Curas, tradição e fé no Espírito Santo

Laraíne Franco repete o ato de fé há 8 anos. Todos os anos se prostra aos pés do Divino para agradecer pela cura milagrosa de seu filho Thales. O menino foi curado de um câncer e hoje vive uma vida normal, como qualquer criança.

Laraíne Franco com seus filhos Talles e Arthur nos amortalhados, durante a Festa do Divino, em Anhembi. (Arquivos de Laraíne Franco)

Em 2010, Talles Franco Buzetto, irmão gêmeo de Arthur Franco Buzetto, na época com apenas 3 anos de idade, foi diagnosticado por médicos com um câncer maligno em um dos rins. A mãe, Laraíne Franco Buzetto, conta que Talles começou a apresentar sintomas de uma virose, febre alta e problemas no intestino. Com a persistência dos sintomas, os médicos encaminharam a criança para um exame de Ultrassonografia, e após o exame Talles foi levado direto para a UTI do hospital. Naquele momen

to a equipe médica já sabia que o jovem menino estava com um tumor no rim esquerdo.

Laraíne diz que quando soube da notícia por um dos médicos, sentiu seu mundo desabar.  “Quando eu perguntei para o médico o que meu filho tinha, ele disse que o Talles estava com um câncer, e que era maligno, e ele teria que fazer um transplante de rim. Naquele momento foi como se um buraco abrisse no chão e eu estivesse caindo dentro”, lembra.

Talles foi transferido para um hospital de Campinas, pois o tumor estava crescendo muito rápido e o caso se agravava. Entre um exame e outro, no desespero dos corredores, Lara fazia suas orações e pedia ao Divino Espirito Santo que seu filho ficasse bem. A fé era, naquele momento, a única força que a mantinha em pé.

Laraíne nasceu em Anhembi e seus pais, Dona Zélia e Seu Sílvio Franco, são de famílias tradicionais da cidade. Por estarem em terras abençoadas pelo Divino, toda a família se juntou em oração e entregaram a vida do pequeno Talles aos pés de uma pombinha sagrada. Ela conta que sentia uma cidade inteira em oração. “Quando eu estava no hospital, angustiada e nervosa, eu sentia muito forte que tinha muita gente rezando pelo Talles e por toda nossa família, e essa força eu tinha certeza que vinha de Anhembi”.

Após 15 dias de angústia no hospital, os médicos constataram através de uma biopsia que se tratava de um linfoma não-Hodgkin, e que não seria mais necessário o transplante de rim. O pequeno Talles teria que passar por sessões de radio e quimioterapia.

Talles ficou um ano em tratamento. Durante todo esse tempo, a sua avó, mãe de Laraíne, agia em silêncio. Com muita fé, fez uma promessa ao Divino Espírito Santo, pedindo a cura de seu netinho. Sem que ninguém soubesse, Dona Zélia já havia colocado a saúde do pequeno Talles embaixo das asas do Espirito Santo.

Pai de Talles, Marcelo Buzetto, como irmão do Divino Espirito Santo, pagando a promessa (Arquivos de Laraíne Franco)

O diretor da Irmandade do Divino Espirito Santo, na época Mauro Ataíde, foi até a casa de Laraíne para visitar Talles, em Piracicaba. Mas não foi sozinho, levou com ele a bandeira do Divino. Laraíne conta que estava sentada no sofá com o Talles no colo quando Mauro os cobriu com a bandeira. “Naquele momento eu só chorava, e todos que estavam ali também choravam”, lembra a mãe emocionada. Ataíde se levantou, olhou nos olhos da mãe e disse que o menino Talles estava curado, que naquele momento o Divino havia expulsado dali todo o mal.

Dias depois, para a surpresa dos médicos e felicidade de toda a família, os exames de Talles não apresentaram mais nada. O pequeno menino da família Franco Buzetto estava curado.

Quando o Pai de Talles, Marcelo Buzetto, soube da cura do menino, entre lágrimas de emoção e agradecimento, disse que queria viajar junto com a Irmandade do Divino, por nove dias, de canoa, agradecendo ao Espirito Santo pela cura do filho.

