Dificuldades e deveres que vão além da sala de aula

Saber conviver em grupo, morar em uma cidade desconhecida, ter que se virar para fazer a comida, aprender a controlar os próprios gastos e viver longe dos pais… Fazer um curso superior também pode oferecer outros desafios além daqueles que o próprio curso já oferece


Vitor Delmondi sentiu saudades da sua cidade, dos amigos e da “mordomia” de morar na casa dos pais, tudo por causa da faculdade, suas pretensões profissionais dependiam de um curso superior.
Vitor resolveu sair de Limeira, no interior de seu estado para ir à capital São Paulo estudar Produção Musical na Universidade Anhembi Morumbi. Ele, assim como a maioria dos jovens que passam pela mesma experiência, teve que superar dificuldades em uma cidade nova, mas garante que o esforço lhe trouxe importantes lições e que amadureceu com essa experiência: “No começo é um pouco estranho morar longe dos pais, mas é bom porque te dá mais independência e mais maturidade em suas decisões”.

“O que eu mais gostei é que São Paulo oferece de tudo para todos. Existem diversas opções de lazer para todos os gostos e estilos, empregos em qualquer área, não importando o quão diferente ela seja. Já o que menos gostei eram as dificuldade em dias de chuva.” - Vítor Delmoldi, 19 anos. formado em Produção Musical na Universidade Anhembi Morumbi.

As dificuldades de adaptação e a constante saudade dos pais, tudo pelo objetivo de ser formar em um curso superior, se transformam em importantes lições que podem servir para toda a vida do estudante.


O novo endereço, a nova casa, os novos amigos…

O início costuma ser o período mais divertido, tudo é novidade, a curiosidade é enorme, novas amizades, a adaptação a nova cidade e os primeiros dias de distância dos pais já começam a mexer com a cabeça destes jovens que precisam encontrar no meio desta onda de coisas novas, informações de valor que irão auxiliá-los nos primeiros dias.

A psicóloga Lígia Figueiredo alerta que procurar informações com pessoas que conhecem o lugar já vai garantindo certos conhecimentos que farão a diferença nos iniciais processos de adaptação: “Na chegada, vale se informar com colegas e vizinhos sobre serviços necessários como lojas, farmácias, médicos, academias, lavanderias. Em geral as pessoas gostam de ajudar alguém que está chegando e indicar lugares confiáveis”.
Os primeiros dias costumam ser animados, é o que diz Aline Fernanda, 20 anos, que saiu de Iracemápolis, interior de São Paulo, para estudar Educação Física na Universidade Federal de Viçosa em Minas Gerais: “Quando você chega tudo é festa e novidade”.

“Sinto muita falta dos amigos que deixei, de um povo que acolhe como ninguém quando te conhecem. Para minha vida com certeza foi uma experiência que não terei outra oportunidade e que me ensinou a ver a vida de um modo diferente, e posso dizer que com certeza amadureci muito.” – Aline Fernanda, 20 anos. Estudou Educação Física na Universidade Federal de Viçosa em Minas Gerais e hoje faz fisioterapia na Unimep.

Em um novo lugar diferenças serão encontradas, se adequar ao estilo de vida de pessoas de uma nova cidade, por exemplo, é outro obstáculo a ser vencido, Thaís Celine de 19 anos, sabe bem o que é isso: “A diferença mais evidente no início era o clima, morava em um lugar quente e bem abafado e em São Carlos venta o tempo todo, é bem fresco e mais frio”, citou Thaís que saiu de Ipatinga, interior de Minas Gerais, para estudar Engenharia Física em São Carlos na UFSCAR.

Thaís também teve contato com diferenças de vocabulário e de personalidade entre mineiros e paulistas: “Há diferenças de costumes, de vocabulário e o sotaque é bem diferente também. Os mineiros são mais “fechados” que os paulistas. E mesmo com todas essas diferenças eu não me senti estranha, pois fui bem recebida pela cidade e pela universidade.”

“Eu sempre tive vontade de sair da casa dos pais, morar fora para estudar, mas nunca pensei que ia parar tão longe. Nunca tinha pensado que ia mudar para outro estado! São muitas diferenças as quais tive que me adaptar para seguir em frente com o curso, e encaro essas mudanças/adaptações como um crescimento pessoal e até profissional, pois isso me ajudará a me adaptar melhor quando for preciso em minha carreira. É um ‘sacrifício’ que vale a pena.” – Thaís Celine, 19 anos, estudante de Engenharia Física na Ufscar.

Tuíro Camboim Morais passa atualmente pela experiência de ter que morar em um novo estado. Tuíro saiu de Fortaleza, capital cearense, para estudar gestão de políticas públicas no campus da Unicamp em Limeira, o universitário diz ter notado uma diferença considerável entre paulistas e cearenses: “As pessoas têm a mente mais aberta em São Paulo. Acho que encontrei dificuldades, principalmente, quanto ao jeito mais fechado do paulistano”.

A vontade de desistir…

Em meio a todas essas novidades que permeia a vida desses universitários, algumas questões podem sair daquilo que muitos pensaram ou imaginaram e a vontade de desistir pode aparecer.
Rodolfo Mondoni saiu de Piracicaba para estudar jornalismo na Faculdade Cásper Líbero em São Paulo e presenciou colegas de faculdade que desistiram, segundo o jovem, os motivos mais comuns eram ligados as dificuldades na adaptação: “Há vários casos e por motivos diferentes. Os mais frequentes são relacionados a problemas financeiros e dificuldade de adaptação”.

