EAD… Ensino, Ansiedade e Distanciamento social

A quarentena na vida de professores e seus filhos

Banho quente, okay. Chá de camomila, okay. Desligar celular, okay.

Depois de conferir a lista, apagou a luminária da cômoda ao lado da cama e aconchegou a face direita no travesseiro macio, enquanto se cobria. As pálpebras embalaram no silêncio da escuridão, enquanto o coração em samba pareceu declarar guerra.

A linha de frente chegou em turbilhão: o maxilar endureceu, a garganta fechou, a língua pareceu inchar. Contra o bloqueio, foco na respiração! Sem sucesso, a primeira defesa foi agarrar o smartphone, sempre perto, e dedilhar os sintomas seguidos de “coronavirus”. Em menos de um segundo, o ataque final: símbolos de alerta clarearam o quarto e ela se atentou às frases “Possíveis sintomas” e “Dificuldade para respirar (em casos graves)”. Nem percebera o resto.

O desespero causado pela informação só não foi maior do que o receio de procurar a emergência médica. Espaços públicos estão dando medo. A única opção parecia ser a insistente recomendação: “Fique em casa”. Apesar de angustiada com a falta de ar, deitou-se e de olhos abertos revisitou, de uma só vez, todas as atividades do dia seguinte, que aguardava mais desafio. A curva do gráfico começou a cair em algum momento, pois em sonho estava à frente da sala de aula novamente, as filhas seguras e brincando ao ar livre.

Professora de ensino fundamental, Kathlen Carpin tenta controlar há dias o sentimento de parcela crescente da população em distanciamento social: as crises de ansiedade. Mãe das meninas Gabriela, 12, e Manuela, 7, já começava a sentir os efeitos do fim das férias concedidas por 20 dias pelo colégio em que trabalha. Após esse período, voltaria a ser duplamente educadora. Cuidar da casa e ajudar as filhas nos deveres já não estava sendo fácil na “folga”, ainda mais quando as crianças ainda precisavam se acostumar às videoaulas.


 A pandemia decretada pela disseminação do coronavírus não só alerta para o vírus que afeta o sistema respiratório e outros órgãos como os rins, fígado e até o coração, pelo que sabemos até aqui. Como aponta a Organização Mundial da Saúde (OMS), o distanciamento social, necessário para conter a doença, atinge outra parte do corpo. Nesse momento, a saúde mental das pessoas é posta em xeque.

Os casos de ansiedade e estresse no Brasil aumentaram 80% na quarentena, segundo pesquisa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), que continuará o levantamento enquanto durar o isolamento. Os dados foram recolhidos em dois momentos, primeiro de 20 a 25 de março e, depois, de 15 a 20 de abril. O comparativo inicial dos meses revela que as crises agudas de ansiedade saltaram de 8,7% para 14,9% nas respostas dos participantes. A situação é a pior em comparação com o aumento de estresse (de 6,9% para 9,7%) e depressão (de 4,2% para 8,0%). Isso no país que já era considerado o mais ansioso do mundo!

Em 2017, a OMS divulgou a estimativa de pessoas com ansiedade e depressão no mundo. Não só na América, mas comparado ao globo, o Brasil estava à frente, na época com 9,3% da população com ansiedade.

No caso de Kathlen, o pânico só não é maior graças ao emprego, salário e saúde preservados. São fatores do aumento da ansiedade na pandemia: ter uma alimentação desregrada, a preexistência de doenças, a ausência de acompanhamento psicológico, o sedentarismo e mesmo a necessidade de sair de casa para trabalhar, quando necessário. É o que aponta o estudo do professor Alberto Figueiras (UERJ) junto ao Dr. Matthew Stults-Kolehmainen, do Yale New Haven Hospital (EUA).

Nos Estados Unidos, o relatório “America’s State of Mind Report” da Express Scripts aponta que o uso de medicamentos para depressão, insônia e ansiedade durante a pandemia aumentou 21% de fevereiro a março deste ano. Dessas situações, a prescrição de remédios para combater a ansiedade foi a mais expressiva, com crescimento de 34% no período indicado. Nos cinco anos anteriores, o país observava uma queda no uso desse tipo de medicamento. Agora, não por acaso, o estudo demonstra que as mulheres consumiram muito mais remédios para ansiedade do que os homens.

Mãe, esposa, dona de casa e professora, Kathlen é um dos exemplos que comprovam que esse tipo de sofrimento psíquico é mais comum em mulheres do que homens durante a quarentena. Foram observados, porém, índices menores de ansiedade nas respostas de pessoas que realizaram exercícios físicos ou recorreram à psicoterapia online neste período. Exercícios, a educadora já ticou da lista. Faltava o acompanhamento psicológico.