O que ninguém sabia é que a promessa da avó já envolvia o pai de Talles. Dona Zélia quando fez sua oração pedindo a cura de seu neto, ofereceu, como penitência, que se o menino fosse curado, seu genro iria ser um irmão do Divino, ou seja, iria participar de uma viagem de nove dias de canoa junto com a Irmandade.

 

 

 

Ser mãe

Rosana Fexina é nascida em Conchas, município vizinho de Anhembi, onde trabalha como professora. Ela conta que não conhecia a Festa do Divino. Passou a conhecer no ano de 2001, quando se mudou para a cidade.

Por muito ouvir falar, Rosana passou a participar dos eventos tradicionais que antecedem o festejo. Começou a ver mais de perto toda a mobilização do povo anhembiense. Foi se inteirando, observando a reação da população diante de todo o cortejo festivo em honra ao Divino Espírito Santo.

Rosana conta que quando assistiu ao encontro das canoas pela primeira vez sentiu uma coisa inexplicável. “Foi algo além de mim, me dominou completamente, me emocionou, e naquele momento eu entendi realmente o que todo aquele povo buscava”.

Ela passou a participar mais ativamente. Em 2004 tomou a iniciativa de se deitar nos amortalhados. Entre tantos outros fieis, cada um com a sua singularidade, Rosana se deitou, coberta com um pano branco, com uma intenção muito forte em seu coração. Ela pedia ao Divino a graça de ser mãe.

Após ser abençoada por toda a Irmandade, ao se levantar Rosana notou que uma fita da bandeira do Divino estava sobre ela. Sem saber o que isso significava ao certo, junto com seu esposo, Fabrício, foi procurar por algum membro da Irmandade do Divino. Pedindo para deixar a fita sobre o chão, um irmão do Divino informou que este fato simbolizava um pedido que seria realizado.

E depois de muito tempo tentando, a gravidez finalmente veio. “Foi só eu pedir com muita fé ao Divino e a graça aconteceu”, diz Rosana. Durante os nove meses tranquilos de gravidez, Rosana mantinha dentro de si uma intenção muito forte, queria um dia contar ao filho essa história, e se fosse da vontade dele, poder vê-lo junto com a Irmandade do Divino.

Rosana nunca contou sobre essa intenção ao filho Renan. Ele, por livre e espontânea decisão, pediu a sua mãe que gostaria de ser um irmão do Divino, e participar junto com toda a Irmandade de uma viagem em oração. “Não precisou eu pedir isso a ele, eu nunca revelei isso, só tinha isso em pensamento”, afirma.

Renan Fexina, folião da Irmandade do Divino Espirito Santo (Foto: Gabriel Campos)

Em 2014, com apenas 9 anos de idade, Renan embarcou pela primeira vez. Vestiu o uniforme azul e vermelho, segurou em seu remo com fé, e junto com os outros irmãos, seguiu viagem. Enfrentou sol, chuva e frio. Viveu nove dias como Irmão do Divino. Enfrentando as mesmas dificuldades que todos enfrentam, mas também experimentando do mesmo amor derramado pelo Divino Espírito Santo.

Mesmo sabendo que seu filho estava com dores, Rosana foi forte e aceitou a vontade de Renan em continuar na viagem. “Eu entendi que era um chamado do Divino na vida dele e na minha vida”, diz a mãe.

Após essa viagem, as bênçãos do Divino só aumentaram. Em 2015, Renan foi convidado a ser folião da Irmandade. Ele faria parte das crianças que cantam durante a viagem pedindo pouso, alimento e esmola para as famílias que os recebem.

“Essa experiência que eu vivi foi a maior e melhor experiência de fé e da presença do Divino na minha vida. Desde aquela fita caindo até os dias de hoje eu sinto que o Divino age na minha vida, na vida do meu filho e de toda a minha família”, diz Rosana.

E para o jovem Renan, não tem como explicar tudo isso. Ele diz que começou a viajar por curiosidade e que hoje sente uma força grande quando canta as sarangas para as famílias que recebem a Irmandade.

