Jornalista do G1 compartilha experiências e opiniões sobre a profissão

Claudia na sala de reuniões do G1 | Foto: Giuliana Facco

Claudia Assencio de Campos é jornalista e editora do G1 em Piracicaba e tem 35 anos. Antes do jornalismo fez letras. Também tem pós-graduação em linguística e já lecionou muitos anos, dando aula em colégios de Piracicaba e outras cidades. Foi na sala de aula que começou a trabalhar com editoriais, fazendo projetos de escrita que envolviam textos da esfera jornalística. Já era um desejo desde a adolescência ser jornalista e esse desejo voltou na sala de aula enquanto docente. Entrou no jornalismo com 25 anos e formou-se na UNIMEP.

Começou a carreira fazendo estágio na TV UNIMEP, passou pela ABTU (Associação Brasileira de Televisão Universitária), por uma empresa metalúrgica na área de assessoria, participou do processo de trainee do Estadão e do prêmio jovem jornalista, ganhando uma bolsa para a Espanha. Depois de um tempo entrou no G1, onde está há três anos. Começou como temporária, cobrindo férias, depois como repórter e atualmente como editora. Como professora, nunca deixou a carreira de lado e hoje está abrindo o próprio centro de cultura e comunicação.

O que você mais ama sobre sua profissão?

Ajudar. Acho que o jornalismo cumpre esse papel, por mais que um caso possa parecer insignificante, mudar a vida de alguém com uma reportagem, é muito gratificante. Também é poder dar voz para quem não tem. E mais que tudo, estar na rua. Sou editora, mas não é por isso que eu fico sentada na frente do computador revendo e relendo textos. A gente também vai para a rua e isso é importante. Você começa como repórter e acho que ele é a alma do jornalismo, porque é quem está lá fora, quem está vendo. Estar na rua não é somente estar com o pé lá, é você fazer uma ligação com o mundo e não ficar refém das informações que já vem para você, não dá para ficar sentado esperando que as coisas venham até você. Ir para a rua, é o que eu mais amo na minha profissão.

Existe algo no jornalismo atual que você gostaria que mudasse?

O profissional precisa ser mais valorizado. Pensando na obrigatoriedade do diploma, “Qualquer um pode ser jornalista”? Não, não pode, porque você não vê pessoas despreparadas, com ou sem diploma, nas grandes mídias. Também a proteção do profissional. Quantos casos de violência não vemos, às vezes simplesmente porque ele está com um microfone na mão de um determinado veículo? Ele está somente trabalhando e tem que ser respeitado como qualquer outro profissional.

Qual o caso mais absurdo que você já teve?

Tem um que não é absurdo, mas que faz você perceber como as pessoas enxergam a profissão. O caso foi de um cachorro que teria sido arrastado pelo dono. Ele passou por cirurgias e clinicas se interessaram pelo caso. Teve muita repercussão na cidade e na região. Uma semana passou e a pessoa que me deu entrevista, ligou na redação e alegou que eu estava ganhando muito com a repercussão da matéria e queria ajuda para pagar sua pensão. Quem disse para essa pessoa que a gente ganha por matéria? Isso é um equívoco. Qualquer empresa jornalística precisa de leitores, mas eu não ganho mediante a repercussão de caso nenhum.

Qual foi o momento mais marcante da sua carreira?

Cobrir eleições. Eu acho que é um momento importante. Já cobri três eleições e você vive o jornalismo naquela loucura do plantão, do ser online, ser imediato, de dar o resultado e esperar as urnas. A Copa do Mundo também, aqui na região nós tivemos algumas comitivas e delegações por perto. Poder entrevistar algumas autoridades e fazer perguntas que talvez o Brasil todo gostaria de fazer e representar essa voz. Eu tive a oportunidade de entrevistar a Marina Silva, Fernando Henrique Cardoso, também fui à vinda da Dilma na Cosan para o lançamento da usina de etanol. Foram momentos marcantes.

Sabendo tudo o que você sabe hoje sobre a profissão de jornalista, você ainda escolheria esse caminho?

Vocação? Eu acho que tem um pouco disso sim, porque você abre mão de muita coisa, são os plantões de final de semana, são os feriados que você não vai estar com a sua família na maioria deles. Você precisa da compreensão do outro lado também. Eu interrompi o magistério e eu estava bem alicerçada na época para a minha idade. Algumas pessoas até me julgaram, mas eu quis e não me arrependo nem um pouco. Porque desde então, graças a esforço, a me debruçar mesmo, eu nunca fiquei desempregada nos últimos seis anos, desde que eu entrei para o jornalismo.

Qual seria um conselho para quem está se formando em jornalismo?

