Disputa eleitoral acirra debate político e ideológico

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Pichação crítica ao Bolsonaro na Avenida Renato Wagner em Piracicaba. (Foto: Letícia Santin)

A disputa eleitoral entre Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT), principalmente no segundo turno da disputa presidencial, levou a um acirramento do debate político no país e provocou discussões calorosas entre as denominadas direita e esquerda no Brasil.

Essa ampliação do debate, entretanto, não necessariamente significou aumento da consciência política.  É o que pensa sobre a questão o professor de geografia Marcio Masatoshi Kondo, para quem falta conhecimento às pessoas envolvidas. “Quando eu vejo essa juventude fazendo política, eu olho e falo, isso não é política, são pessoas gritando sem conhecimento de causa, repetindo chavões, sejam à direita ou à esquerda, mas repetindo chavões, sem nenhuma consistência, sem nenhuma substância, é como eu estou vendo o momento de hoje”, afirma.

Para Kondo, o sistema de polarização é antidemocrático, pois as vozes alternativas nunca são ouvidas. “Na corrida presidencial dos Estados Unidos são dezenas de partidos e no final quem é? Republicano e Democrata”, diz. Ele acrescenta que o nível baixo de aquisição política das pessoas faz com que enxerguem a política de forma maniqueísta. “É global isso, tem até na Europa, não é uma questão de subdesenvolvimento, é como se politizam as pessoas, ou você ama ou você odeia, é uma discussão política que se faz mais com o ódio”, argumenta.

A diferença entre a polarização brasileira para a polarização estadunidense, segundo a pesquisa Opinião Pública e Polarização Política: Origem, Causas e Consequências, de André Bello, é que no Brasil a política é multipartidária. Deste modo, a identificação partidária do eleitor brasileiro depende de atitudes políticas, que são: políticas redistributivas (os recursos são transferidos de um grupo a outro para corrigir as desigualdades sociais, por isso envolvem algum tipo de conflito), morais (assuntos sobre valores, como o aborto e a pena de morte, e conectam-se com as identificações religiosas) e sociais (educação, saúde e segurança).

Para o estudante de Geografia Matheus de Campos, o país precisa de investimento na infraestrutura e na educação, além da inserção dos menos abastados na política econômica vigente. Por defender esta visão, destinou seu voto a um candidato que tem políticas parecidas com o Fome Zero, Bolsa Família, com a política de inserção dos pobres, dos negros, das minorias nas faculdades. “Eu espero que o Estado ampare as pessoas que precisam dele para sobreviver”, justifica.

Já o estudante de Educação Física Gabriel Palma afirma que por dar valor à família, ser contra o aborto e a favor do armamento, preferiu um candidato que desse a cara para bater. “O armamento já tá nas mãos das pessoas, mas tá nas mãos das pessoas erradas, nas dos bandidos. Aqueles que são contra é porque não têm um familiar policial que tem que subir na favela, que tem que enfrentar os bandidos no dia a dia, senão a primeira coisa que ia pensar é ter uma arma e tentar se proteger”, argumenta.

O estudante de Geologia Alexandre Menezes espera que o Brasil seja capaz de crescer o suficiente para alcançar países desenvolvidos, mas com uma prática que permita incluir as pessoas não pelo consumo, mas sim pela capacitação, por dar instrumentos e condições para que o brasileiro possa produzir. Ele conta que no primeiro turno votou em Ciro Gomes (PDT). “A esperança era democratizar as oportunidades”, diz.

Monólogo

Adelino Francisco de Oliveira, professor de filosofia do IFSP (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo), considera que o acirramento do debate, infelizmente, não produziu os melhores efeitos possíveis. Ele diz que o acirramento, no sentido mais positivo, resultaria em uma sociedade mais politizada, mas não foi o que ocorreu nas eleições deste ano. “Quando discutimos, conseguimos escolher o que é melhor, mas não estamos fazendo isso, a gente vive num quadro de monólogos”, diz. E completa argumentando que, na sua visão, faltou disposição para o diálogo.

Para o estudante Matheus de Campos, a polarização é resultado da combinação de fake news nas redes sociais e do “ódio que a grande mídia tem em relação à esquerda, principalmente ao PT e ao ex-presidente Lula”. Gabriel Palma diz que gostando ou não de determinado discurso, o respeito é necessário. Ele afirma que por ser contra aborto e ideologia de gênero, é contra o PT. “Eu não abro minha mente para essas questões”, destaca. Por sua vez, Alexandre Menezes diz que a grave crise econômica e social acabou por tornar a polarização mais extrema e violenta.

