Beleza Preta fala sobre moda, empreendedorismo e educação em Piracicaba

Beleza, empreendedorismo, educação e representatividade. Estes são os pilares que movem o Coletivo Beleza Preta, criado em maio de 2018. No primeiro final de semana de novembro, o grupo comemora o 16º aniversário da Casa do Hip Hop de Piracicaba, local onde tudo começou. O Coletivo busca sair da superficialidade ao debater sobre moda e tem como objetivo promover a troca de experiências entre mulheres negras. 

O que no início partiu de um princípio estético, hoje também é voltado para conhecimento e identidade. O Coletivo é formado por cerca de 15 mulheres negras que carregam histórias únicas, mas com muita coisa em comum. “No início, a proposta era fazer um encontro para valorizar a beleza negra. Várias meninas conhecidas e empreendedoras negras foram contatadas e realizamos o primeiro evento. O pessoal gostou bastante e aí começamos a nos organizar para realizar outros encontros até se firmar como um coletivo”, conta Lia Teodoro Martins, uma das fundadoras do Beleza Preta.

O Coletivo realiza desfiles temáticos, palestras em escolas, rodas de conversa e eventos educacionais. “Além de falar sobre moda e beleza, falamos sobre ações afirmativas e políticas públicas voltadas para a educação nas escolas da cidade. Distribuímos informativos simples para os jovens da periferia entenderem como eles podem acessar o ensino superior por meio de cursinhos populares, por exemplo”, aponta Lia.

O Beleza Preta acredita no conceito Black Money, ou seja, incentivo à produção e ao consumo entre negros. “Somos empreendedores. Tomamos a frente porque somos os que mais entendemos nossas necessidades. Além disso, estimulamos quem está chegando ao movimento para ir construindo essa mentalidade: de que podemos ter, fazer e divulgar nossos trabalhos”, explica Geiza Mara Santos, integrante do Coletivo.

Com a rede de apoio, as integrantes relatam dificuldades para encontrar produtos voltados às mulheres negras. “É difícil encontrar alguém que saiba cuidar do nosso cabelo, acertar no tom da maquiagem, encontrar turbantes para comprar. Tudo o que faz parte da nossa cultura é deixado de lado. Por isso precisamos perpetuar a ideia do nós por nós, sem esperar reconhecimento”, diz Lia. 

As integrantes destacam os valores de liberdade e união presentes dentro do Beleza Preta. Para Lia, não há determinação de regras e o grupo respeita o processo de cada uma. “Ninguém me obrigou a assumir meu cabelo natural. Eu fui acolhida tanto com o cabelo alisado quanto durante a transição capilar”, conta.

Lia também destaca o fato de precisar ficar se reafirmando enquanto mulher negra  na sociedade. “Tenho a sensação de que preciso ficar me justificando o tempo todo: que sou graduada, pós-graduada e tenho inglês fluente. E a gente sempre acha que o problema é com a gente. Com o Coletivo, percebi que esse tipo de indagação é por conta da nossa cor”.

Segundo Geiza, todos os eventos do Beleza Preta são abertos ao público. “É para que todos venham conhecer, não somente os negros. Porque todos têm que ter essa consciência e passar isso para frente”, afirma. 

Lia aponta também a escassez de pessoas negras em cargos altos, o que dificulta a construção de referências. “Quantos juízes negros você conhece?”, questiona. De acordo com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), apenas 1,6% dos magistrados brasileiros são pretos e 16,5%, pardos. Os dados são de 2018.

O cenário muda ao refletir sobre o número de mulheres negras que são empregadas domésticas, por exemplo. “Quanto mais alto chegamos, menos pessoas igual a nós encontramos”, resume. Segundo Lia, o Coletivo Beleza Preta procura suprir esta lacuna. “O poder no Brasil é: homem branco. E nós somos mulheres pretas. Então, nós estamos lá embaixo. A gente tem que fazer muito mais do que os outros”, expõe Geiza.

Para Alessandra Borges, integrante do Beleza Preta, ter um Coletivo como este é de suma importância para as mulheres negras de Piracicaba. “Antes, eu tinha que ir até em São Paulo para poder participar de coletivos. Depois que comecei a frequentar o grupo, comecei a me desenvolver mais, porque conheci mais pessoas como eu. Eu aprendi muito e comecei a me dar valor, acreditar mais em mim, entender o que consigo fazer”, diz.

O Coletivo também tem relevância quando o assunto é empoderamento. “As pessoas olharem para você e fazerem a referência do Coletivo é muito diferente. Eu não me sentiria representada se eu não fizesse parte do Beleza Preta, porque passei a criar referências”, mostra Lia.

“Quem está ao meu redor também se sente bem, se sente representado. E meus amigos brancos também entendem a minha história e têm consciência de como agir. O Coletivo abriu meus olhos. Ninguém aqui quer tirar o espaço de ninguém. Só queremos ter acesso ao que é nosso”, finaliza Geiza.

Texto: Bianca Martim e Letícia Azevedo

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