Apesar da aparência serena e alegre, questões emocionais suas e dos pacientes fervilhavam nos primeiros dias de isolamento. Ao se arrumar pela manhã, meio corpo sentia-se preparado para a labuta. Sem tirar a calça do pijama, vestiu a blusinha azul de babados, aplicou corretivo nas olheiras e escovou os cabelos longos como aviso para si mesma. Sem nunca ter exercido a profissão de sua casa, a psicóloga Gina Rondello já sabia como o corpo é capaz de se sabotar com a mudança na rotina.

Gina já estava familiarizada com o oferecimento de sessões de terapia online, porém em menor número e do próprio consultório onde realiza atendimento presencial. A ansiedade surgiu quando precisou se organizar para lidar com todos os pacientes por meio da tecnologia. O sentimento, porém, foi mais observado nos atendidos. “Estou mais descolada”, brinca Gina, agora acostumada com a demanda online.

Com a pandemia em pauta, tornou-se natural mostrar aos pacientes que não estão sozinhos. Apesar de já serem queixas comuns nos atendimentos, ansiedade e depressão passaram a pautar 90% de suas sessões. “A situação de pandemia que estamos vivendo tem sido um agravante para esse aumento de casos”.

As maiores preocupações de Gina são sobre quando o estado de pandemia vai acabar e de não ficar doente, mas outros aspectos podem vir à tona: “São três os pontos de ansiedade: a ansiedade causada pelo distanciamento entre as pessoas; o medo quanto ao trabalho, diminuição de salários, ou até desemprego; e o medo causado pelo risco da doença [do coronavírus] em si”, pontua.

Uma nova categoria surge quando as pessoas estão diante da confusão nas recomendações oficiais dos governos. Em recente decreto, por exemplo, o presidente reforçou a flexibilização de medidas de isolamento ao incluir, como essenciais, as atividades de salões de beleza, barbearias e academias. Porém, em muitos estados esses espaços não foram incluídos na lista de serviços que funcionam no isolamento. Todos ficam à mercê de mandamentos divergentes.

Às 8h30 em ponto, com a lista de contatos na letra “K” a postos, Gina seleciona a chamada em vídeo e aguarda ser atendida. O aceite vem acompanhado da imagem de uma mulher em pé, onde assume ser a cozinha. O cabelo escuro em coque, um guardanapo de tecido ao redor da cintura. Atrás dela, viu uma menininha a caminho da televisão. Pôde ouvir as últimas palavras do diálogo entre mãe e criança: “Está quase quente Manu, espera um pouco que a mãe precisa atender”.


“Bom dia, Kety! Como estão hoje?”, ouviu da psicóloga em meio às conversas da casa. Os primeiros minutos foram de desabafo dos sentimentos de inquietação que Kathlen sentia, mas logo mudou o foco. Aliás, a maior preocupação era atualizar a terapeuta sobre a filha mais nova, Manuela, e os cuidados que deveria ter.

E se o transtorno não for só seu?

Pela quarta vez, Kathlen parou a bicicleta para atender o celular. Era Manuela ligando novamente: “Mãe, você pode voltar agora?”. A fileira de lanchinhos separados cuidadosamente pela mãe na mesa da sala já havia acabado e a menina começava a ficar irritada. O monitoramento feito pela filha é constante quando fica ociosa, o que causa alterações de humor na pequena. Nesse ponto parece puxar a mãe, que gosta de estar ativa o tempo todo.

Antes de declarada a pandemia, Kathlen e o marido, Eduardo, descobriram que a mais nova apresenta Transtorno de Espectro Autista (TEA). E como na maioria dos transtornos, o caso de Manu está associado a outros distúrbios emocionais, que se costumam chamar de comorbidades. Além do TEA, apresenta bipolaridade e, quem diria, crises de ansiedade. Antes do isolamento, a rotina de Manuela envolvia acompanhamento de psicólogo, idas à natação, sessões de terapia ocupacional ou brincadeiras nas manhãs e escola no período da tarde, quando a mãe trabalha.

“Parar de uma vez foi complicado, sempre preciso deixar as atividades para o dia seguinte planejadas, pois sem rotina ela é uma montanha russa de emoções”, explica Kathlen, que percebeu aumento da ansiedade da filha durante o isolamento. O atendimento psicológico também foi restrito, primeiro com a suspensão das sessões, até que o convênio se organizou com oferecimento de psicoterapia online.

