HIV, a doença oculta: há 30 anos, Dino Moto Rosa convive com o vírus

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Reportagem produzida por: Felipe Gonçalves, Marcos Barbosa, Mariana Mondini, Fernanda Maestro, Amanda Wendland, Isabela Guevara e Tainá Oliveira. Para conferir a reportagem com todos os recursos multimídias acesse aqui.

Alegre, divertido e de boas energias, Dino Perez Martines, 60 anos, tem uma história e tanto de vida, história essa que já repercutiu em diversos cantos do Brasil. Há 30 anos, Dino descobriu ser soropositivo do vírus HIV, tornando-se um dos personagens mais antigos na história da Aids, “sou um dinossauro em ter Aids”, brinca.

Dino veste figurino que costumava usar em suas apresentações. Segundo o artista, a peça custou R$7 mil. (Foto: Marcos Barbosa)

A descoberta da Aids aconteceu por conta de um mal estar que fez Dino ligar para a emergência. Ao chegar no hospital e fazer diversos exames, ele descobriu que era soropositivo, o que não causou nenhuma reação assustada nele. “Era uma sentença de morte, né?, afirma. Ao compartilhar a notícia com sua família, Dino se surpreendeu com a reação positiva que todos tiveram, diferentemente de seus amigos, que se distanciaram e desapareceram no momento mais difícil em que ele mais precisava de apoio. Naquele momento, a pior reação partiu da sociedade, que encarou a novidade de forma bastante cruel. Como Dino era dono de uma rede de salões de cabeleireiro, a notícia se espalhou rapidamente e seus clientes sumiram. “A reação da sociedade na época foi cruel, você era excluído. Eu tinha uma rede de salão de cabeleireiro que estava indo de vento em polpa. Quando vazou a notícia que eu estava com Aids, eu simplesmente não tive mais agenda e fali”. Essa mudança de direção em sua vida causou mais uma marca em sua história: a internação por conta de depressão, e não por motivos médicos como muitos esperavam.

 A volta à rotina só aconteceu com a criação da moto rosa, presente de seu pai para que o filho pudesse voltar à vida normal e sair de casa. Dino foi colocando detalhes rosa aos poucos por pura diversão, como um baú e uma caveira que piscava e abria a boca quando o freio era acionado, apenas por gostar da cor. Mas a personalização da moto chamou o interesse de um jornal da cidade de Campinas, no interior de São Paulo, que produziu a primeira matéria sobre sua história. Ao longo da vida foi casado, teve um filho, adotou mais um e depois de algum tempo se descobriu homossexual. Por volta de 15 anos atrás, ficou conhecido em diversos países por meio da Rede Record, que divulgou sua história e também sua paixão por motos. Frequentou programas de televisão de diversas emissoras, tanto locais quanto nacionais (Rede Globo, Rede Record e SBT).

Dono de uma motocicleta rosa, Dino também passou a se vestir de Drag Queen, como conta, durante os eventos de motociclistas, o que o fez ser ainda mais reconhecido, já que era a única drag que fazia eventos de grande porte. A partir de sua participação em programas começou a ficar conhecido e a frequentar mais e mais eventos de motos.

Alguns o acolheram de braços abertos, não vendo diferenças em seu jeito diferente e extrovertido. Já outros, começaram a ver problemas em seu estilo e comportamento. Dino relata um evento que ocorreu em Paulínia, em que o barraram por conta de sua condição sexual, dizendo “não aceitarem esse tipo de gente”.

Uma pessoa que também participava do evento escutou o que estava acontecendo e se posicionou dizendo que se o Dino fosse embora, ela também iria. E assim, muitos outros o seguiram, mostrando que as diferenças não são motivo para o preconceito e a falta de educação.

Porém, há quase 10 anos, Dino teve mais uma reviravolta em sua história: a descoberta de um tumor cerebral causado pela Aids em contato com pelo de gato ou pomba. Adquiriu neurotoxoplasmose, causando danos cerebrais que o obrigaram a fazer cirurgias e quimioterapia. Por conta de todos os tratamentos, hoje Dino possui apenas 30% do tato.

Medicamentos utilizados no tratamento do HIV. (Foto: Marcos Barbosa)

Hoje em dia, por vontade própria, Dino prefere a reclusão de sua casa. “A sociedade está cada dia pior, mais hipócrita”, explica. Dino contou uma história inusitada a respeito, a situação que o fez tomar a decisão de ficar recluso. No final do ano passado, ele recebeu um convite de alguns amigos mais jovens para ir a um barzinho, mas ao chegar lá a interação acontecia por meio dos aparelhos eletrônicos, e Dino se irritou, bateu na mesa para chamar a atenção e, finalmente, todos começaram a conversar. Como diz aquele ditado, “alegria de pobre dura pouco” e, conforme Dino, na primeira vibrada de celular tudo se esvaiu novamente. Então, ele levantou da mesa, deixou uma nota de dez reais e foi embora .

