Crise Econômica compromete segurança alimentar dos brasileiros

Em Tatuí (SP), por exemplo, aumenta o número de pessoas que buscam auxílio alimentar em feiras, no Banco de Alimentos, que contam com demais iniciativas sociais

Andressa Mota e Laís Seguin

A crise econômica e política acompanha o país desde 2014 e o desemprego e, consequentemente, a fome estão presentes nas casas de famílias mais carentes, o que compromete sua segurança alimentar – realização do direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente para consumo. Com isso, segundo entidades que fiscalizam os compromissos de países firmados com a ONU (Organização das Nações Unidas), o Brasil pode voltar ao mapa da fome – ou seja, mais de 5% da população não terá o suficiente para se alimentar.

Foi justamente no ano de 2014, quando a então presidente Dilma Rousseff anunciou, na Assembleia Geral da ONU, a saída do Brasil desse mapa, que a instabilidade política agravou na questão econômica do país, gerando anualmente o aumento do número de desempregados que, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), chegou a 14, 2 milhões no trimestre encerrado em março de 2017.

Nesse cenário, a procura por auxílio para complementar a alimentação das famílias aumentou. Como é o caso do Banco de Alimentos (B.A.) de Tatuí (SP), que segundo o coordenador Anderson Augusto Santos Queiroz, 33 anos, possui 400 famílias na fila de espera enquanto outras 315 são atendidas atualmente. Essa é uma iniciativa do Governo Federal mantida pela Prefeitura, e é a única instituição na cidade que tem por objetivo evitar o desperdício dos alimentos que não foram comercializados e cuidar da segurança alimentar do município, sendo responsável pela aquisição e distribuição dos produtos às famílias e às entidades cadastradas.

Outro fator que contribui para o não atendimento de todas as famílias é que, também devido à crise, o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos), uma das políticas públicas do Governo Federal lançada em 2003 para garantir a segurança alimentar da população – que integra a demanda de acesso ao alimento à necessidade de mercado dos agricultores familiares e também colabora com o Banco de Alimentos -, sofreu corte de verbas.

Esse corte culminou na não renovação de contratos referentes ao ano de 2016 e na diminuição dos alimentos que o banco recebe atualmente, pois semanalmente chegavam, através do PAA, mantimentos de quatro cooperativas de produtores rurais, mas agora o B.A. conta apenas com uma, a Associação Regional de Desenvolvimento Agrário Arda – Itapetininga (SP). Mas foi aberto o edital de 2017 para a renovação dos contratos do programa com os agricultores de Tatuí e região, o que para Anderson é uma esperança de atender as famílias na fila de espera.

A presidente da Cooperativa dos Produtores Rurais de Tatuí e Região, Luciana Maria Nunes de Oliveira Almeida, 41 anos, percebeu, desde o corte de verbas no PAA, um aumento no número de pessoas que pedem alimentos nas feiras. Para ela o programa, além de colaborar com os produtores rurais e ajudar os mais necessitados, contribui com a saúde dos assistidos. “Existem famílias dentro do Banco de Alimentos que têm crianças com anemia, a assistente social que faz visitas e vê que tipo de alimentação estão precisando para colocar na cesta (…) ajuda de todas as formas, uma alimentação boa diminui um pouco as doenças também”.

As famílias atendidas pelo B.A. de Tatuí (SP) passam por uma seleção, na qual os critérios são: ter como integrantes idosos, pessoas com doenças graves ou crônicas, crianças desnutridas ou estarem em vulnerabilidade social. Se atenderem às exigências, os núcleos familiares são incluídos na assistência do banco assim que as vagas surgem – quando os atendidos não precisam mais do apoio alimentar ou a instituição se encontra em condições de atender mais pessoas.

“O meu marido não tem salário direito, então é difícil ter uma boa alimentação”

Quatro pessoas compõem uma das famílias atendidas: a mãe, o pai e dois filhos – um menino de 15 anos e uma menina de sete, chamada Adriele. No momento não possuem renda fixa, Rosa Martins Proença Pedroso, a mãe de 45 anos é dona de casa e o esposo trabalho por dia, mas não tem registro em carteira. “O meu marido não tem salário direito, então é difícil ter uma boa alimentação. A gente compra mais as coisas básicas como arroz e feijão, mas a parte de legumes é mais dura por ser mais cara”, ela relata.

A família de Rosa começou a receber o auxílio do Banco de Alimentos de Tatuí (SP) há aproximadamente dois anos. Exatamente quando a filha do casal estava com anemia, devido à insegurança alimentar que passavam. Mas a mãe conta que depois de fazer acompanhamento médico e manter uma alimentação nutritiva, Adriele está saudável novamente.

Sueli Vieira de Matos, de 52 anos, moradora do Jardim Vanderley na cidade de Tatuí (SP), recebe a cesta há nove meses e quando se inscreveu, ela, o esposo e a filha mais velha, de 20 anos, estavam desempregados. A situação estava difícil porque, além disso, Sueli é diabética e precisa de uma alimentação adequada que não era capaz de suprir naquele momento.

Apesar de ter recebido a visita da assistente social logo depois da inscrição, Sueli esperou um ano para ser atendida. No momento ela trabalha fazendo faxinas, mas o esposo, que é vigilante, não encontra emprego pela idade – faz alguns trabalhos informais mas nada fixo.

Sueli faz o acompanhamento da diabetes diariamente, mas que sempre está alterada. Porém percebeu que a alimentação complementada com os legumes e as verduras que recebe do Banco de Alimentos colabora com a manutenção. “Melhorou bastante, porque até então eu não podia. O que eu pego aqui é muito útil, porque se eu for comprar não dá, não tem condições. Eu aproveito de tudo que vem daqui”, afirma.

Segundo a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), além da redução do risco de doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes, câncer e doenças cardiovasculares, existem hoje evidências, em pesquisas que se intensificaram nas últimas décadas, do papel da segurança alimentar na melhoria do desempenho mental e físico, no retardamento do processo de envelhecimento, no fortalecimento do sistema imunológico, entre outros.

Sociedade Civil e Governo lutam contra a fome

Um grupo de amigos se uniu para atender famílias que estão carentes devido à crise econômica e moradores de rua, com agasalhos e alimentos – cestas básicas, marmitas e sopas comunitárias, desde janeiro deste ano. Para isso eles contam com a ajuda da sociedade civil através de doações e da parceria com o B. A. de Tatuí (SP) que reserva semanalmente produtos para o “Nós Por Eles”, de modo em que atendem 25 moradores de rua na cidade aos domingos e terças. O projeto social é um exemplo da procura do Banco de Alimentos por expandir sua rede de assistidos: parcerias com entidades e projetos que também colaboram com o combate à fome.

Em janeiro de 2003, logo no início do primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva, foi criado o Programa Fome Zero, com o objetivo de combater a fome e suas causas estruturais -, e no ano seguinte houve a criação do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), que une essa questão a programas de transferência de renda, de fornecimento de energia elétrica e para construção de cisternas em regiões
castigadas pela seca. Com isso, entre 2000-2002 e 2004-2006, a taxa de desnutrição no Brasil passou de 10,7% a menos de 5%.

Após 11 anos, o número de pessoas subalimentadas caía 82,1% – a maior queda registrada entre as seis nações mais populosas do mundo –, segundo dados de um relatório divulgado em 2014 pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o Brasil saía então do mapa da fome.

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Laís Seguin

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