Galeria transmite novo sentido para a arte

A abertura de uma galeria de arte pode significar muitas coisas. Para crianças e jovens de Capivari, significou enxergar com um novo olhar as obras da artista capivariana Tarsila do Amaral.

Esse novo olhar começou a ser construído aos poucos. O primeiro passo foi dado em 2016, quando o projeto começou a ser desenvolvido na comemoração dos 130 anos da artista. Na época, cada escola da cidade ficou responsável pela construção de uma das suas obras, tendo a chance de representá-la de diferentes maneiras.

E foi durante esse evento que surgiu a ideia de abrir uma galeria permanente, usando como base as obras recriadas pelos alunos. Em 22 de fevereiro de 2018, a galeria foi oficialmente inaugurada.

Mural com obras reconstruídas e entrada da sala de artes.

O projeto foi idealizado pelo secretário de Cultura e Turismo de Capivari, Alexandre Della Piazza, com o intuito de apresentar aos visitantes do local uma visão diferente sobre o trabalho da artista. “Queria que tivesse trabalhos de alunos e várias técnicas de arte, para que ninguém visse só pintura”, explica Piazza.

A curadora da exposição, Gabriela Fiuza, reforça o posicionamento da artista em relação ao Brasil. Ela diz que quanto mais longe ela se encontrava do Brasil, mais ela buscava retratar o que tinha vivido no país, com cores e traços particulares para alcançar esse objetivo. Talvez tenha sido esse o aspecto principal de motivação durante a construção da galeria, o ponto inicial do envolvimento entre crianças e jovens na criação da Galeria Tarsila do Amaral.

Visitas estimulam imaginação das crianças

20 de março – ‘Pézão’

Em visita à galeria, com os alunos do Infantil II do Colégio EAC-Objetivo, a professora de artes Fernanda Bortolaso, comentou que o espaço chegou no momento certo. “Capivari precisava de um empurrão, precisava começar para que novos frutos sejam colhidos. E é para se manter, expandir e não deixar morrer, jamais”, afirmou.

A excursão começou com uma abordagem simples e ilustrativa sobre a artista, fazendo com que as crianças se conectassem com o ambiente. Durante o passeio, os alunos, de 5 anos, não hesitavam em escolher palavras como ‘Gigante’ e ‘Pezão’ para descrever a obra ‘O Abaporu’.

Criança de 5 anos pintando na sala de artes, no final do passeio.

A professora comentou que essa prática em artes pode facilitar a associação com a teoria, assim como ajudar a perpetuar a informação pelo resto da vida da criança. Dessa forma, ajuda no desenvolvimento de seres críticos, autônomos e que tenham um conhecimento cultural que hoje em dia não é muito abordado.

Ela observou também que há quatros anos, quando o prefeito da cidade, Rodrigo Proença visitou o colégio, foi questionado sobre um local para a Tarsila do Amaral na cidade. “Perguntamos sobre esse movimento que, em Brodowski tem a casa de Portinari, por quê aqui não teria um lugar para a Tarsila?!”, indagou.

O secretário de Cultura e Turismo, Alexandre Della Piazza, conta que muitas pessoas ligavam de outras cidades perguntando se Capivari tinha um lugar reservado para visitação sobre a vida da Tarsila do Amaral e, na época, não tinha. Ele espera que isso possa ajudar na forma com que os jovens enxergam a própria cidade, ocorrendo mais valorização e resgate da cultura municipal.

Segundo a professora de educação artística e história da arte, Késia Lilena Stefanini da Mata, quanto maior o estímulo, oportunidade e experiência, maior será o repertório e possibilidade de escolha da criança. “Não precisamos gostar de tudo mas quanto mais aprendemos, mais opções teremos”.

29 de março – ‘A lua’

“A Lua” e “A boneca”, são as obras preferidas da exposição para cinco meninas do Colégio Dirceu Ortolani Stein, do bairro Castelani, em Capivari. Raissa, Isabelly, Gabrielly, Isadora e Laura não hesitaram em contar as suas preferências por cada cor e características presentes nos quadros.

Releitura da obra “A lua”.

Quando estavam pintando no final da visita, elas contaram que  a obra ‘A lua’ dividia bem entre o verde e o azul, suas cores preferidas. E a obra ‘A boneca’, das formas que foram representadas na galeria, conseguiu criar várias obras usando como base apenas uma, chamando a atenção pelo material utilizado, como ‘espaguete de piscina’ para fazer o seu corpo em uma releitura, enquanto em outra, seu vestido foi feito com “formas de brigadeiro’.

