Como se a mídia fosse democrática?

À medida que estabelecemos relações com a mídia, somos influenciados em nosso comportamento. Ao nos relacionarmos com nossos pares e o meio, elaboramos novos significados, formulando e desenvolvendo representações de si e do mundo. Normalmente, a mídia reproduz as representações com as quais a sociedade está familiarizada e evita propor alterações à ordem das coisas. Não raro, são guiadas pela manutenção dos esteriótipos.

Ao serem tomados como legítimos, os discursos passam a funcionar como regimes de verdade, instaurando referenciais identitários, e é aí que entra uma importante questão acerca da democratização da mídia: sociedade, paralimpíada e mídia possuem uma importante parceria.

Daniel Dias, 28, nadador paralímpico brasileiro e recordista mundial.

Daniel Dias, 28, nadador paralímpico brasileiro e recordista mundial.

A mídia, no seu papel de informar, transformou as paralimpíadas, que até as duas últimas décadas encontrava-se na total obscuridade. A cobertura midiática recente das Paralimpíadas, contou com muitos profissionais, em diferentes modalidades paradesportivas. Mas, apenas dando mais ênfase às modalidades que tinham chances de conquista de medalhas. Como a natação, na figura de Daniel Dias. Como se, para a sociedade, o bom desempenho de deficientes se desse como compensação da deficiência. Como se as pessoas não deficientes, quando bem sucedidas em seus empreendimentos, alcançassem o sucesso pelo talento ou pela inteligência, enquanto os portadores de deficiência o teriam feito pela necessidade de compensar o que possuem. Como se a deficiência resumisse tudo o que fossem.

Como se não fossem bons o bastante para ter sua abertura, fechamento e jogos com tamanha repercussão dos de não deficientes. Como se não merecessem ter transmissão em TV aberta. Como se não fossem de utilidade pública.

Isso, é o que chamo de cultura de desvalorização, e ocorre com vários grupos de minorias.

A mídia, muitas vezes, faz com que as pessoas sintam compaixão pelos paratletas, como símbolos de superação. Pessoas com qualquer deficiência ou doença não devem ganhar solidariedade e, sim, respeito e confiança. Devem ser vistos como cidadãos. Se a mídia não cumpre a tarefa do debate das diferenças, também deixa de mostrar informações necessárias para transformações sociais, como a representatividade de minorias, permanecendo um preconceito que pode até ser sutil, por exemplo como um ato de pseudo-piedade.

Campanha da Vogue Brasil para as paralimpíadas, contendo Paulinho Vilhena e Cleo Pires.

Campanha da Vogue Brasil para as paralimpíadas, contendo Paulinho Vilhena e Cleo Pires.

Nesse sentido, vale lembrar o que aconteceu nas paralimpíadas, sobre a questão de metas. E os que não conseguiram chegar a uma paralimpíada, seja por falta de recursos financeiros ou humanos, ao longo dos anos? Esses sequer são mencionados na mídia. Não são todos que conseguiram se destacar através de suas habilidades. Para isso, vamos tratar do âmbito da publicidade. Recentemente, Paulinho Vilhena e Cleo Pires realizaram uma campanha da Vogue Brasil, na qual edições de fotografia deixaram algumas partes dos corpos deles desmembrados, com o intuito de representatividade aos paratletas que, porém, ocasionou o capacitacismo (roubar para si o protagonismo de minorias), utilizar o argumento “Somos Todos” pode não significar necessariamente inclusão e democracia e para alguns só resta a publicidade.

É preciso estar sempre alerta sobre essa relação de dominação. O cidadão não pode conformar-se com essa relação e deve reivindicar seus direitos, em todas as situações, inclusive lutando pelo direito de estar devidamente representado na mídia, cobrando também a divulgação do serviço de interesse público. É preciso mudar a forma da produção televisiva e inovar no que diz respeito aos padrões de visibilidade e enquadramento dos grupos minoritários, em especial. Isso pode auxiliar os telespectadores a serem mais sensíveis às problemáticas que as minorias enfrentam.

Para melhorar a comunicação, pode-se trabalhar através da consciência e respeito a outras culturas, aqui incluída a cultura do outro. É preciso elaborar um outro olhar sobre esse outro. O princípio do reconhecimento se sustenta na homogeneidade e não na diferença. Ser cidadão na condição de indivíduo igual e não na condição de sujeito diferente, tendo sempre o respaldo da mídia, de todos os tipos, em todos os níveis.

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Laís Seguin

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