Depois desse dia, Dino só sai de sua casa para fazer coisas corriqueiras e viajar com sua mãe. Ele se aposentou no auge de sua carreira, deste modo, segundo ele, evitaria o desgaste de sua imagem e a eventual decadência da personagem.

Para ele, a Aids hoje ainda é vista de forma diferente, mas o que mais assusta as pessoas e causam reações exageradas é quando ele conta que tem câncer, teve que fazer cirurgias para retirar alguns tumores e fez quimioterapia. Às pessoas que se descobrem soropositivas, Dino aconselha a viver a vida e não deixar o brilho morrer só porque algo ruim te aconteceu, não é o fim do mundo e muito menos uma sentença de morte. Hoje, as pessoas que possuem Aids vivem normalmente seus dias, sem maiores complicações, mas Dino recomenda que “você guarde esse segredo com você, se não está preparado para enfrentar o julgamento das pessoas” e alerta aos portadores do vírus para tomarem cuidado e praticar medidas preventivas, como o uso de preservativos.

Assista à entrevista:

Quando menos se espera, já aconteceu e você nem viu

Muitos são os assuntos que ainda se caracterizam como tabu dentro de nossa sociedade. Sexo, drogas, HIV, feminismo e religião são algumas das temáticas que, infelizmente, ainda possuem preconceitos e julgamentos na hora de serem abordadas. E isso não deveria acontecer nos dias de hoje, uma vez que quanto mais informações a população recebe, mais bem preparada ela está para enfrentar qualquer tipo de situação. Como tudo na vida, as coisas se iniciam com um fato histórico, seja ele importante ou não e, na reportagem multimídia a seguir, você encontrará dados muito importantes sobre o HIV e a aids.

História da Aids

Em meados de 1978 surgiram os primeiros registros da doença, presentes inicialmente na África, Haiti e Estados Unidos, onde os casos de pneumonia e câncer chamaram a atenção dos profissionais da saúde. De acordo com o site do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das IST, do HIV/Aids e das Hepatites Virais, do Ministério da Saúde, a “denominação oficial da estranha enfermidade que causou a falência imunológica do organismo aconteceu em 1982, enquanto que a descoberta do vírus propriamente dita deu-se em 1984”.

Os estudos mostram que o vírus foi transmitido para o ser humano por uma espécie de chimpanzé. A teoria é que isso foi compartilhado por meio do sangue do animal que saiu através de um arranhão e teve contato com um ser humano.

HIV e Aids não são a mesma coisa

O HIV, em português Vírus da Imunodeficiência Humana, é um retrovírus que ataca o sistema imunológico das pessoas (sistema responsável por defender o organismo). Já a Aids é o estágio mais avançado desse vírus, transformando-se na doença que ataca as células de defesa do corpo, deixando o organismo vulnerável a contrair diversas outras doenças. “A Aids é uma síndrome em que o indivíduo desenvolve os sintomas da doença. Quando a pessoa tem apenas o vírus, não há o aparecimento dos sintomas. Quando tratado, o paciente soropositivo consegue viver normalmente sem manifestar a AIDS”, explicou Thiago Luis Scudeler, clínico geral do Hospital Israelita Albert Einstein.

Muitos são os soropositivos que vivem sem apresentar nenhum sintoma e sem desenvolver a Aids. Porém os mesmos ainda são capazes de transmitir esse vírus a outros.

Contaminação

De acordo com o Ministério da Saúde, o vírus causador da doença está presente no sangue, no sêmen, na secreção vaginal e no leite materno e pode ser transmitido de diversas maneiras: sexo sem camisinha, durante a gestação, parto ou amamentação, compartilhamento de seringas ou agulhas, transfusão de sangue e instrumentos que furam ou cortam e não estão esterilizados.

Fases do HIV

Denominada “infecção aguda”, entre três e seis semanas, na primeira fase ocorre a incubação do vírus, ou seja, o tempo da exposição dele até o surgimento dos primeiros sintomas. O organismo demora entre 30 a 60 dias para produzir anticorpos que combatam o novo vírus que ali se instaurou. Os primeiros sintomas se parecem muito com uma gripe comum, como febre alta e mal-estar.

A segunda fase é chamada de “assintomática”, já que os vírus amadurecem e morrem de forma equilibrada através da interação entre as células de defesa do corpo e as mutações. Isso tudo não enfraquece o portador a ponto de contrair novas doenças e, por conta desse silêncio, muitos profissionais da área afirmam que a maioria dos casos passam despercebidos.

“Com o frequente ataque, as células de defesa começam a funcionar com menos eficiência até serem destruídas. O organismo fica cada vez mais fraco e vulnerável a infecções comuns”, afirma o site do Departamento. E então, vem a fase final, conhecida como “sintomática inicial”, que é caracterizada pela alta redução dos glóbulos brancos (biologicamente denominados linfócitos T CD4). Os sintomas mais comuns são febre, diarreia, suores noturnos e perda de peso significativa.

