Do campo à mesa

Responsável por 70% dos alimentos que chegam aos lares brasileiros, a agricultura familiar oferece alimentos mais saudáveis ao consumidor e recebe a atenção do governo federal no Plano Safra 2015-2016.

Muito mudou desde que Graciliano Ramos publicou Vidas Secas em 1938. Se antes a população do campo saía de suas propriedades para ir até às cidades para sobreviver, hoje o governo federal investe em políticas públicas que valorizam o trabalho rural.

Para o Plano Safra 2015-2016, R$28,9 bilhões devem ser liberados para pequenos e médios agricultores, com juros entre 2 a 5,5% ao ano. O valor de crédito é 20% maior do que o do ano passado. O Plano prevê o fortalecimento da agroindústria familiar, a ampliação do mercado – 30% dos alimentos comprados pela administração pública federal devem provir da agricultura familiar -, e assistência às cooperativas. Para o presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG), Alberto Broch, as taxas de juros poderiam ser menores. Assim, o agricultor conseguiria saudar suas dívidas e investir na produção.

DSC03040c
Agricultores recebem cultivares produzidas na Universidade Federal de São Carlos. (Foto: Carolina Carettin)

Entre os programas que fazem parte do Plano Safra, o de maior visibilidade é o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). Além dele, há outros associados: Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER), Seguro da Agricultura Familiar (SEAF), Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa Garantia Safra. “Contudo, estudos comprovam vários problemas no acesso a esses programas”, afirma Janice Borges, socióloga e docente do Centro de Ciências Agrárias (CCA) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). “Sobre o PAA, por exemplo, destaca-se a falta de informação, ou seja, há um desconhecimento dos produtores e até mesmo dos gestores públicos municipais sobre o programa”.

Mesmo com o desenvolvimento de políticas públicas e o aumento do crédito ao pequeno e médio produtor, muitos agricultores familiares ainda vivem em situação de pobreza e insegurança alimentar. Para o pesquisador e professor da UFSCar, Jean Cardoso, um conjunto de fatores deve ser melhorado para mudar a situação. “A dificuldade de acesso ao crédito e a falta de assistência técnica, planejamento e tecnologias adequadas resultam em baixa produtividade e, consequentemente, baixa renda, que mal possibilita o agricultor familiar a se manter na atividade e pagar o crédito obtido”, diz.

Para a produtora Ana Luisa Narciso Gomes, 32, que ajuda esporadicamente na horta de sua família, o crédito oferecido pelo governo é bom para o produtor que precisa comprar maquinário, por exemplo. “Mesmo com juros mais baixos, eu e minha família não precisamos fazer o financiamento, porque conseguimos cuidar da horta, que tem 800 metros quadrados. Já precisamos de crédito, mas em outro momento”, afirma.

Já o agricultor José Adenivaldo dos Santos, de 42 anos, faz parte de um assentamento irregular na área rural de Araras, São Paulo, e espera a visita dos técnicos da Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp) para conseguir a documentação necessária para pedir o financiamento e regularizar a terra. “A gente sempre precisa de uma pessoa que nos informe sobre esse tipo de programa”, diz. “Estou começando a plantar, então tive que comprar material para irrigação, bombas, máquinas. Comecei gastando”. Cerca de sete famílias ocupam a área, uma linha ferroviária desativada no bairro São Bento. Eles limparam o local, que ainda tinha pedras e pregos utilizados na construção dos trilhos, e não tem energia elétrica no local. Por isso, bombas à gasolina são utilizadas para irrigação.

Na sua mesa

Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) a agricultura familiar no Brasil corresponde a cerca de 40% da produção agrícola e é responsável por sete de cada dez empregos no campo. No mundo, as propriedades de agricultores familiares ocupam de 70% a 80% das terras agrícolas, conforme estudo da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO).

Além disso, 70% dos alimentos que chegam à mesa do brasileiro provém da agricultura familiar: o arroz, o feijão, as hortaliças. E muitas vezes, são produtos mais saudáveis, com menos agrotóxicos e insumos industriais.

As batatas-doce da horta do Sr. Albertino: qualidade sem uso de agrotóxico.
As batatas-doce da horta do Sr. Albertino: qualidade sem uso de agrotóxico. (Foto: Carolina Carettin)

O produtor rural Albertino Gomes, de 79 anos, começou a produzir em sua horta há seis anos e sempre morou no campo. Lá, ele e a família plantam hortaliças, legumes, ervas e plantas medicinais. “Não usamos agrotóxicos e todo produto é orgânico”, afirma. “Outro dia colhi uma batata com oito quilos”. Os produtos são vendidos para vizinhos e fregueses que já conhecem a família, além de serem utilizados para consumo próprio.

DSC03036c
Um dos estudos feitos pelos pesquisadores é com mudas de tomate-cereja. (Foto: Carolina Carettin)

No campus Araras da UFSCar, o Departamento de Desenvolvimento Rural (DDR) elabora pesquisas na área, apr

Share