Atentas a tudo, nada passou despercebido pelo olhar das crianças. A roupa vermelha do seu autorretrato ‘Manteau Rouge’, na entrada da galeria tornou-se a roupa da ‘chapeuzinho vermelho’. A obra ‘O Abaporu’ recebeu o adjetivo de ‘triste’. Já o quadro ‘O mamoeiro’ representou uma combinação de matos, rios e casas. O passeio pela galeria também recebeu títulos, entre eles: radical e adorável.

Releitura da obra “A boneca”.

A inspetora da escola, Maryluce Reis, contou que qualquer tipo de arte leva a criança a ter imaginações, sonhos e um desenvolvimento melhor. Por isso, é tão importante começar esse processo na infância. “A [arte] da Tarsila [do Amaral], como ela nasceu aqui, desenvolve na criança um interesse maior por todas as artes. Porque a sua arte é uma arte bailarina, arte operária, arte família, é a arte em um todo, com todos”, concluiu.

“Não tem nenhum original da Tarsila, mas ela está aqui. Ela conseguiu ser mais do que a tela, conseguiu ser a ideia dela.”

Em questão de minutos, outra escola chegou para visitar a galeria. Alunos de 9 anos, da escola José Benedito Pinto Antunes. A professora que os acompanhou, Evani Salvatti Zanuni, participou da reconstrução de uma das obras expostas em 2016. A obra ‘A feira’, apresenta uma diversidade de materiais utilizados em sua composição.

Ela contou que todos os professores foram dando sugestões em relação aos materiais para a releitura. No final, foram utilizados pastilhas, massinhas de modelar, rolos de papel higiênico, isopor e papéis que, conforme amassados era possível moldar da forma que desejava. Nessa reconstrução, participaram crianças de 8 a 10 anos.

Para Lívia, Lorena, Laura e Laís – quatro alunas da escola, as obras têm a intenção de ‘chamar a atenção’, assim como a própria artista. De acordo com elas, sendo exuberante e exigente, suas obras tornaram-se bonitas e interessantes. Por exemplo, ‘O Abaporu’, trabalho mais reconhecido, em que as alunas reparam, primeiramente, no pé e nariz grandes.

Releitura da obra “Abaporu”.

Para a curadora, Gabriela Fiuza, não é preciso ter uma obra original para a artista estar no lugar, já que ela é a sua própria ideia. E o fato dela ter o seu espaço agora, fez a artista ganhar ainda mais força. É possível apresentar técnicas que as escolas fizeram, mosaicos, a questão do reaproveitamento de materiais e as formas de usarem as cores – “A Tarsila [do Amaral] quis muito procurar uma cor, ela sempre quis achar uma cor caipira”. No final da galeria, pela ‘Sala de Artes’, por exemplo, consegue-se fazer uma atividade de afirmação sobre o passeio, explica a curadora.

 

 

 

Reconstrução mobiliza comunidade

A professora Vivian Doriguello Pepilasco participou de uma das reconstruções da obra ‘A boneca’. Na época, ela lecionava na Emei Maria Aparecida Boaventura de Almeida Garcia, para crianças de 3 e 4 anos, do Maternal II, e conta que a obra foi feita conforme a disponibilidade dos materiais da escola. Segundo a professora, “os alunos amaram o projeto, se envolveram muito e conforme ia sendo finalizado, o encanto aumentava devido ao resultado da releitura”.

Para a professora de artes Késia Lilena, é fundamental que as crianças tenham outras oportunidades, que sejam apresentadas às mais variadas modalidades da arte, desenvolvendo o que se vê e sente.

A estudante de 16 anos Júlia Gonçalves, da Escola Prof ª Jeni Apprilante, de Rafard, acredita na diferença que a abertura da galeria pode trazer na facilidade de expressão dos alunos, independentemente da idade. Segundo ela, as obras da artista modernista causam um estranhamento inicial, mas depois consegue transparecer um sentimento positivo para quem observa. Em sua obra preferida, ‘O mamoeiro’, por exemplo, a estudante enxerga “uma pequena cidade, sem consequência de atos humanos”.

Para a professora de Língua Portuguesa Laís Marin é quase impossível entrar em um museu e não sentir a energia emanada ali. “Tais espaços, além de tudo, são locais de resistência, de história, de manutenção e perpetuação da nossa cultura, nos lembrando de nosso passado e abrindo, assim, espaço para o futuro”.