Doenças oportunistas aparecem com a baixa imunidade e a partir disso o vírus atinge seu ponto mais alto, o desenvolvimento da Aids. Conforme o site do Departamento, “quem chega a essa fase, por não saber ou não seguir o tratamento indicado pelos médicos, pode sofrer de hepatites virais, tuberculose, pneumonia, toxoplasmose e alguns tipos de câncer”. Thiago Scudeler explicou que as principais doenças oportunistas associadas à Aids são: infecções recorrentes ocasionadas por fungos (na pele, boca e garganta); diarréia crônica; pneumonia, por fungos e bactérias; tuberculose disseminada; neurotoxoplasmose; neurocriptococose; citomegalovirose e pneumocistose.

Tratamento

Medicamentos retrovirais são usados para quem já é diagnosticado com Aids. De acordo com Scudeler, “o tratamento é feito com medicamentos anti-retrovirais que são fornecidos gratuitamente pelo SUS. Estes medicamentos combatem o vírus e fortalecem o sistema imunológico, mas não curam a doença. Infelizmente, não há cura para ela até o momento”. Para os soropositivos que não apresentam sintomas e não tomam remédios, é aconselhável o acompanhamento médico regular para ter controle do desenvolvimento da doença. “Nas consultas regulares, a equipe de saúde precisa avaliar a evolução clínica do paciente. Para isso, solicita os exames necessários e acompanha o tratamento. Tomar os remédios conforme as indicações do médico é fundamental para ter sucesso na intervenção”, diz o site do Departamento. O uso indevido e irregular dos medicamentos prescritos acelera o processo de resistência do vírus no organismo, portanto a interrupção ou a troca de medicação ou tratamento deve ser feita somente pelo médico responsável.

A doença hoje

Anos atrás, ser diagnosticado com aids era praticamente uma sentença de morte. Atualmente, é possível ser portador desse vírus e viver com uma alta qualidade de vida. Seguir todo o tratamento corretamente, tomando toda a medicação indicada, é fundamental para obter os resultados desejados. “Hoje com as medicações mais modernas o paciente portador do vírus HIV consegue ter uma vida praticamente normal”, declarou o médico  Thiago Scudeler.

O Ministério da Saúde recomenda que testes sejam feitos sempre que alguém passar por uma situação de risco, para que o diagnóstico possa ser feito o mais rápido possível, além de sempre fazer o uso de preservativos.

Teste de Aids

O diagnóstico do HIV é feito a partir de exames de sangue. Os testes laboratoriais são rápidos e apontam o resultado em até 30 minutos, com apenas uma gota de sangue extraída da ponta de um dedo. Os testes são realizados de forma gratuita pelo SUS (Sistema Único de Saúde), nas unidade da rede pública e nos Centros de Testagem e Aconselhamento (clique aqui para ver as localizações do CTA pelo Brasil).

De acordo com as informações do Departamento, os exames podem ser feitos de maneira anônima se o paciente preferir. No CTA, além da coleta e dos teste, “há um processo de aconselhamento, antes e depois do teste, para facilitar a correta interpretação do resultado pelo paciente”.

A infecção pelo HIV pode ser detectada com, pelo menos, 30 dias a contar da situação de risco. Isso porque o exame (o laboratorial ou o teste rápido) busca por anticorpos contra o HIV no sangue. Esse período é chamado de janela imunológica. “Uma vez tendo-se deparado com um teste rápido para HIV positivo, é fundamental a confirmação do diagnóstico. O diagnóstico sorológico da infecção pelo HIV é baseado na detecção de anticorpos anti-HIV na corrente sanguínea”, afirmou Scudeler.

O que é janela imunológica?

O portal do Departamento diz que “janela imunológica é o intervalo de tempo decorrido entre a infecção pelo HIV até a primeira detecção de anticorpos anti-HIV produzidos pelo sistema de defesa do organismo”. Na maioria dos casos o período da janela é de 30 dias, mas a duração pode ser alterada dependendo da reação do organismo do indivíduo a infecção e do tipo de teste que foi feito (o método utilizado e a sensibilidade).

Há cura?

Segundo o médico Thiago Scudeler, vários laboratórios ao redor do mundo têm pesquisas em andamento para desenvolver uma medicação que cure ou previna a contaminação pelo HIV. “No último ano, vários grupos de pesquisadores comprovaram que é possível expulsar o HIV de seus ‘esconderijos’ e jogá-lo de volta na corrente sanguínea – de onde ele poderia ser eliminado facilmente, possibilitando a cura. Recentemente, pesquisadores dos EUA conseguiram remover o genoma do HIV das células imunológicas de um paciente com o vírus da AIDS. Portanto, acredito sim que estamos próximos da cura da AIDS”, disse o profissional que ainda completou dizendo que isso não permite que as pessoas tenham comportamentos arriscados. “É importante o uso de preservativos nas relações sexuais e o não compartilhamento de seringas, agulhas, lâminas de barbear, etc”, ressaltou.

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