Essa é uma das medidas recomendadas pelo Conselho Federal de Psicologia na quarentena. Após os primeiros casos de COVID-19, o órgão logo verificou a importância dos(as) psicólogos(as) na conscientização dos pacientes sobre as consequências emocionais provocadas pelo distanciamento: “[as ações do(a) psicólogo(a) devem contribuir para] abordar, quando necessário, implicações emocionais de uma possível quarentena e de aspectos psicológicos do isolamento, em especial de pessoas idosas”.

Retraimento social, mau comportamento e ansiedade eram os motivos mais comuns de famílias procurarem sessões de terapia para os filhos, pelo menos para Gina. Agora, papais e mamães estão aflitos com o andamento das aulas dos filhos, feitas em formato digital, e com o aumento, ainda maior, da ansiedade das crianças.

Kathlen já percebeu que em isolamento a filha está se sentindo enjoada com mais frequência, o que a psicóloga explica ser resultado do aumento da ansiedade. Além disso, a pequena está adquirindo alguns medos, como de escuro e de distância dos pais. Em parte, a ansiedade está relacionada com seu aniversário tão próximo. Em 8 anos, essa é a primeira vez que Manuela não terá uma festa com os amiguinhos. Mas isso não será problema: Ela já tem na cabeça como será o aniversário do ano que vem, se o isolamento acabar.

Efeitos negativos do confinamento na saúde mental de crianças vêm sendo percebidos ao redor do mundo. Em entrevista ao El País, especialistas consideram a possibilidade de uma segunda pandemia, a de transtornos mentais, resultado de como as vivências em tempos de coronavírus afetam também o psicológico. Um dos gatilhos para ansiedade e depressão, inclusive nos jovens, é o consumo de excesso de informações sobre a doença nesse período. O texto traz estatísticas dos impactos emocionais em diversos países, vale conferir aqui.

O agravamento de transtornos mentais durante a quarentena foi percebido também pela Fiocruz, que divulgou soluções para amenizar as consequências do isolamento. De modo geral, a instituição recomenda: criar uma rotina diária; fazer atividades físicas e de relaxamento; aproveitar o tempo para aprender; alimentar-se adequadamente; limitar o tempo de leitura de notícias; prestar atenção aos sentimentos; manter contato com pessoas queridas; e procurar apoio especializado.

Mãe e filha estão seguindo as recomendações, mas nem sempre é possível. Manu ainda tem dificuldade em prestar atenção aos conteúdos da escola em vídeo com os barulhos dentro de casa. Em contraposição, para Eduardo e Kathlen o momento é de aprender a lidar com esse novo desafio. Aprender durante a quarentena.

Professores e alunos conectados

Enquanto o computador ligava, traçou mentalmente o mapa das atividades que precisava montar no editor de textos. Devia imprimir folhas a mais, pois as crianças sempre forçavam demais o papel. Ao mesmo tempo, a caixa de entrada do e-mail deveria estar aberta para responder demandas urgentes. Ainda precisaria produzir montagens de fotos antes de almoçar e se preparar para dar aulas à tarde. Em um dia comum, antes do COVID-19, Kathlen nem se preocuparia em usar outras ferramentas na Internet.

“Gravar vídeos me deu agonia. Nas duas primeiras semanas de aula, antes das férias, tive uma crise de labirintite por conta do estresse. Eu não estava habituada a usar as plataformas digitais”, conta sobre as experiências em EAD (Ensino à Distância) no começo do isolamento. Após as férias concedidas pela escola particular em que leciona, as aulas passaram a ser oferecidas ao vivo, com participação dos alunos, em ensino remoto.

Um a um, os nomes dos 16 alunos vão sendo chamados para marcar a presença. Em alguns momentos, adultos interrompem. “Responde à professora, filho” ou “Olha lá, presta atenção na aula” surgem dos novos integrantes da sala: os próprios pais, de tocaia, assistem e participam das aulas com os filhos. A classe aumentou.

É um misto de comédia com suspense. Kathlen ri sozinha de algumas situações em que as crianças, mesmo com a distância física, interrompem as aulas ao fazerem questão de habilitar o microfone e serem ouvidas. Os esforços de desligar o microfone dos estudantes gastam tanto tempo quanto pedir para ficarem em silêncio presencialmente na sala de aula. Às vezes, é surpreendida ao vivo por algum pai ou mãe desavisados, com conversas paralelas e gritos. Talvez não tenham percebido até agora que podem ser ouvidos.

Por outro lado, há tensão dos professores quanto à falta de privacidade que o novo formato de aulas exige. Os exemplos não estão tão longe. Recentemente, Kathlen se deparou com as notícias: “Flávio Bolsonaro acusa professora de Americana de doutrinar crianças” (Portal de Americana, 19/05/2020) e “‘Minha mãe está abalada com tudo isso’, diz filho de professora de Americana criticada por Flávio Bolsonaro” (Todo Dia, 19/05/2020). Em aula, a referida professora abordava uma charge que envolvia a figura do presidente. A lição foi gravada e publicada em redes sociais, sem consentimento.

