Angústia e dor: demora no atendimento em pronto socorros de Piracicaba

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Dor, espera, descaso, impaciência. Angústia. Os sentimentos são compartilhados todos os dias pelas multidões que esperam por atendimento nos hospitais de Piracicaba. Pode parecer exagero se utilizar da palavra “multidões”, porém, ao visitar os pronto socorros, logo se nota que a hipérbole se caracteriza. São muitas pessoas – adultos, crianças, idosos – se aglomerando nas salas de espera, em busca de uma solução para sua dor, um acalento. E isso pode demorar horas.

“É o sistema, não adianta”, conforma-se uma das pacientes sentada. Ela está se sentindo especialmente mal. A suspeita de dengue pode se confirmar a qualquer momento, ela só espera, desde as 14h – e já são 21h – a resposta do exame. Pode parecer uma cena típica dos superlotados hospitais públicos, mas não é. A instituição particular concentra outras pessoas numa situação parecida. Todos os questionados responderam possuir plano de saúde.

O Conselho Federal de Medicina publicou em setembro do ano passado resoluções que estabeleciam um tempo limite para o atendimento de pacientes em PSs. As portarias que regulam o SUS (Sistema Único de Saúde) entendem que duas horas é o tempo limite para ser atendido no pronto socorro, isso tanto na rede pública quanto particular. A regra também afirma que os funcionários devem avisar seus superiores em casos de urgência e superlotação. Situação que não está sendo cumprida. Durante visita à um hospital particular, uma acompanhante relatou que os funcionários não davam atenção aos pacientes que necessitavam de cuidados especiais: “uma senhora estava aguardando vagas do convênio desde as 11h da manhã. Só foram trocar a fralda dela agora, às 19h30, que mudou o plantão”. O CFM admite que as regras não cumpridas, mas a fiscalização é escassa.

Segundo relatório da ANS (Agência Nacional de Saúde), divulgado em 2012, o cálculo de tempo de espera tem que se basear no tempo, em minutos, da chegada até ocorrer a avaliação médica dividido pelo nº de pacientes. Este cálculo, porém, vale para situações de emergência. Para o paciente que chega na recepção, com senha em mãos, para que possa se consultar, não existe um tempo limite. Nos pronto socorros visitados, os rostos cansados miravam os visores de atendimento desesperançosos. Algumas pessoas possuíam senhas com mais de 50 números em sua frente: “geralmente já demora naturalmente”, afirma a paciente Dandara de Campos, que carregava a senha A266. A senha que a reportagem retirou do guichê era a A282. No visor do hospital particular, a senha para adultos, identificada pela letra A seguia na casa do 240, porém, ainda havia senhas intermediárias, para idosos, crianças e atendimentos especiais.

Os problemas de saúde identificados nas visitas realizadas, que ocorreram em dois dias, eram bastante diversos. A maioria das pessoas que tentavam uma consulta médica nesses pronto socorros apresentava sintomas de dengue. A época do ano contribuiu para isto, pois a cidade de Piracicaba e toda região vivem um surto da doença, como ressalta a médica Márcia Pacheco, médica do Sistema Único de Saúde há 35 anos: “O surto de dengue tem lotado [os pronto socorros] realmente. A dor é generalizada, para o adulto é como se um caminhão tivesse passado por cima e nesses casos é preciso procurar o pronto socorro.” Outros pacientes procuravam atendimento para cólicas, doenças respiratórias – principalmente crianças – e alguns esperavam pela ortopedia. O que era mais comum que os sintomas de cada pessoa, era a impaciência, e em alguns casos, irritabilidade. “Eu estou desde às 20h aqui e ninguém me atende. Estou com dor no corpo, nos olhos… Só não me deu febre ainda porque começou hoje. Estou com ânsia… Eles não me atendem… Agora fui ver, diz que tem 29 pessoas na minha frente”. Contávamos 1h30 que a jovem, que preferiu não se identificar, esperava ser atendida ainda na recepção de um pronto socorro público.

Segundo a médica Márcia Pacheco, o atendimento adotado, inclusive pelo Ministério da Saúde, é o do Protocolo de Manchester. Este esquema indica que as emergências tenham prioridade e depois as urgências, além de classificar os riscos em cores. Por exemplo, a emergência utiliza a cor vermelha e requer atendimento imediato. O azul é considerado o atendimento de menor prioridade e pode esperar até 240 minutos, ou 4 horas. “Eu concordo com o tempo estipulado? Eu concordo com essa classificação (de Manchester)”, diz Márcia. “Emergências e urgências, idosos, gestantes e crianças são atendidos primeiro, não necessariamente nessa ordem.” Questionada se há uma solução para desinchar o atendimento nos prontos socorros, a médica é enfática: “Primeiro seria educar a população para o que é para recorrer ao pronto socorro. Na verdade, a porta de entrada do sistema são as Posto de Saúde da Família, Unidades Básicas de Saúde. A consulta é marcada, e o médico sempre estará ali. Eu acho que é preciso um médico triador e um acesso a prontuário online.”

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“Eu acho que é descaso. Se for perguntar para mais gente, tem gente que está esperando há mais tempo que eu. Tem um rapaz desde às 18h com febre aí e ninguém faz nada”.

A Unimed Piracicaba, procurada pela repórter, justificou a superlotação nos pronto socorros apontando um aumento de 6.596 atendimentos em fevereiro para 8.872 em março, época das filmagens. Segundo o convênio, os casos e suspeitas de dengue foram responsáveis pela demanda maior e, para sanar este problema, adicionaram médicos plantonistas. Além disto, segundo comunicado recebido e situações apontadas na matéria, a Unimed Piracicaba não é o único hospital que chega a ter espera de até oito horas, a situação se repete em outros pronto atendimentos na região e capital.

 

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Bruna Pires

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