Fentepira traz peças de todo o Brasil com proposta contemporânea

De 27 de outubro até 4 de novembro Piracicaba sediou um dos festivais de maior referência dentro das artes cênicas no país. O Fentepira (Festival Nacional de Teatro de Piracicaba) apresentou, em nove dias, espetáculos que abordavam o teatro contemporâneo, além de um filme e debates com o mesmo tema. Ao fim dos espetáculos, o público pode conversar com os atores e diretores sobre o processo de criação, mediados pelos debatedores convidados pelo Festival. Todas as atividades oferecidas foram gratuitas.

A sétima edição do Fentepira teve como ponto de partida o que é contemporâneo hoje dentro das artes cênicas. A curadoria e direção do festival buscaram projetos que apresentassem uma visão de mundo potente e tratassem temas fortes, com uma visão diferente e inovadora. Dentro dessa questão vários espetáculos aconteceram em espaços alternativos, como praças e palco do teatro, provocando no público a vontade de pensar e dizer o que viu.

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Após as apresentações foram realizados debates com o público e os atores (foto: Clara Grizotto)

Em um mês de inscrições 275 projetos foram enviados de todo o Brasil pela internet, inclusive um de Moçambique, na África. Para Fátima Moniz, co-curadora da 7º edição do Fentepira e orientadora de artes cênicas do SESI (Serviço Social da Indústria), isso representa o reconhecimento que o festival adquiriu ao longo dos anos. “O Fentepira é um festival forte, e a tendência é de cada vez mais ele se fortalecer. O que representa é o reconhecimento mesmo, que esse festival está crescendo e daqui a pouco vai ser um festival internacional”, afirma.

Os espetáculos foram selecionados dentre os projetos enviados pelos grupos teatrais de todo país e dentre os de Piracicaba que participaram do Pirateatrando (Mostra de Teatro de Piracicaba, que aconteceu no início de setembro). Além desses há também os espetáculos convidados, oferecidos geralmente pelos parceiros do festival. Esse ano o SESI ofereceu a montagem Luis Antonio – Gabriela por se tratar de um documentário cênico muito premiado no Brasil, e com linguagem do teatro contemporâneo.

 

Espetáculos 

O espetáculo Arrumadinho, da Trupe Olho da Rua, de Santos, deu início ao Festival no dia 27 na Praça José Bonifácio. De classificação livre, a peça questiona, através da improvisação e jogos com o público, o homem moderno e seus conflitos dentro da empresa e do mercado de trabalho. O espetáculo surgiu de outra montagem da Trupe e também se baseou no livro “Vidas Desperdiçadas”, do filósofo Zygmunt Bauman, com grande parte das cenas sendo montada na rua através da interação com o público.

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“Arrumadinho” abriu o Fentepira na Praça José Bonifácio (foto: Clara Grizotto)

“O grande barato da rua é o fato da gente poder redemocratizar o espaço público, dando acesso à população em áreas mais periféricas, por exemplo, pelo fato de você poder levar o espetáculo pra todo canto”, afirma a atriz Raquel Rollo. Ela frisa que o grupo sempre foca nas apresentações de rua pelo diálogo com o público e improvisação que isso requer. O músico Gabriel Mazon Meirin assistiu pela primeira vez um espetáculo desse tipo e gostou da proposta do grupo. “É uma forma gostosa de passar cultura para as pessoas, porque às vezes a pessoa está acostumada a só assistir coisas prontas, e aqui são pegas de surpresa, e acabam se envolvendo e participando” diz ele, que pretendia assistir outros espetáculos do festival.

Na quarta-feira, 31 de outubro, o grupo Quase9 Teatro apresentou um espetáculo especial, com acessibilidade para surdos. Encontro de Dois, de classificação livre e direção de Mariana Muniz, mostra o encontro de dois mundos, o dos surdos e dos ouvintes, através da exploração da cultura surda pelo teatro, dança e música. O espetáculo foi formado a partir de pesquisas sobre o teatro físico e o corpo como princípio de criação, incorporadas aos elementos poéticos da Libras (Linguagem Brasileira de Sinais) e a Cultura Surda como um todo. Os atores, por exemplo, pintam as unhas de branco, pois aprenderam que dessa forma mãos parecem mais longas e os gestos se tornam maiores. Marina Isabel Pereira, estudante de jornalismo, achou a proposta do grupo fantástica. “Teatro trabalhando com Libras, com inclusão, é uma coisa muito interessante, diferente e necessária. É um público que fica esquecido e excluído”, acredita.