‘Encantados’ e ‘Entusiasmados’ foram as palavras utilizadas para descrever como os alunos da Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais), de Capivari, se encontravam durante a reconstrução da obra “Anjos”. A Coordenadora da Apae Capivari, Rute Berto Siviero, e a professora de artes, Rosilaine do Carmo, contam que o projeto durou cerca de seis meses.

Os alunos que participaram tinham entre 5 e 59 anos e, segundo elas, sentiram-se capazes durante cada processo da obra. Praticamente todo o material trabalhado foi reaproveitado de outros projetos da escola. Elas contam que essa foi uma oportunidade de interação e inclusão social, além da chance de conhecerem mais sobre a Tarsila do Amaral. A curadora da galeria, Gabriela Fiuza, afirma: “Quando você tem identidade, você não tem que ficar discutindo tanto as coisas, é mais natural”.

A estudante universitária Júlia Carolina Brugnerotto participou do projeto em 2016. Estudava no 2º ano do Ensino Médio na Escola Padre José Bonifácio Carreta, em Capivari. Sua sala ficou responsável por uma reconstrução do autorretrato ‘Manteau Rouge’, em que ela desenhou a cabeça da artista na obra, que hoje encontra-se na Biblioteca Municipal de Capivari.

Ela conta que foi uma ótima experiência e que grande parte dos alunos da sua sala se envolveram nessa releitura, por ser uma atividade interessante e pouco comum no ambiente das escolas públicas. Além disso, ela acrescenta que percebeu o nível de dificuldade que compreende a criação de uma obra, e passou a admirar ainda mais a arte da pintura.

A atual vice-diretora da Escola Padre José Bonifácio Carreta, Angela Quagliato, professora de artes na época do projeto, escolheu a estamparia como referência para trabalhar com os alunos do ensino médio. Seus alunos desenvolveram um mostruário de tecidos, croquis e até uma roupa. Porém, cada estudante podia escolher o que mais gostaria de trabalhar ou se adaptasse ao sentido do trabalho.

Ela enfatiza que a montagem dos croquis foi a parte mais animadora para eles e que, no final, todos sentiram-se valorizados pela repercussão e comentários positivos que tiveram durante a feira.  “A escola não pretende criar artistas mas, oportunizar conhecimento e experiência artísticas, despertando interesse para que cada um encontre seu caminho”, diz a professora de artes Késia Lilena.

Em relação à literatura, a professora Laís Marin comenta sobre a ‘Semana de Arte Moderna de 1922’ que foi importante para ressaltar as manifestações artísticas apresentadas naquele momento e exercer uma crítica ao comportamento social da época. Na sua opinião, foi um movimento muito importante para valorizar a arte presente no Brasil, a partir de suas regionalidades, culturas, costumes e abrindo espaço para elas no cume social. “Tal revolução, de certa forma, desencadeou a autonomia e liberdade para novos artistas se manifestarem, e também, de aceitarmos nossas próprias raízes, luta que vem sendo mantida até os dias atuais”, ressalta.

A professora Késia Lilena enxerga a abertura do memorial como um início de um projeto de valorização da artista na cidade em que nasceu, sendo um convite para saber mais sobre a sua vida. Ela destaca que Tarsila do Amaral, juntamente com ‘Os Modernistas’, propunha uma renovação radical na linguagem e nos formatos, marcando a ruptura definitiva com a arte tradicional. “Eles estavam cansados da mesmice na arte brasileira e empolgados com inovações que conheceram em suas viagens à Europa, assim, os artistas romperam as regras preestabelecidas na cultura”, conclui.

Para a curadora, Gabriela Fiuza, o período em que a artista nasceu não foi a razão dela ter sido importante no mundo da arte. “Se ela vivesse agora ela teria outro reconhecimento, seria a Tarsila dessa época”, diz.

 

Galeria Tarsila do Amaral

A Galeria encontra-se na Avenida Cândido Motta, 18, Bairro Estação.

Ela fica aberta nos seguintes horários:

– Terça-feira e na quarta-feira, das 12h às 17h e das 18h às 21h.

– Quinta-feira e na sexta-feira, das 8h às 12h e das 13h às 17h.

– Aos sábados, das 9h às 12h e das 13h às 18h.

Para realizar agendamentos, é necessário entrar em contato com a Secretaria da Cultura e Turismo pelo telefone (19) 3491-1322, de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h.

Linha do tempo dos momentos marcantes da Tarsila do Amaral

Ilustração: Samuel Maia.

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Carolina Piazentin

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