Conheça os métodos de climatização para áreas de confinamento de gado leiteiro que garantem o conforto necessário para potencialização da produção.

Clima europeu em terras tupiniquins

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Conheça os métodos de climatização para áreas de confinamento de gado leiteiro que garantem o conforto necessário para potencialização da produção.

 

O Brasil, cuja cadeia leiteira emprega cerca de 4 milhões de trabalhadores, configura o quarto lugar no ranking dos maiores produtores de leite mundiais, segundo dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), e nos primeiros quinze anos do século XXI, o país aumentou sua produtividade em 72,3%, com redução de 28,7% dos animais ordenhados. Tal crescimento na produção por animal pode ser explicada pelo desenvolvimento e aplicação de tecnologias que garantem maior conforto e nutrição dos rebanhos.

De acordo com Adriano Seddon, veterinário especializado em produção leiteira, a criação de gado em confinamento é uma das grandes contribuintes para o aumento brasileiro na obtenção de leite, já que a técnica, se bem aplicada, proporciona alimentação abundante, altamente nutritiva e conforto térmico às bovinas. “Se comparado a países como os Estados Unidos ou Israel, o Brasil ainda tem muito espaço para desenvolver a sua produção de leite, mas temos fazendas brasileiras que são tão eficientes quanto as melhores propriedades mundiais, com alta produtividade por animal e bom uso da terra”, afirma. “Esse aumento na produtividade e tecnologia empregada no manejo tende a crescer em um processo mais acelerado nos próximos anos”.

As raças de origem holandesa são mundialmente conhecidas pelo seu grande potencial produtivo, mas carregam consigo delicadeza digna da sua nobreza, e qualquer stress fora do comum pode significar baixa na obtenção de leite, portanto é necessária a preocupação dos produtores, que optam, cada vez mais, por soluções de dimensionamento em climatização para alcançar uma temperatura próxima a do local originário da raça. Cada espécime gasta muita de sua energia nas atividades voluntárias e involuntárias de seu próprio organismo, ou seja, para se manter viva, e se essas ações forem somadas ao calor intenso e a presença de insetos, a energia que seria direcionada à produção de leite é desviada para maneiras de eliminar o desconforto.

Seddon explica que o clima é um dos grandes desafios do produtor leiteiro no Brasil. “O stress térmico é um grande problema para vacas de alta lactação, e o nosso índice de temperatura é maior do que o de países que apresentam elevados níveis produtivos, então as nossas vacas se beneficiam muito bem de sistemas de climatização”, esclarece. “Fazendas que iniciam a utilização de sistemas de confinamento climatizado passam a ter variações de produção entre inverno e verão de cerca de 5%, ou até menos, enquanto, sem esses sistemas, essa alternância pode chegar a 40%”.

A Fazenda Colorado, em Araras, interior paulista, é um dos exemplos de como o conforto dos animais faz a diferença na produção. Com o alcance de até 70 mil litros de leite por dia, a Colorado é considerada, há três anos consecutivos, a maior produtora leiteira do Brasil, segundo levantamento do portal especializado MilkPoint. Responsável pelo leite tipo “A” Xandô, a fazenda foi a primeira a importar para o país a ambiência em confinamento para gado leiteiro, e permanece sendo a única do país com sistemas tão grandes: são quase 30.000 m² de área dimensionada, os quais abrigam 1.500 vacas holandesas em lactação, com ambiente em temperatura próxima aos 22ºC, além de disporem

A Fazenda Colorado tem área relativa a quase 2 mil campos de futebol (1,7 mil hectares), dos quais cerca de 30.000 m² são de ambiente climatizado para os animais. /Divulgação Colorado.

de troca de ar constante.

Rodolfo, responsável pelo sistema de dados da Colorado, garante que o conforto térmico dos animais tem papel fundamental no ganho de produtividade. “Somos uma empresa particular e que busca grande produção para gerar dinheiro, porém isso só ocorre, de forma efetiva, quando proporcionamos conforto aos animais”, afirma.