O último dia do Festival contou com o espetáculo inédito Coração dos Teatros Rodantes, do grupo Andaime Teatro Unimep de Piracicaba, que saiu do Ponto de Cultura Garapa, na rua Dom Pedro II, 1313, no Centro, e foi até a Praça Domingos Sávio, em frente ao Colégio Dom Bosco Cidade Alta. A montagem é baseada no livro Kafka e a Boneca Viajante, de Jordi Sierra i Fabra, e mostra a profundidade da relação entre uma criança e um brinquedo, quando o escritor Frans Kafka é tocado ao encontrar uma menina chorando porque perdeu sua boneca, e assim passa a escrever cartas em nome dela para consolar a garota.

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Grupo Andaime apresentou “Coração dos Teatros Rodantes” (foto: Clara Grizotto)

A peça possui um significado emocional muito forte, já que além de comemorar os 25 anos do Andaime, homenageia a orientadora de arte dramática do Tusp (Teatro da Universidade de São Paulo) Laura Lucci, que faleceu em abril de 2012 e apresentou o livro ao grupo. O diretor e ator Ilo Krugli, fundador do Teatro Ventoforte (um dos mais importantes grupos teatrais da historia do Brasil), aceitou o convite do diretor Rogério Tarifa para fazer o texto da peça, que emocionou o público com sua proposta. “Um momento muito marcante e surpreendente” definiu o ator Márcio Abegão, que assim como todo o elenco e o público presente, não conteve as lágrimas ao final do espetáculo.

 

Luis Antonio – Gabriela

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Elenco de "Luis Antonio - Gabriela", premiada peça biográfica (foto: Clara Grizotto)

A peça Luis Antonio – Gabriela, da Cia. Mungunzá, foi, sem dúvida, a mais impactante montagem apresentada nos nove dias de teatro. Baseado em fatos reais e construído a partir de relatos, filmagens, documentos e cartas, o texto conta a história de Luis Antonio, homossexual que vive a intolerância, preconceito e violência da sociedade conservadora dos anos 60, e quando adulto parte para a Espanha, onde se apresenta em casas de shows com o nome de Gabriela. O diretor do espetáculo, Nelson Baskerville, é irmão caçula de Luis Antonio, e montou o espetáculo para prestar homenagem póstuma ao irmão, morto em 2006, ao mesmo tempo em que pede perdão por não saber lidar com sua homossexualidade.

Elenco de “Luis Antonio – Gabriela”, premiada peça biográfica (foto: Clara Grizotto)

Luis Antonio – Gabriela estreou em março de 2011, e desde então já realizou mais de duzentas apresentações pelo Brasil. Foi indicado à diversos prêmios, sendo vencedor do prêmio da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes) de Melhor Espetáculo, e prêmio Shell de Melhor Direção para Nelson Baskerville. Está na quinta temporada em São Paulo e fechando viagens pelo país pelo sistema Palco Giratório do Sesc (Serviço Social do Comércio), para que em 2013 mais pessoas possam ter acesso à esse espetáculo sensível e importante para reflexão

Os elementos cênicos utilizados no espetáculo chamam a atenção. Os objetos ganham novo significado com o passar das cenas e nas mãos dos atores, e recursos multimídia, como vídeos, fotos e slides de Luis Antonio, ajudam a contar a história, mediada pelas telas do artista plástico Thiago Hattner. Outro destaque do espetáculo é a riquíssima trilha sonora, feita ao vivo pelo músico e diretor musical Gustavo Sarzi, e pelos próprios atores, que aprenderam a tocar instrumentos musicais para o espetáculo.

 

 

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