Entidades de Limeira atuam em defesa dos animais abandonados

Post By RelatedRelated Post

Desde que se entende por gente, Juliana Vergílio, auxiliar de escritório, 35 anos, aprendeu com a mãe, Maria Aparecida Ferreira Vergílio, 58, a amar os animais. Certo dia, durante sua caminhada até o mercado a jovem encontrou um filhote pequenininho. A cadelinha desorientada, com semblante tristonho, encontrava-se encolhida observando o vai e vem de pessoas. Juliana a olhou e disse: “Me espera aqui que eu vou te pegar”. Na volta, Belinha, já revelando o futuro e pretendido nome que escolheu na fila do mercado, estava no mesmo lugar, na mesma posição.  Ela disse: “Vamos?”, e Belinha foi atrás. No último 10 de junho, completaram-se 14 anos que Juliana viu uma grande amizade entrar no seu portão.

“Eu acho que não existe lar sem animal. A paixão é à primeira vista, na hora que a gente olha, e foi assim comigo e a Belinha. Ela é um filhotinho sem raça. Era feinha, não chamava atenção de ninguém. A gente precisava de um filhote, porque eu já tinha um cachorro idoso em casa que estava meio tristonho. A nossa ideia era pegar um filhote que trouxesse alegria. E foi isso que a gente fez”, conta Juliana, relembrando do seu primeiro encontro e dos bons momentos que a filhote trouxe para a sua vida.

E são muitas as histórias felizes envolvendo cães e seus donos. Mas, apesar de existirem muitas Julianas espalhadas por Limeira, a taxa de animais vítimas de maus tratos e abandono na cidade ainda é muito alta, e sofreu um considerável aumento nos últimos quatro anos, segundo a Cristiane P. Kucska Masutti, diretora do DPBEA (Departamento de Proteção e Bem-Estar Animal) do município. “Eu vejo mais gente incomodada e relatando esses abandonos, principalmente através das redes sociais e mais gente se importando e tentando fazer alguma coisa, atuando na causa animal”, diz Cristiane.

Somente de janeiro a agosto de 2018, o DPBEA recolheu 212 animais,  145 cães e 67 gatos, o que dá uma média mensal de 18 cães e oito gatos. Criado pela Lei nº 686/2014, o Departamento tem o objetivo de buscar soluções e políticas públicas que garantam o bem-estar dos animais de todas as espécies que vivem na cidade, além de zelar por melhores condições daqueles que estão sob tutela do estado nas Zoonoses. Atualmente, há 77 cães e 16 gatos abrigados (dados referentes a 31/08/18).

Juliana Vergílio na companhia de sua antiga amizade. (Foto: Arquivo Pessoal)

“O DPBEA não é um departamento de resgate, e nem tão pouco um depósito de animais. Esse Departamento não existe para recolha, ele existe para pensar políticas públicas em atendimento aos animais de rua e também aos de tutores de baixa renda. Isso porque a demanda para recolha de animal ela é imensa, ela é infinita, então a gente não consegue resgatar todos os animais de rua”, diz Cristiane sobre o excesso de ligações recebidas diariamente.

“A gente recolhe os animais que estão em situação muito precária nas ruas: animais atropelados, com doenças infectocontagiosas, com bicheira, infestados por miíase, que é uma coisa muito cruel e de progressão muito rápida, que judia demais do animal e ela aumenta absurdamente de um dia para o outro. Então a gente foca nesses animais que são, infelizmente, só os que a gente consegue dar atendimento. Nós temos pedidos todos os dias. Então, o animal que está minimamente bem na rua, a gente não recolhe, mesmo porque se eu recolher todos, eu vou criar uma situação de superlotação e maus tratos para os que vivem aqui”, completa a diretora.

Outra instituição que atua nesta área na cidade é a Alpa (Associação Limeirense de Proteção aos Animais). Fundada em janeiro de 1996 e reconhecida em 1998 como ONG, a entidade tem o objetivo de disseminar conhecimento, realizando campanhas de castração solidária, divulgações com sucesso em busca, adoções de animais encontrados por meio de suas mídias sociais entre outras ações de ajuda e conscientização da população.

A presidente da entidade, Cassiana de Oliveira Fagoti, 39, voluntária da Alpa desde 2010, é tutora dos cães Cido, Astor, Valentina, Antonella, Scarlet, Bárbara, Charlotte, Safira, Pérola, Jade, Chuvisco, Vida e Ágata. “É um problema que existe desde que o mundo é mundo. A diferença é que hoje a gente tem mais acesso à informação e a causa animal ganhou mais destaque, tanto é que a Alpa existe há 22 anos”, afirma.

Calcular numericamente a quantidade de animais vítimas de maus tratos ainda é uma dificuldade para todos os órgãos envolvidos na causa animal. As pessoas que resgatam nem sempre contatam os protetores independentes, abrigos ou as zoonoses. Além disso, o cálculo de um senso animal envolve certa complexidade, pois os animais que estão na rua, além de se movimentarem depressa, se reproduzem rapidamente, são vítimas de acidentes, ou morrem de causas naturais.