Nunca se esqueça de que informação é um serviço, é um direito do cidadão. O que você faz, é uma prestação de serviço. Muitas pessoas acham ou confundem o jornalismo porque tem a falsa impressão de glamour. Esqueçam isso. Você tem que pensar na prioridade da profissão, a quem ela serve e fazer com o coração e com ética. Sempre ter os olhos abertos e olhar para a rua, não ficar preso às limitações da redação. O profissional no jornalismo por uma necessidade é multimodal, ele fotografa, filma, escreve, edita, faz a pauta. Mas enfim, não caia de cabeça nessa correria, esquecendo-se de olhar para fora. O jornalismo nasce de você contar histórias. Informar é servir.

Em um contexto político, inclusive o atual, a imprensa tem uma posição. A imparcialidade tão buscada pelo jornalismo existe?

A imparcialidade não existe totalmente. Quando você escolhe, por exemplo, um verbo, já vai deixar um lado descontente pelo título de uma matéria. Uma palavra já está de um lado e isso pode não ser consciente. Às vezes pode, mas estou dizendo que as palavras carregam sentindo. A imparcialidade é o ideal no jornalismo. Não é porque você está de um lado ou não, é porque as palavras fazem isso muitas vezes. Não é fácil de se atingir, mas uma coisa é você ir buscar a imparcialidade e lutar por ela de uma maneira franca, sincera e honesta.

Quanto às posições que a imprensa tem assumido nessa crise, elas são potencialmente influentes? E a atividade jornalística afeta as estruturas políticas?

São. E sim, afetam em menor ou maior grau.

Em relação à falta de exigência do diploma na profissão, você apoia qual lado?

Eu acredito que formação é indispensável. O jornalismo necessita de técnica, não é simplesmente colocar o título, a manchete na ordem direta, não usar palavras adjetivas. Técnica envolve ética, a deontologia da profissão, e isso você vai ter na experiência, na cadeira da redação, mas a universidade é o seu primeiro passo. Eu sou completamente a favor, obviamente, da obrigatoriedade do diploma. Também sou do jornalista como qualquer outro profissional nunca deixar de estudar. Ele tem que se especializar, sempre se atualizando. Os grandes veículos de comunicação dificilmente vão aceitar um profissional que não tenha a faculdade de jornalismo. Alguns até fazem seleções e programas de treinamento, mas são exceções. Não é qualquer pessoa que vai chegar e entrar para cobrir esporte, tecnologia, cultura, economia. Você pode ser um articulista, mas fazer jornalismo é outra história. Informar tem um preço. Não é qualquer um que pode fazer de maneira ética, principalmente nessa avalanche onde todo mundo tem o celular na mão e pode ser produtor de conteúdo.

As grandes empresas estão à procura de pessoas que escrevam bem e que não tenham formação na área para gerar menos custos?

Pode ser. Mas isso é feito não só pela falta de diploma. Se você olhar para outras empresas de outras áreas, isso também acontece como na forma do estagiário. Isso é um resultado de defasagem do mercado de trabalho no geral. Mas, que reflete no nosso, não tenha dúvida. É uma carga tão competitiva que quem tem diploma já está na frente.

A revogação da obrigatoriedade do diploma seria uma forma de afastar o jornalismo da política?

Não, de jeito nenhum. Não quer dizer que quem não tenha o diploma de jornalista, mas que seja uma pessoa informada, letrada, que busque conhecimento, não seja capaz de fazer. No jornalismo você não aprende só a técnica, aprende outras coisas como: entrevistar, abordar, insistir e ter a resposta necessária. Não acho que afasta a política. Mas acho que pode comprometer resultado da informação que vai chegar para o leitor.

A mídia tradicional do jornalismo representa o interesse público. É necessário organização das imprensas e governança para construir uma credibilidade?

É necessário que a gente vá buscar as informações. Quando ela não existe de maneira transparente nossa função é questionar. Não podemos ficar dependentes dessas instâncias. Eles também têm o dever de informar, precisamos do dialogo, dessa ponte.

A nova mídia, como no caso de blogs ou portais na internet, muitas vezes costumam obter notícias falsas e isso pode acabar causando uma repercussão maior do que matérias que sejam verdadeiras?

Não tenha dúvida. É ai que temos que pensar na educação desse leitor. Formar leitores também é necessário. O leitor também precisa saber onde ele vai buscar notícia. É nessa avalanche que os veículos de credibilidade ganham mais valor. Nessa luta por dar primeiro, quem não tem essa formação não sabe onde buscar informação ou fonte oficial e se aprimora na redação, na vida e na vivencia dentro de uma redação jornalística.

 

Entrevista por: Fernanda Rizzi, Gabriely Marchi e Giuliana Facco.

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