As memórias do velho ‘Nhô Quim’

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Um senhor, de traje caipira e raízes centenárias, de modo “bruto” e sotaque pitoresco, usando um chapéu de palha com abas gigantes, curva-se para sentar-se na arquibancada de um estádio de futebol. Fita, com o olhar cansado, o enorme gramado abaixo dele. Não sabe ao certo no que pensa, pois suas lembranças são muitas. Sua tez, vincada pela passagem dos anos, guarda muitas histórias. Memórias, que já completam um século!

É difícil apontar no tempo, o momento exato, em que o Esporte Clube XV de Novembro deixou de ser apenas um time de futebol e tornou-se parte do cotidiano e da vida dos piracicabanos. Com o professor e jornalista Paulo Roberto Botão, esse encontro entre torcedor e clube se deu quando ainda era adolescente. “Aos 12 anos, costumava ir ao estádio com meus amigos, para vender sorvete durante os jogos”, conta com nostalgia. O presidente do clube, Celso Christofoletti, também se apaixonou pelo XV ainda pequeno. “Nunca imaginei que seria presidente do clube do meu coração, principalmente no ano de seu centenário. É realmente uma honra e um orgulho para mim, ficará para sempre marcado na história do XV de Piracicaba e na minha vida” – confessa ele, que começou a torcer pelo XV aos 5 anos.

 

Professora Rose Bars com os alunos Clara Grizotto, Fabio Pesaresi, Evandro Polligrinotti e Rodrigo Alonso (Foto: Arlete Moraes)
Professora Rose Bars com os alunos Clara Grizotto, Fabio Pesaresi, Evandro Pelligrinotti e Rodrigo Alonso (Foto: Arlete Moraes)

Contar a trajetória de um clube tão querido e importante para a cidade foi o grande desafio do livro “XV de Piracicaba 100 anos – Destemido e Valente” escrito por alunos e professores da Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba). Na opinião do professor Botão, que coordenou os alunos na realização do projeto, selecionar os fatos que iriam constar no livro foi o maior deles. O jornalista Leonardo Moniz, editor de esportes do Jornal de Piracicaba, e autor do livro, concorda: “Acredito que o maior desafio que encontramos foi exatamente o de resgatar com cuidado cada detalhe da trajetória do clube. Cem anos são muitos e não é fácil reescrever uma história tão grandiosa. Quando o assunto envolve paixão, penso que a tarefa se torna ainda mais difícil”, acredita.

 

Já a professora Rosemary Bars Mendez, coordenadora e autora do livro, avalia que a maior dificuldade foi encontrada nos processos de pesquisa e organização dos conteúdos, devido à dificuldade em unir todas as informações. O livro, como ressalta Rose, é “um olhar sobre a história do XV”, e é o primeiro projeto sobre os 100 anos do clube.

Os alunos Clara Grizotto e Fabio Pesaresi, durante a exposição do livro na mostra acadêmica. (Foto: Arlete Moraes)

Os alunos Clara Grizotto e Fabio Pesaresi, durante a exposição do livro na mostra acadêmica.
(Foto: Arlete Moraes)

Desafios à parte, o livro é um belo registro dos momentos que escreveram o centenário do time e dos fatos que marcaram a história. A origem em 1913 e as primeiras rivalidades entre pequenos times da cidade e da região são memórias sutis de um tempo em que jogar futebol era uma atividade realizada entre amigos durantes reuniões, aos finais de semana.  Os muitos “causos”, curiosidades e conquistas do time piracicabano ganharam novos contornos nas mãos dos dedicados alunos, jornalistas e professores que doaram talento e esforços para resgatar as raízes do clube.

As viagens internacionais da equipe garantem passagens divertidas e episódios inusitados, como a apologia ao capitalismo feita pelo então presidente do clube, Romeu Rípoli, em plena ditadura comunista na extinta URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas). Ainda é possível divertir-se com as muitas aventuras dos jogadores nas noites de frio rigoroso na cidade de Moscou, que tanto incomodou os alvinegros.

O estudante do quarto semestre de jornalismo, Rodrigo Alonso, um dos autores do livro. (Foto: Arlete Moraes)

O estudante do quarto semestre de jornalismo, Rodrigo Alonso, um dos autores do livro.
(Foto: Arlete Moraes)

Dos muitos desafios e aprendizagem que escrever o livro trouxe ao envolvidos, todos têm algo a ressaltar. “Melhorei minha escrita. No jornal, você escreve mais factual. O livro é um trabalho de descrição”, reflete o aluno Rodrigo Alonso. “A experiência e a oportunidade de escrever um livro proporcionado pelo projeto, também ajuda a mostrar a capacidade técnica e profissional da faculdade, alunos e professores. Mas sem dúvida, o maior benefício é o da aprendizagem”, reforça o coordenador Botão. “A pesquisa foi de enorme aprendizado e a organização do contexto histórico, por exemplo, exigiu um trabalho diferente daquele que estamos habituados na rotina diária de uma redação”, considera Leonardo Moniz.
Os relatos registrados nas páginas de “XV de Piracicaba 100 anos Destemido e Valente” é um presente a todos os piracicabanos que poderão ouvir sua própria história que não é exagero dizer, caminha junto com o XV. Uma conquista para todos os “quinzistas” que são a alma do futebol piracicabano. “O legal do XV é a sua torcida. É isso que faz o XV ser o que ele é”, ressalta com emoção a professora Rose.

Livro: XV de Piracicaba 100 anos - Destemido e Valente (Foto: Arlete Moraes)

Livro: XV de Piracicaba 100 anos – Destemido e Valente (Foto: Arlete Moraes)

E assim, o velho senhor na arquibancada sentado, põe o chapéu na cabeça. Levanta-se e caminha. Suas lembranças agora deixaram o abrigo de sua mente. Voaram com o vento. Espalharam-se pelos cantos do imenso estádio. Não são mais lembranças suas. São agora patrimônio de uma geração, e estão aptas a inspirar o futuro. Ele sorri satisfeito. Pois sua missão esta cumprida.

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