“Talvez falte partir da própria população querer fazer a denúncia, porque ela já tem a impressão de que não vai acontecer nada, mas a gente precisa de números precisa de estatísticas. Se a gente tiver estatística nós podemos trazer uma Delegacia de Proteção para a cidade. Sem números isso não pode ser construído”, ressalta Cassiana.

A OMS (Organização Mundial de Saúde) estima que só no Brasil existam mais de 30 milhões de animais abandonados, sendo que destes são 20 milhões de cães. Em cidades de grande porte, como Brasília, Manaus, Uberlândia, Sorocaba, para cada cinco habitantes há um cachorro. E destes, 10% estão abandonados.

Para o médico veterinário João Ricardo Gabas Lopes, 37, entre os principais motivos do abandono do animal está a grande diminuição da posse responsável. “A pessoa acaba adotando no impulso. O primeiro problema que acontece na família a corda acaba estourando sempre para o lado mais frágil, que normalmente é o do animal”, argumenta. A desobediência, o excesso de sujeira, a destruição dos objetos e pertences do tutor, o mau comportamento diante das visitas e o incessante barulho provocado pelo cão são as desculpas mais utilizadas como justificativa.

Já o médico veterinário Victor Hugo Ribeiro Gimenes, 32, ressalta que o abandono não se restringe somente na soltura do bichinho. “Às vezes, o abandono é dentro do domicílio. É um animal que não foi feita vacinação, é o animal que está doente há semanas e o dono não cuida, é o animal que fica na chácara e o tutor vai a cada quinze dias”, acentua.

Superpopulação

A importância da castração animal, além de estar relacionada com a prevenção de uma série de doenças, está diretamente ligada com o controle populacional dos animais domésticos e de rua (tutelados pelo Estado). A castração em cães é um tipo de cirurgia feita em fêmeas e machos, que tem como objetivo impedir que esses animais se reproduzam descontroladamente. Segundo dados do site Amor aos Pets, em um período de seis anos, uma cadela abandonada e seus filhotes podem gerar até 67.000 novos cachorrinhos (levando em consideração dois cruzamentos por ano).

“Atualmente, a gente não tem ainda uma política de controle populacional de animais de rua. Tem um centro cirúrgico aqui, porém, a nossa capacidade de castração é pequena, porque esse Departamento faz parte da Secretaria do Meio Ambiente. Tradicionalmente, essa secretária dentro de qualquer prefeitura é a secretaria que recebe menor verba. Aqui a gente consegue fazer uma média de quatro ou cinco por dia, mas essas castrações são sempre direcionadas para os animais que a gente recolhe da rua, resgates nossos. ”, argumenta a presidente do DPBEA.

Limeira ainda conta com o Projeto de Lei nº 42/2017 que institui no município a Semana de Incentivo à Castração, Microchipagem e Combate aos Maus-Tratos de Cães e Gato. Comemorada, anualmente, na primeira semana de agosto, a data tem o objetivo de viabilizar a conscientização contra os maus-tratos e o controle da reprodução destes animais, possibilitando às famílias carentes o acesso a este serviço.

A Microchipagem dos cãezinhos é um método de identificação rápido e seguro, tendo a vista que a identificação é feita em poucos segundos com o uso de uma leitora universal. A iniciativa promove o reconhecimento de animais perdidos, desaparecidos ou roubados. O médico veterinário Lopes, afirma que o procedimento é seguro e não prejudica a saúde do animal. “Não faz mal nenhum, desde que seja feito com uma antissepsia local. Ele é feito de um polímero que não é reconhecido pelo corpo, então não gera uma fibrose no local. Não é encapsulado como a maior parte dos agentes introduzidos no subcutâneo do animal, portanto, ele não sofre nenhum tipo de reação”, assegura.

Alpadrinhacão

A Alpa conta, desde outubro de 2017, com a Campanha de “Alpadrinhacão”, que tem como finalidade proporcionar a interação de cãezinhos vítimas de abandono, que se encontram confinados no canil municipal de Limeira, com a sociedade, a fim de chamar a atenção para a necessidade da adoção de animais adultos.

A campanha tem atraído a população e diminuído o stress e a tristeza que são consequências do confinamento que os torna antissociais. A presidente e responsável pela criação de diversos projetos da Alpa, dentre eles o  “Alpadrinhacão”, acrescenta que o evento fez com que as pessoas criassem um vínculo.

“Tem pessoa que vai desde o primeiro, já tem os animais, conhece pelo nome, indica, vê a foto, mostra para alguém, então por mais que as adoções não aconteçam naquele dia, ela vai acontecendo naturalmente. Para que hajam outros acolhimentos precisam ser doados aqueles animais. É igual o nosso trabalho. A gente faz o resgate do animal, trata, doa e é com isso que eu consigo ajudar outro animal, se não a gente vai ficar com um acúmulo de animal, e nós não queremos abrigo”, explica Cassiana.

