela produz um mel com excelentes aspectos sensoriais. Tem um gosto muito agradável e pode variar no gosto e na cor. O mel, por sua vez, é mais aromático que o normal e é mais líquido. Seu sabor varia de acordo com a flor em que a abelha visitou no período de produção. Em épocas de floradas, cada colmeia produz de dois (2) a três (3) litros de mel por ano. 

Aliadas à natureza 

Mel, vegetais, frutas, flores poderiam não existir sem a polinização das abelhas. Elas são muito importantes à natureza, já que, sem elas, não teríamos nenhum desses produtos agrícolas. 

As abelhas se alimentam, exclusivamente, de recursos florais. Para isso, elas visitam grande variedade de flores, colhendo o pólen (fonte de proteína) e o néctar (para a produção do mel). A polinização é, portanto, uma ação automática dos polinizadores, mas essencial à vida das plantas, que se utilizam de cheiros, cores e sabores para atraí-los. “Tem abelha que é generalista e que visita várias espécies, e tem abelha que visita espécies específicas, de acordo com o tamanho delas”. 

Mel da abelha Mandaçaia (crédito: Caio Nogueira)

Cerca de 88% das plantas com flores presentes nas matas e florestas da natureza, dependem, em algum momento, dos polinizadores para se reproduzirem. Das 115 culturas agrícolas que lideram a produção global, 70% se favorece da ação dessas polinizadoras, o que representa 35% do suprimento alimentar humano. Sendo assim, as abelhas cumprem um papel imprescindível, transportando o pólen entre as plantas, e garantindo assim a variação genética tão importante ao desenvolvimento das espécies, o equilíbrio dos ecossistemas, e a reprodução das espécies. 

Ao realizarem isso, as abelhas contribuem para que existam plantas suficientes para a produção de parte do oxigênio para toda a forma viva em nosso planeta. “Acho muito importante que mais pessoas começassem a criar e conhecer as abelhas, eles percebem também que é importante ter flores e plantas para ela. Assim, o ser humano começa mais a preservar e se importar com a natureza, e isso nos deixa mais sensível”, disse Frigieri. 

Além de fazerem o bem para a natureza, as abelhas contribuem com o ser humano, além de os ensinar muito. “É uma terapia. Eu venho aqui e fico mexendo com elas e esqueço do mundo, além de aprender muito, como por exemplo a forma de se organizar”, contou Frigieri. 

Economia 

Nossa agricultura cresceu consideravelmente na parte de produção e qualidade técnica nas últimas décadas, estabelecendo o Brasil como um dos polos produtores mundiais de alimentos. 

Estima-se que os serviços ecossistêmicos da polinização correspondam a cerca de 10% do PIB agrícola, representando a incrível cifra superior a U$ 200 bilhões por ano, no mundo, segundo o site “Sem abelha, sem alimento”. 

Atualmente, a economia brasileira se fortaleceu muito com a exportação de mel, venda das abelhas nativas e a utilização da cera e do mel como remédio. 

Uma das vantagens para o apicultor é que os custos são menores. Como o produtor não precisa se preocupar com ferrão, ele não tem que usar fumigador (produz fumaça para um manejo melhor das abelhas) ou vestimenta apícola. 

Sem as abelhas, tanto a renovação das matas e florestas, como a produção mundial de frutas e grãos ficariam comprometidas. O equilíbrio dos ecossistemas e da biodiversidade sofreria um sério impacto, o que afetaria diretamente o ser humano de diversas maneiras. 

Share

Caio Nogueira Antunes

DEIXE UM COMENTÁRIO

Email (will not be published)

*