Kondo explica que conflitos de interesses de grupos de elite é que intensificam o confronto. “O Brasil é um país de grupos diversificados, você não tem uma nação, você tem uma superfície que fala português, só que o indivíduo do Sul não se vê no indivíduo do Norte e vice-versa, o cara do Nordeste não se vê no Sudeste e vice-versa”, diz. Estudos empíricos sobre o comportamento político no Brasil revelam a importância da renda para o voto. Há, nesse sentido, um vínculo da posição socioeconômica com as visões de mundo, de maneira que o voto representa potencialmente os interesses de classe, de acordo com Bello.

Pichação crítica ao Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) na Avenida Renato Wagner em Piracicaba. (Foto: Letícia Santin)

Kondo diz que “essa polarização não é positiva, nenhuma polarização é positiva, porque ela leva sempre a um extremo e pela 3ª lei de Newton o outro extremo vai reagir, e aí você tem um conflito”. E complementa: “no segundo turno você tem que escolher entre A e B, e aí complica, porque quando você faz a escolha do A, você vai estar sob ataque do B”.

Oliveira explica que o acirramento decorreu da ideia de que o grupo político até então dominante, independentemente de partido, é um grupo político dominado por bandidos e corruptos, desde a Lava Jato. Com isso, uma parcela ampla da população desenvolveu um sentimento de antipolítica, mas nesse sentimento antipolítico, um sentimento anti PT. “Essa destruição da ideia de política, a ideia de que todo político é corrupto e que o PT é uma quadrilha, acabou direcionando uma parcela significativa da população para um campo político chamado de extrema direita. Isso não significa que as pessoas concordem com o discurso de extrema direita, mas há uma construção de um cenário que levou a isso”, explica.

O docente acredita que o debate no país regrediu a um momento político em que se retoma abordagens da década 70, que fala que a violência se resolve com mais polícia. “Sabemos no mundo inteiro que a causa maior da violência é a miséria, a gente só combate a violência investindo em educação, qualidade de vida ou promovendo justiça social, enquanto nós tivermos periferias tão abandonadas e jovens com tão poucas oportunidades, nós vamos ter um quadro de violência”, afirma.

Kondo chama a atenção para outro aspecto e lembra que o eleitor ainda não entendeu que o voto fundamental é para deputado e senador.  “O executivo é que senta e faz os projetos de lei dele, mas quem aprova é o Congresso”, fala. E completa: “E para contrabalancear tem o Supremo, que se acham deuses, estão legislando nosso dia a dia, e mais, uma coisa é perigosa, quando você tem um assunto polêmico a ser discutido, você vai pro Supremo”. Segundo a pesquisa Opinião Pública e Polarização Política, outra consequência da polarização política é o aumento da relevância do judiciário, com a judicialização de todo o processo político.

Diante desse debate político, a mídia também é acusada de não cumprir seu papel. “O comportamento midiático hoje lembra muito aquele que o partido nazista fez na Alemanha com Goebbels, ou seja, manipular”, diz Kondo ao lembrar-se de Paul Joseph Goebbels, ministro da Propaganda na Alemanha nazista, que controlava a arte, a informação e a imprensa.  O professor diz que na campanha “Brasil que eu quero”, no fundo, cada cidadão que está gravado ali está reproduzindo o editorial da Globo. “Pensa um pouco mais, é mais do que isso. A mídia podia ter educado esse povo, podia elevar o nível da discussão, ela não faz isso, jornalismo não é só denuncismo, é educar também, você cansa de ver tanta denúncia, será que não se tira nada de positivo?”, pergunta.

No que diz respeito à representação e responsividade política, a mídia exerce um papel fundamental às democracias representativas porque é o principal canal para conectar os representantes e os representados. Ademais, as crises econômicas e agenda da mídia reforçam essa divisão entre os grupos sociais por serem importantes mecanismos de formação da opinião pública. Portanto, a economia e as notícias contribuem com a polarização política, de acordo com Bello.

Além da mídia tradicional, a internet exerce também sua influência. A rede tem sido marcada pelas fake news que são espalhadas diariamente na intenção de adquirir mais adeptos para determinado partido ou candidato. Sobre esse problema, Oliveira pondera que as fake news são um termômetro. “Se entendêssemos que a verdade é um critério para a tomada de decisão, quando você pega uma fake news, você fala: esse sujeito que precisa mentir, ele tá comprometido com o que? Aquele candidato que precisa inventar um monte de mentira, quer dizer que a verdade é algo que não o agrada”, afirma.

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Letícia Santin

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