Renan conta que o momento em que sentiu mais forte a ação do Espirito Santo, foi na morte de Betão, um Irmão do Divino que era responsável por ensaiar os foliões. Betão faleceu em um acidente de trabalho, e após a tragédia Renan não queria mais ser folião. “Eu não ia ser mais folião, nisso senti o espírito santo dizendo que eu deveria continuar a ser folião, que era o que o Betão queria”, explica emocionado.

 

Festa popular reúne milhares em Anhembi

 

Em Anhembi, a “Fé” é motivo de vida para muitas pessoas. Acreditar naquilo que não se vê e colocar todas as suas esperanças numa força maior tem sido o motor que mobiliza uma cidade inteira a comemorar a Festa do Divino Espirito Santo.

Anhembi é uma cidade do interior do estado de São Paulo, localizada há aproximadamente 220 km da capital, com pouco mais de seis mil habitantes. Todos os anos esse cenário tem data marcada para mudar. No dia da tradicional Festa do Divino, a cidade recebe, em média, 50 mil pessoas. A grande maioria desses visitantes vêm para agradecer, cumprir promessas ou fazer pedidos ao Divino.

Com mais de 150 anos de história, o movimento religioso teve início por volta de 1846. Na época, as famílias de Luiz Lianoel, Luiz da Cruz e João Barbosa começaram a fazer novenas ao Divino Espirito Santo para pedir a cura das doenças que estavam afetando as famílias na região. A penitência oferecida era viajar de canoa pelo rio, passando de casa em casa, fazendo orações, entoando louvores e cantigas. Como agradecimento, os anfitriões da casa ofereciam café e bolinho de mandioca aos irmãos.

Com o passar dos anos, o cortejo tornou-se popularmente conhecido. Os padres que davam assistência na região resolveram fazer com que esta devoção espontânea coincidisse com o Pentecoste, data comemorada pela Igreja Católica para simbolizar a descida do Espirito Santo sobre os apóstolos. Assim iniciou uma festa em honra ao Divino Espirito Santo, que em Anhembi é festejada no quinquagésimo dia após a Páscoa, o que faz com que a festa não tenha uma data fixa e varie de ano a ano.

Com o crescimento popular da festa surgiu a necessidade de uma melhor organização. Criou-se então a Irmandade do DES (Divino Espirito Santo) com seu diretor, secretario, tesoureiro, e nas canoas os proeiros, que dão ritmo às remadas, os pilotos, que governam as canoas. Tem também os salveiros que, munidos de trabuco, soltam tiros de pólvora. Esses tiros com trabuco funcionam como um aviso da Irmandade para o povo, de que estão passando pelo local.

Encontro das canoas antigamente (arquivos)

No dia do encontro das canoas, que é ápice da festa, a roupa branca utilizada pelos irmãos simboliza que a missão foi comprida. Às margens do Rio Tietê se transformam em uma verdadeira plateia. Quem chega atrasado não consegue assistir a este momento que inspira e emociona a todos. Os fogos de artifício no céu simbolizam o Pentecostes, a vinda do Espírito Santo. Os remos movem ás águas impulsionando as canoas com a mesma força que batem os corações dos fiéis.

Aproximadamente 120 irmãos do Divino desembarcam das canoas e seguem para o cortejo dos Amortalhados. Devotos se deitam ao chão, cobertos com lençol branco, e os irmãos pulam, um a um, pedindo que o Divino abençoe.

Deitar-se aos pés do Divino simboliza um ato de fé e devoção. Neste momento de entrega é possível ver mães com seus filhos no peito, famílias se abraçando, idosos e até crianças, que envoltos pelo pano branco se emocionam, choram, rezam, e agradecem pelas graças alcançadas.

A capela da ponte, como era chamada a cidade de Anhembi, tem sua tradição religiosa, que é maior que um folclore, é a tradição de Fé do povo que ainda se mantem viva.

 

 

Trecho do Hino de Anhembi

E na Correnteza, / A Pomba Divina

Sagra Bandeiras e Tradição

E o Grã Anhembi Representado,

Enseja Cultura em Ação.

 

Anhembi Centenária Bendiz

O Divino e Supremo Arquiteto,

Criador desse Eldorado tão Rico,

Terra- Mãe de Gente Feliz.

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Gabriel Luis Campos

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