 

Nome complicado, estratégia eficiente

Com surgimento na década de 50, nos Estados Unidos, a ambiência moderna apresenta uma alternativa viável ao médio e grande produtor que deseja impulsionar a sua produção com a manutenção do gado em confinamento. De nome estrangeiro, o cross ventilation (ventilação cruzada, no bom e velho português), sistema utilizado pela Fazenda Colorado e que ainda é novidade no Brasil, consiste em um tipo de dimensionamento em ambiência utilizado, geralmente, para confinamentos do tipo free stall, nos quais as vacas tem camas individuais, e é indicado para produtores que possuam um mínimo de cem bovinas, número que oferece viabilidade financeira e retorno comercial que justifique o investimento.

O cross ventilation funciona de forma em que o ar cruza a área de trato e os animais, ou seja, em sentido oposto ao trânsito de seres vivos e veículos, alcançando todas as vacas do galpão. A eficiência em refrigeração da ventilação cruzada varia em torno de um delta de 10ºC, com sensação térmica, por conta da velocidade do vento, de ainda menos 3ºC. A diminuição da temperatura no ambiente climatizado depende também da temperatura e umidade externas – quanto mais quente e seco for o clima, melhor.

Placas evaporativas são utilizadas para resfriamento do ar nos sistemas de ventilação cruzada e túnel de vento. /Mariana Requena.

Para a implantação desse sistema, que opera em pressão negativa, ou seja, com ambiente completamente vedado, é necessária a instalação de exaustores e placas evaporativas, que são espécies de “colmeias” produzidas em papel especial, a celulose corrugada. Essas placas, que são a única entrada de ar do confinamento, tem a função de resfriar o vento que as atravessa, a 3 metros por segundo, através do contato com a água que as umidifica, e são colocadas em posição contrária aos exaustores, os quais funcionam como saída de ar do local e promovem troca de ar constante.

Para controlar quantos graus a temperatura deve ser baixada no dia, existe uma automatização com sensores de temperatura e umidade instalados no galpão, os quais analisam o ambiente interno, percebem a necessidade de ligar mais ou menos exaustores e placas evaporativas, e enviam essa informação a um painel de controle que monitora, de forma automática, o funcionamento dos equipamentos.

Até 2012, a Fazenda Colorado utilizava exclusivamente ventiladores para aliviar o calor dos animais e, com a substituição pela ventilação cruzada para abrigar todas as vacas em período de lactação, a produção leiteira cresceu cerca de 5 litros diários por animal. Dioni Moresco, proprietário da empresa Equipaves, especializada em ambiência para gado em confinamento e que forneceu equipamentos para a propriedade, acredita que o investimento traz retorno positivo ao produtor e aos próprios animais. “Muitas pessoas defendem a produção de leite à pasto, talvez por parecer mais humanizada ou pensando no bem-estar animal, mas as vacas holandesas são muito sensíveis ao clima brasileiro, e até a busca por comida na pastagem pode irritá-las, levando, por vezes, a enfartes e morte. Assim sendo, o ambiente climatizado é muito mais cômodo para essa espécie”, garante.

Além do cross ventilation, outra opção para a ambiência para gado leiteiro em confinamento é o sistema de túnel de vento. Com custo menor e mais indicado para confinamentos compost barn, nos quais as vacas compartilham da mesma cama e suas próprias fezes fazem a compostagem do solo, o túnel de vento funciona de maneira bem parecida à ventilação cruzada, com a diferença de que o ar, ao invés de cruzar a linha de trato, a acompanha. Esse tipo de dimensionamento não é recomendado para free stall, porque, por acompanhar a linha de distribuição dos animais, o resfriamento perderá sua eficiência ao tocar na primeira vaca e as conseguintes na fila sofrerão com o calor ganho.

Existem também projetos de ambiência mais simples, com custo significantemente baixo e sem o uso de placas evaporativas, através de aspersores e ventiladores. Essa opção, ainda que eficiente, requer maior mão de obra com o manejo dos animais, que devem ser contidos para serem resfriados.

Quando estão fora do período de lactação, as vacas da Fazenda Colorado são mantidas em climatização por ventiladores em sistema free stall. /Mariana Requena.

Esse tipo de climatização de confinamento é recomendada para pequenas propriedades, familiares ou com menos de cem animais, nas quais a implantação dos outros modelos mais modernos pode encarecer o custo final do leite e impedir a competitividade.

Não o importa o modelo escolhido para a função, o importante é garantir que os animais recebam o conforto necessário para produzir de forma efetiva, em uma vida longa e longe do stress térmico.

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Mariana Requena

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