Com pouca representatividade, negros buscam espaço no cinema brasileiro

“Nunca vou poder ser astronauta, porque nos filmes, não vejo astronautas iguais a mim”. Este é o pensamento de muitos jovens afrodescendentes, de acordo com o cineasta e roteirista Felipe Eduardo Amaral, graduado pela Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba). De 142 filmes produzidos no Brasil, os negros representam apenas 13,3% do elenco, segundo a pesquisa Diversidade de gênero e raça nos lançamentos brasileiros de 2016, divulgada pela Ancine (Agência Nacional do Cinema).

Dos mais de 202 milhões de brasileiros, 54% são negros, segundo os dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2019. No entanto, em diversas esferas da sociedade, como mostra a pesquisa, os negros não são a maioria. 

Em contrapartida, os homens brancos dominam o mercado audiovisual, sendo maioria em todas as áreas. Entre os diretores, representam 75%, enquanto os negros, apenas 2,1%. Entre os produtores e roteiristas, os homens brancos são 59,9% e os negros, também 2,1%. 

Para Eduardo, a baixa representatividade da comunidade negra na TV e no cinema brasileiro evidencia o preconceito, que é muitas vezes negado por parte da sociedade.

Eduardo escreve roteiros para filmes, se enquadrando no grupo de minoria dos negros roteiristas. Para ele, entre as inúmeras dificuldades de produzir um conteúdo sobre a comunidade negra é a autonomia dos diretores. “Não adianta eu, como roteirista, criar um personagem negro e o diretor do filme não aprovar”, disse. Como a esmagadora maioria dos diretores são homens brancos, como aponta a pesquisa, é fácil imaginar este cenário. 

As mulheres também sofrem com o pouco de espaço no cinema nacional, principalmente as negras. O estudo aponta que nenhuma mulher afrodescendente foi diretora ou produtora dos 142 filmes analisados. Um dado que escancara o preconceito racial e a desigualdade de gênero. 

“Quando eu era criança, não tinha nenhuma mulher para me inspirar”. É o que diz Ingrid Lopes, Ativista do Movimento Negro. Para ela, a luta por um maior espaço das negras no cinema e na TV brasileira é uma questão fundamental para que as jovens se sintam mais representadas e o preconceito diminua. “Normalmente a negra que aparece nos filmes é aquela de pele mais clara, com traços europeus, eu nunca me senti representada”, disse. 

Ingrid falando sobre a importância da representatividade negra no cinema. Foto: Adelle Gebara

Ingrid também se sente incomodada com tratamento que normalmente é dado aos negros nos filmes, séries e novelas. “Na TV somos vistos como segurança, faxineira ou como alguém de baixo escalão. Eu acho que somos muito mais que isso”, disse. “Mesmo existindo muitos negros fazendo faculdade, médicos, empresários, quase nunca somos representados assim”.

No momento, além da luta contra o preconceito e falta de espaço, os jovens negros que queiram iniciar a carreira no mercado audiovisual terão que enfrentar outro problema. Recentemente, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) apresentou projeto de lei que prevê corte de quase 43% do orçamento da FSA (Fundo Setorial Audiovisual) e disse que irá barrar fundos de investimento para produção de “Afronte”, uma série sobre a vida de jovens negros gays. Recém-formado, Felipe se preocupa com a situação. “Com estes cortes, serão produzidos menos filmes e séries, e os iniciantes vão perder espaço”, disse. 

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