“Eu fiquei preocupada com isso, ansiosa. Até que ponto uma fala minha pode ter um julgamento ruim?”, confessa Kety. As palavras são comedidas na preocupação de não serem entendidas como imposição, ou “doutrinação” como viralizou nos últimos tempos. Ao menos agora, com as videoconferências, o horário de trabalho voltou a ser fixo e conta com intervalos. Para alegria também de Manuela, que adora uma rotina.

Fim de expediente, o celular vai para um canto da casa e Kathlen para outro. Apesar do esforço em se desconectar do ambiente de trabalho, o lema da escola atualmente é manter e se adaptar às demandas dos pais e mães durante o isolamento. Enquanto isso, a redução de salários e carga horária dos professores não diminui o tempo dedicado por eles ao trabalho, mesmo nos momentos de lazer. “Se algum pai/mãe me manda mensagem eu respondo, em qualquer momento. Até de domingo”, conta Kathlen sobre seu costume.


PA PUM PA PUM PAM. O barulho em bolhas avisa uma nova notificação na agenda virtual ClassApp. O aplicativo para celular facilita a comunicação entre escola e as famílias, e faz levantamento de dados, como a velocidade de resposta do professor aos pais. O aumento gradual do volume do aviso acompanha o começo da palpitação, antes de olhar o celular. Quando o som surge, até mesmo nos finais de semana, Kathlen às vezes fica mais ansiosa. E não são só avisos seus, mas de Gabriela e Manuela também. Motivo pelo qual decidiu não desabilitar a função de notificações. As filhas recebem comunicados por lá e assistem as aulas pelo dispositivo.

O medo do home office foi passando, mas a cobrança para alfabetizar crianças do 2º ano do Ensino Fundamental I, mediadas pelas telas de computador, foi alta. Outras escolas e universidades passam pelo mesmo ao demandar conhecimento tecnológico dos professores. Na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) do IBGE, 74,9% da população possuía acesso à internet em 2017, com destaque ao uso de computadores e celulares, neste momento desligado e longe das mãos de Kathlen. Outro motivo de o dispositivo causar ansiedade é o excesso de informações da mídia à mão. Ela estaria orgulhosa se soubesse que segue sugestão do guia de cuidados em saúde mental da OMS. No isolamento, o documento recomenda: manter contato digital com amigos e conhecidos, mas ter cuidado com a enxurrada de notícias.

Ainda analisando a PNAD, não estava incluso “assistir aulas online” nas opções de finalidades de acesso à Internet. Inclusive, um dos motivos de quem não tem o acesso é a falta de conhecimento para usá-la. O que acontece é que mesmo quem tem Internet em casa pode não saber usar algumas ferramentas, e isso reforçou a tendência de professores se especializarem em ensino no ambiente digital da noite para o dia.

Professores no contexto de morar sozinhos, sentindo a pressão do isolamento ainda mais. Professores que moram com parentes de grupos de risco. Professoras mães solteiras. Ou separados de parceiros que trabalham na área da saúde. Professores pais e mães, um olho nas aulas e o outro nos filhos. Podem até não ser professores. Estamos sentindo ansiedade.


Acostumada a lidar com várias atividades ao mesmo tempo, o problema mundial não poderia ser resolvido por Kathlen como o resto das questões do dia-a-dia: de uma só vez. Resta esperar e encontrar soluções para as crises emocionais. A rotina de pedalar sozinha pelas manhãs sempre ajudou a controlar a ansiedade, só que agora os passeios estão restritos aos locais isolados e de máscara no rosto.

“Há algumas semanas, a Manu quis usar máscara também. Quando fomos à padaria percebeu e perguntou o que eram as marquinhas do chão”. A mais nova passara a entender a dimensão do problema. “Esses dias ela [Manuela] estava ajoelhada em frente à santinha, rezando: Espero que passe esse corona logo”, contou a mãe. Eu também espero, Manuela! Todos nós esperamos…

Daniela Borges, 22 anos, é estudante de graduação presencial em Jornalismo (é, aquela área criticada pelo governo mesmo) agora online em meio à pandemia. É bolsista de iniciação científica, e talvez a última do curso por um tempo graças aos cortes de bolsas. A boa notícia – se permite o jargão – é que é adepta da terapia para lidar com a ansiedade. 😊

*Os nomes das personagens são originais. Recurso de ficção foi utilizado para unir a história de professora, atendida por terapeuta, e psicóloga entrevistada, que atende pais de filhos com autismo.

Foto: Daniela Borges.

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