“Mudar de cidade foi uma experiência muito importante na minha vida, estou aprendendo a dar mais valor as coisas e as pessoas. Surgem várias situações inusitadas das quais nunca tinha tido contato. Estou aprendendo muito. Há dias que da vontade de desistir e voltar para casa, mas logo mudo de idéia porque sei que estou tendo uma oportunidade que poucas pessoas têm, principalmente num país como o nosso que ainda não da atenção para educação e formação dos jovens.” Rodolfo Mondoni, 21 anos, estudante de jornalismo na Faculdade Cásper Líbero em São Paulo.

Lígia Figueiredo afirma que desistir não é a melhor saída para resolver algum problema na adaptação: “Só vale a pena desistir caso perceba que não houve identificação com a área escolhida, ou perceba-se que a faculdade é muito ruim. Então se desiste para buscar outra melhor”.


A difícil vida longe dos pais

A falta da presença constante dos pais, a saudade e muitas vezes até o medo também são outras barreiras a serem vencidas nesta etapa da vida.
Na hora da alimentação, a saudade daquela comidinha da mamãe é sentida por praticamente todos os estudantes, Vítor Delmondi relata que na república onde morou todos faziam sua própria comida e que estranhou um pouco no início essa mudança: “Em casa, a comida já estava pronta, na república cada um fazia a própria comida”, disse.

Tuíro Morais observa que fazer o curso universitário e viver longe dos pais significa aumentar as responsabilidades consigo próprio, saber ver seus limites e ter a consciência de que um dia vai ter que correr atrás do seu próprio sustento.
Quanto à tarefa de ter que se virar para preparar a comida, Tuíro recorreu à criatividade e também a pesquisas: “Foi difícil no início aprender a cozinhar, que sai bem mais barato do que comer fora todos os dias, mas nada como a internet e revistas universitárias para aprender os primeiros pratos. Cozinhar para alguns, passa a ser um hobby, eu gosto de aprender novas receitas, comer coisas diferentes”.

Aline Fernanda considerou a saudade dos pais uma de suas maiores dificuldades no seu processo de adaptação: “Saber que meu pai estava doente e eu, que sempre fui muito ligada a ele, estava morando a 14 horas de casa, acabava com meu dia”, disse Aline que após concluir o 2º semestre do curso em Viçosa, resolveu voltar a sua cidade para ajudar seus pais que estavam passando por problemas de saúde. Atualmente Aline faz fisioterapia na Unimep.

Assim como o cearense Tuíro Morais, Rodolfo Mondoni também teve dificuldades para preparar sua comida. Ficar longe da mãe na hora da fome fez com que Rodolfo se virasse na cozinha: “Antes de morar sozinho só sabia fazer miojo. Aqui tive que aprender muita coisa nova. Minha mãe me ajudou, mas muitas coisas tive que aprender sozinho.”

A mineira Gabriela Luíza, de 21 anos, saiu de Itabira, cidade a 104 km de Belo Horizonte, para estudar odontologia na Universidade Federal de Minas Gerais, que fica na capital, para a jovem aspirante a dentista, morar longe dos pais traz liberdade, mas essa liberdade traz como resultado a responsabilidade: “A gente ganha mais liberdade, pode comer a hora que quiser, sair e chegar quando bem entender, usar a roupa que quiser. Hoje entendo que tudo o que faço vai trazer consequências e que eu sou responsável pelo que me aconteça.”

Saber controlar os próprios gastos

Com a ausência dos pais a responsabilidade pelos próprios gastos se intensifica. A independência traz a necessidade de ter que saber planejar e viver dentro de um orçamento. Vários recorrem a estágios e outros programas para dar aquela forcinha na renda.

Rodolfo Mondoni sempre está atento com as questões financeiras e diz que evita aplicar o seu dinheiro em coisas supérfluas: “Meus pais me ajudam. Sempre que preciso falo com minha mãe e ela deposita, mas não abuso, não saio com esse dinheiro para balada ou compro coisas desnecessárias”.

Tuíro Morais aprendeu a planejar orçamentos: “Meu orçamento é todo bem planejado”, falou o estudante que morando sem os pais também tem que “dar seus pulos” com estágios para não ficar sem dinheiro e destaca o auxílio que a universidade proporciona aos estudantes: “A Unicamp oferece várias bolsas e auxílios e tem as oportunidades de estágio e iniciação científica que colaboram nesse quesito.”


Dificuldades que amadurecem e ensinam

A experiência de ter que se virar longe dos pais para estudar traz conhecimentos até mesmo pessoais, o jovem passa a se avaliar melhor e vê que muito do que aprendeu nestes pequenos acontecimentos diários serão tão úteis quanto aquilo tudo que aprendeu em seu curso. A maturidade é a grande herança que uma longa estada longe dos pais pode deixar na vida destes estudantes.
Lígia Figueiredo acredita que essa experiência será um fator determinante na vida pessoal: “É preciso aproveitar cada oportunidade para crescer, expandir horizontes e se conhecer melhor. Compreender que será uma fase de experiências novas, quase um ritual de passagem para a vida adulta, e que pode ser lembrada pelo resto da vida, como um marco importante da sua história”.

Share

Filipe Sousa

Estudante do 4º semestre de Jornalismo da Unimep. Atualmente trabalha no setor técnico da TV Mix Regional. www.facebook.com/filipetrsousa wwww.twitter.com/sousafilipe www.blogdofilipesousa.wordpress.com

Um comentário em “Dificuldades e deveres que vão além da sala de aula

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*