Ela ressalta que a ONG e o protetor independente têm o dever de contribuir com os animais do canil municipal para que eles sejam adotados, estimulados e não desmoralizados. “Eu acredito que uma ONG serve para suprir o que o poder público não faz. Então eles fazem o recolhimento e esses animais ficam esquecidos lá porque a população não tem interesse. A pessoa quer sair no Facebook da ONG, ela quer sair no Instagram da ONG, mas ela não se vê saindo no canil municipal”, enfatiza a presidente da Alpa.

Adoção

 A auxiliar de escritório, Natalia Tesser de Godoy  Barbosa, acompanhada de seus cãezinhos. (Foto: Arquivo Pessoal)

Outro aspecto a ser destacado em relação às adoções é que ainda existe preconceito quando se trata de cães sem raça definida (SRD), conhecidos popularmente por ‘’vira-latas’’. Segundo Cassiana, as pessoas preferem comprar um animal, que são em geral, criação de fundo de quintal, sem critério nenhum. Esses animais sofrem cruzas consanguíneas, e acabam carregando genes com doenças congênitas pela frente. É nesse momento que a pessoa compra e depois não tem como lidar, nem com esse animal nem com a doença que às vezes ele carrega. Começam os gastos e, consequentemente, os abandonos.

“Nada contra o animal de raça, mas isso é um comércio sujo, ilegal e hipócrita, porque qualquer cachorro é igual na questão do carinho, qualquer cachorro late, qualquer cachorro pode ser um cão de guarda. O vira-lata é um cachorro que já sofreu na rua, os resgatados aqui são extremamente inteligentes, sabem quem cuida deles, eles sabem defender o dono, defender uma propriedade, eles entendem tudo e são muito dóceis aqui com a gente, porque eles sabem que aqui são cuidados”, ressalta Cassiana.

A auxiliar de escritório Natalia Tesser de Godoy Barbosa, 28 anos, contesta esse preconceito contra os vira latas. Sempre viveu rodeada de animais, e foi isso que despertou seu senso de empatia pelos cães de rua. Já participou de diversas campanhas, rifas e doações em prol da recuperação e do bem-estar animal. Hoje já são quatro adotados, sendo dois de casas que os tutores não tinham mais condições de ficar e dois recolhidos da rua, ainda filhotes. “Eu sempre tive animais. Atualmente eu tenho quatro, mas eu já tive outros três que já faleceram. Gosto de pegar os animaizinhos. Se pudesse tinha um monte. Eles trazem alegria para casa”, relata. Ela ainda aconselha: “Escolha aquele que lhe causa mais afetividade. Não tanto por aparência, mas aquele que tocar seu coração”.

Além de gratidão que os cãezinhos demonstram no pós-resgate, a adoção contribui no combate à crueldade dos tutores e criadores clandestinos e auxilia no controle populacional dos mesmos. “As pessoas acreditam que a gente nunca vai conseguir manipular um cão SRD para ter o que um animal de raça tem, mas na verdade isso não acontece. A gente consegue moldar o animal para que ele tenha o companheirismo, e em alguns casos a guarda. Não precisa ser um Rottweiler, por ser agressivo e causar mais medo. Às vezes eu preciso de um cão que cause um impacto psicológico apenas”, ressalta o veterinário Gabas Lopes.

As adoções no DPBEA podem ser feitas de segunda à sexta-feira (exceto feriados), das 10 às 16 horas, com a apresentação do RG, CPF, comprovante de residência do tutor (maior de 18 anos), no endereço: Rua Prof. Sólon Borges dos Reis, 251, Jd. Campos Elíseos, Limeira/SP. Mais informações pelo telefone: (19) 3443-1606.

Já na Associação Limeirense de Proteção a Animais, Alpa, as doações podem ser feitas pelo site alpa.org.br/doação, ou pela conta: Banco do Brasil – AG. 0216-X, conta 5898-X, CNPJ: 01.058.509/0001-58. Para mais informações, o contato pode ser feito pela página no Facebook da ONG, ou através do e-mail: alpalimeira@hotmail.com. O centro de feira de adoção e venda de produtos, funciona na rua R. Dr. Trajano de Barros Camargo, 1179 – Centro, Limeira – SP, 13480-203, dentro da loja 100% Pet Limeira.

Punição

Os maus tratos a animais são crimes previstos na Lei Federal 9605/98, artigo 32, que trata de crimes ambientais, e a pena para os infratores varia de três meses a um ano, além de multa, aumentada de um sexto a um terço se ocorrer a morte do animal.  Os maus-tratos abrangem desde agredir, envenenar, abandonar, atropelar e não prestar socorro a privação das necessidades básicas como água, comida, espaço, manter o animal preso em corda curta, limpeza, entre outros.

 

Share

Raissa S. Pereira

DEIXE UM COMENTÁRIO

Email (will not be published)

*