Crescimento do acesso à internet não reduz interesse pelas bibliotecas

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Mesmo com a explosão dos e-books, a quantidade de livros retirados da Biblioteca Municipal Maria Aparecida de Almeida Nogueira, de Santa Bárbara d’Oeste, não diminuiu. Contrariando a visão pessimista sobre o futuro das bibliotecas, em razão do crescimento exponencial do acesso à Internet, o volume de empréstimos se manteve estável nos últimos cinco anos e o espaço ainda é muito utilizado por um público heterogêneo.

O resultado se deve a iniciativas constantes do segmento. Em Santa Bárbara d’Oeste, logo na entrada da Biblioteca Municipal, o visitante encontra uma estante com diversos lançamentos e best-sellers como sugestões de leitura. Cerca de 140 obras compõem a prateleira inicial, convidando o leitor a fazer o empréstimo de um dos livros físicos. A entrada também estimula o público a conhecer obras de autores barbarenses.

Nomes consagrados como Augusto Cury, J. K. Rowling, John Green e Mário Sergio Cortella, que fazem parte da lista dos mais vendidos nas principais livrarias nacionais, estão expostos na Biblioteca. De acordo com a responsável, Roseli Tassi, essas obras passam por uma triagem ao ser adquiridas. “Sempre procuramos por obras recentes e verificamos se há demanda suficiente para que possamos comprá-las”, diz.

Estante expõe sugestões de leitura na entrada da Biblioteca Municipal Maria Ap. Almeida Nogueira | Foto: Bianca Martim

A Biblioteca também conta com a sala infantil, dedicada especialmente às crianças e adolescentes de até 15 anos de idade. Segundo Roseli, muitos pais levam os filhos ao local e aproveitam o espaço durante horas. “Os empréstimos de livros infantis são tão frequentes quanto os de livros de literatura e best-sellers”, afirma. Além disso, estudantes recorrem à Biblioteca para procurar por literatura clássica para vestibulares ou livros específicos para concursos públicos.

Andressa Ferrari, 24, é estudante de Recursos Humanos e faz estágio em uma escola de inglês próximo ao local. “Como tenho que esperar o ônibus, entro aqui praticamente todos os dias porque me sinto acolhida pelo espaço e pelos funcionários”, conta. Assim como a bibliotecária responsável, a jovem também acredita que o espaço é importante para estudantes de concursos públicos, por exemplo. Segundo ela, esse tipo de livro é mais acessível, já que não é preciso pagar para obter o material.

De acordo com Roseli, o número de livros de pesquisas escolares, entretanto, sofreu queda nos últimos anos. “Claro que é mais fácil fazer uma pesquisa pela internet e, por isso, os empréstimos são maiores entre universitários e ‘concurseiros’”. Apesar disso, a média de empréstimos mensais se manteve estável nos últimos seis anos, visto que os best-sellers e os lançamentos são muito procurados.

Em 2012, a média anual de empréstimos na biblioteca central foi de 2.400 livros. Nos anos seguintes, o número apresentou uma leve queda. De modo geral, no entanto, as saídas mantiveram-se semelhantes quando analisadas anualmente. A bibliotecária responsável chama atenção ao público fiel. “Alguns visitantes esporádicos até se assustam com o número de usuários diários que frequentam a biblioteca”.

A explosão do uso dos e-books, em 2012 e 2013, fez com que os bibliotecários ficassem preocupados com o futuro dos livros físicos. “Não sabíamos qual seria o verdadeiro efeito, mas agora percebemos que o número de empréstimos se mantém controlado. Já ouvimos alguns leitores relatarem suas experiências com os livros eletrônicos, disseram que não conseguiram se adaptar a eles”, relata Roseli.

Ao contrário da bibliotecária, a estudante de biblioteconomia Rafaela Bernardo, 19, acredita que muitos leitores escolhem os e-books por serem mais cômodos. “É mais prático ler pelo celular ou e-reader quando se está em um ônibus, por exemplo”. Rafaela é gerenciadora de um bookgram, ou seja, um perfil no Instagram dedicado aos livros.

O “Meus Livros e Eu” tem mais de 3,3 mil seguidores e apresenta resenhas simplificadas, diferentes das críticas tradicionais publicadas em blogs. Rafaela afirma que procura usar um vocabulário mais informal com o público. “Não me refiro necessariamente ao uso de gírias, mas a uma linguagem mais íntima, com uso de jargões, por exemplo. Assim, acabo me aproximando mais aos leitores.”

“Sempre promovo a ideia de que a leitura com um livro ao alcance das mãos torna-se mais prazerosa”, explica Rafaela. Segundo a estudante, a maioria dos seguidores do bookgram compra livros em vez de emprestá-los. “A maioria do público prefere adquirir o livro físico para aumentar a estante particular, mas tenho seguidores no meu bookgram que não têm ‘grana’ para comprá-los e por isso acabam recorrendo à biblioteca pública.”

Solange Sales, professora, frequenta a Biblioteca para elaborar aulas de literatura | Foto: Bianca Martim

Quanto ao futuro das bibliotecas públicas, a jovem acredita que os livros físicos não serão deixados de lado. “Podemos estabelecer um ponto de equilíbrio entre os livros e a tecnologia. Acredito que as novas ferramentas online vieram para ajudar na disseminação dos livros impressos”.

De acordo com Roseli, as escolas do município formam turmas de crianças para conhecerem o espaço. Os bibliotecários apresentam o acervo e incentivam os pequenos estudantes a retornarem. “Muitas crianças que nunca tinham entrado na Biblioteca ficam encantadas com a diversidade de livros infantis. Explicamos como funciona o cadastro para retirar e pedimos para que venham com os pais”, ressalta.

A Biblioteca também é utilizada por profissionais da área de educação infantil. Solange Sales, professora de Escola Estadual, dá aulas para crianças do Ensino Fundamental. Como está fazendo um curso de contação de histórias, utiliza o espaço como um meio alternativo ao elaborar as apresentações. “Tenho algumas opções na internet, mas prefiro dedicar um tempo na procura por livros físicos também”, diz a professora.

A educadora conta que já chegou a indicar páginas online de livros para os alunos, mas o resultado não foi tão positivo. “Compartilhei ‘O Pequeno Príncipe’ com as crianças, para lerem no computador ou no tablet. Em uma sala de trinta alunos, apenas dez fizeram a leitura virtualmente. Os demais procuraram o livro físico”, relata Solange Sales.

A usuária da Biblioteca Municipal diz também que leva o filho para o espaço sempre que pode. “Acho importante habituar as crianças a manusearem esse tipo de material. Apresento obras de Ana Maria Machado e Pedro Bandeira ao meu filho e aos meus alunos. Para os pequenos estudantes, não aplico provas ou avaliações literárias. É importante que a leitura se torne prazerosa e não forçada”, enfatiza.

Professora afirma que o espaço serve de apoio ao buscar por literatura infantil | Foto: Bianca Martim

Roseli lembra também que ao local ainda é muito utilizado não só para explorar boas histórias como também para estudar, por conta do silêncio. Para ela, o objetivo do local é ajudar no processo de disseminação de conteúdos. “É tratar a informação que chega tão rápido até a nós e fazer com que ela seja acessível ao público, seja em forma de pesquisa e até estudantes universitários”, reforça.

Ao ser questionada sobre o futuro das bibliotecas, afirma que espera um resultado positivo nos próximos dez ou vinte anos. “Minha expectativa é de que permaneça como um suporte de conhecimento para que possamos ter cidadãos mais críticos na sociedade”, concluiu.

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Bianca Martim

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