Defensivos agrícolas: Até que ponto a economia vale a pena?

Post By RelatedRelated Post

A importância do agronegócio (agricultura e pecuária) para a economia brasileira é indiscutível. Mesmo diante do atual cenário de crise política, econômica e social que o país enfrenta, sua participação no PIB continua alta: fechou em cerca de 21,5% no ano passado, de acordo com o último estudo realizado pelo CEPEA (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da ESALQ (USP). Na agricultura, o desafio é sempre produzir mais em menos tempo e área – e de forma cada vez mais sustentável. Para produzir, é preciso combater as pragas, através de “agrotóxicos”, que atrapalham o processo e causam perdas para as culturas. Com o passar dos anos, a busca pelo aprimoramento das plantas e o combate sustentável a essas pragas resultou nos defensivos agrícolas. A pesquisa e o desenvolvimento desses produtos, porém, custam caro. Os “defensivos genéricos” (com patentes expiradas) surgem nesse cenário como a alternativa mais rentável para os agricultores, mas a curto prazo. A longo prazo, podem ameaçar o financiamento de novas pesquisas.

Cultura de trigo (Molostock / Freepik)

Cultura de trigo (Molostock / Freepik)

Agronegócio no Brasil

De maneira geral, o agronegócio pode ser definido como a junção de atividades produtivas que estejam ligadas à produção (e subprodução) de produtos derivados da agricultura e pecuária. Neste campo, a posição do Brasil é invejável, sendo considerado como um dos principais fornecedores de alimentos e matérias primas para o mundo. O ex-ministro da Agricultura Antônio Andrade, que comandou a pasta entre 2013 e 2014, explica: “Em primeiro lugar, é pela disponibilidade de área para produção de grãos, carnes e plantações de florestas comerciais. Em seguida, por possuirmos entre 12 e 18% da água doce do planeta”.

Falando em produção, não é raro observar a agricultura salvando o PIB total de previsões pessimistas. Isso coloca responsabilidade e pressão sobre o setor, que precisa buscar artifícios para se manter em pé. Assim, as organizações privadas não economizam na hora de investir em pesquisa – e é deste meio que surgem os defensivos agrícolas.

Combatendo pragas

Nos últimos anos, a produtividade agrícola do país subiu em disparada. Em 2009, por exemplo, o superávit comercial com produtos agrícolas (de US$ 30,6 bi) superou o americano, considerado, na época, como maior produtor mundial. Como as taxas de perdas causadas por ausência de controle ficam em torno de 30 a 40% da plantação, o desenvolvimento de defensivos precisou acompanhar esse aumento da demanda.

Este contexto atrai a atenção de várias multinacionais, por ser uma oportunidade rentável. Um exemplo é a BASF, que na década de 80 instalou a Estação Experimental Agrícola na cidade de Santo Antônio de Posse (interior de São Paulo). O principal objetivo da instalação é desenvolver novas tecnologias para o desenvolvimento de defensivos, além de dar suporte técnico durante a fase de pesquisa (realizada em outros países).

O processo para que um produto chegue ao mercado pode ser dividido em três partes: pesquisa (de moléculas e substâncias), desenvolvimento do produto e registro no IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). Esse processo envolve diversas áreas – como biologia, química e toxicologia – e laboratórios ao redor do mundo, com o custo final ficando em 290 milhões de euros. Entre a síntese de substâncias e a produção efetiva do defensivo, vai um período de 10 a 12 anos. E não é só isso: a cada 160 mil moléculas sintetizadas em laboratório, um produto é desenvolvido. No ano passado, cerca de 1300 patentes – produtos finalizados reconhecidos como propriedade da empresa – foram registradas no Brasil pela BASF.

Aplicação de agroquímicos (Molostock / Freepik)

Aplicação de agroquímicos (Molostock / Freepik)

Como esse mundo funciona

Grosso modo, o mercado de defensivos se divide em dois segmentos: produtos com patentes e produtos genéricos.

Com as patentes, as empresas podem explorar economicamente seus produtos com exclusividade por um período de 20 anos. “Também busca-se investir no reconhecimento de suas marcas e relacionamento com sua rede de distribuição”, diz o engenheiro Martim de Oliveira e a economista Letícia Magalhães no artigo A indústria de defensivos agrícolas. Levando em conta que o processo até a distribuição demora 12 anos, as empresas possuem cerca de 8 para que os investimentos “se paguem” e rendam. Dessa forma, novas pesquisas são bancadas. É um ciclo.

Já no caso dos genéricos, trabalha-se com patentes vencidas e a grande jogada de reduzir os custos. Como os defensivos são considerados como o segundo insumo mais importante para uma safra (ficando atrás apenas dos fertilizantes), os genéricos levam vantagem. Com preços mais em conta, eles se tornam a principal escolha dos agricultores. E isso é uma faca de dois gumes.

Febre dos genéricos

O que acontece é que, com o tempo, o uso dos genéricos “pegou” no agronegócio. “No Brasil, a participação dos genéricos passou de praticamente zero para 48,7% da receita total do mercado brasileiro”, diz Cristine Sampaio, repórter do Jornal Urbano da UniSEB. Em outras palavras, pouco a pouco os defensivos genéricos estão se tornando a escolha principal dos produtores. O que preocupa é o efeito que isso pode causar a longo prazo.

As instituições defensoras dos genéricos apontam que a sociedade sai prejudicada com as patentes pelo efeito cadeia: a utilização de desse tipo de defensivo agrícola sai mais cara para o produtor, o que pesa no bolso de todos, principalmente do consumidor final – nós. Como os defensivos genéricos são produtos testados e regularizados pelos Ministérios da Agricultura, Saúde e Meio Ambiente, defende-se também que sua qualidade e eficiência se equiparam às patentes. Isso significa que o produtor agrícola poderia adquirir um produto tão bom quanto os “convencionais” por um preço mais em conta. Melhor para ele, melhor para nós, certo? Talvez.

Como já ressaltado, defensivos agrícolas são usados contra pragas que afetam as culturas. Essas pragas estão em constante processo de mudança (também chamada de mutação). Conforme novas espécies de pestes surgem, novas pesquisas precisam ser realizadas para que novos defensivos cheguem ao mercado. Porém, se esse mercado parece dar preferência aos produtos com substâncias “obsoletas”, de que forma as empresas detentoras de patentes terão fôlego para continuar suas pesquisas? É um nó. Embora a luta pela democratização da comercialização dos defensivos seja válida, um efeito colateral pode estar a beira de estourar. Nosso bolso agradece aos genéricos, mas e nossa saúde?

Sementes (Molostock / Freepik)

Sementes (Molostock / Freepik)

Share

Pedro Spadoni

DEIXE UM COMENTÁRIO

Email (will not be published)

*