Jovens assumem a vanguarda da cultura negra em Piracicaba

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Aulas gratuitas de danças urbanas na Casa do Hip Hop (Créditos: Júlia Heloisa Silva)

A juventude tem sido a principal protagonista na expressão da cultura negra na cidade de Piracicaba. As formas escolhidas são diversificadas e passam pela música, festas típicas e projetos no campo da educação, como é o caso do Mello África, evento realizado pela direção e alunos da escola estadual professor Elias de Mello Ayres.

O evento é em corpo de festival realizado na própria escola que busca recontar a história dos negros por meio de palestras, músicas e até na culinária. “É um jeito, também, da gente conseguir efetivar, pelo menos no Mello Ayres, a lei 10.639 (2003), que estabelece, no Plano Nacional da Educação, o ensino sobre a história e cultura afro-brasileira”, explica Pierre Tazzo, estudante da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e ex-aluno do Mello Ayres, um dos idealizadores da iniciativa.

Alunos de Oscar Rosa ensaiando a coreografia “da senzala ao gueto” (Créditos: Júlia Heloisa Silva)

Para Tazzo, os jovens de Piracicaba têm se interessado mais por cultura e isso inclui a cultura negra. “O Batuque de Umbigada, a Batalha Central, a Casa do Hip Hop, e agora o Mello África, são a expressão desse interesse. A juventude tem tomado ainda mais espaço e consciência que cultura é essencial para a sua vida em sociedade”, afirma.

Já para Marcus Mendes, jovem conselheiro do Conselho da Comunidade Negra de Piracicaba, o interesse dos jovens piracicabanos pela cultura negra aumentou muito, mas ainda não é o suficiente. “O pessoal está buscando assumir a identidade, mas o intelectual ainda é falho. Por exemplo, você faz um evento envolvendo uma festa e uma palestra, a maioria dos jovens não vai à palestra, mas aparece na festa, sendo que um complementa o outro e é um resgate de autoestima. Então essa falta de interesse ainda é real”.

Oscar Rosa, professor de danças urbanas da Casa do Hip Hop, oferece aulas gratuitas para jovens de diferentes idades e, por meio da dança, consegue transmitir a cultura negra tanto pra quem participa das aulas, quanto para quem assiste. “A gente trabalha muito com músicas de influência negra. A última coreografia que estamos fazendo se chama ‘da senzala ao gueto’ que conta a história dos negros desde quando estavam escravizados, até os dias de hoje”, relata o professor.

A Casa do Hip Hop, ONG que atua há 16 anos na cidade, oferece, além de danças urbanas, várias outras oficinas gratuitas para a comunidade de Piracicaba. É sede de muitos eventos relacionados à cultura negra. Mas, foi preciso muita luta para conquistar a confiança da comunidade. Segundo Bira Pper, coordenador geral da Casa do Hip Hop, o estatuto para registrar a ONG demorou aproximadamente cinco anos para sair. Depois de aprovado, os organizadores começaram a trazer várias oficinas que a comunidade queria. “A Casa do Hip Hop não se construiu sozinha, se construiu em conjunto, deixamos de ser ‘guetinho’ e passamos a ser cidade”, relata Pper.

Outro projeto ativo na cidade é o AfroPira, fundado pela cantora Elaine Teotônio e o mestre de capoeira Marcos Farias. Seu principal objetivo é trabalhar a representatividade com crianças e adolescentes mostrando a verdadeira história de seus ancestrais.

Elaine explica a importância de preservar qualquer tipo de cultura, pois, segundo ela, é o que identifica um povo e tudo que vem de uma cultura, tem uma questão de ancestralidade. “O Batuque de Umbigada, por exemplo, é uma dança que celebra a vida. Os africanos entendem que o umbigo é o ventre e dali tudo se inicia. Ao mesmo tempo, tem uma questão histórica: quando os escravos estavam na senzala, não podiam ter comunicação, estavam sempre sendo vigiados e esse ‘encosta e afasta’ da dança, era uma forma de dialogo entre eles”. Segundo a cantora, quando se conhece essas histórias, se contrapõe tudo o que se aprende sobre os negros e se aprende que mostrar isso é importante para valorizar a verdadeira origem e resgatar a autoestima de todo esse povo.

Os organizadores do AfroPira estão trabalhando para transformar o movimento em uma associação. Hoje ele se concentra no bairro 1º de Maio com o bate lata e a capoeira e, desde o mês de outubro, começou a se expandir para mais sete bairros. “Estamos plantando sementinhas. Já temos, na escola Antônio Pinto de Almeida Ferraz (Apaf), um dos nossos alunos, de apenas 12 anos, sendo o nosso multiplicador e levando o bate lata para a escola”, conta a cantora.

Ensaio do bate lata no Centro Comunitário “Antônio José Contarini”, no bairro Pq. 1º de Maio (Créditos: Júlia Heloisa Silva)

Preconceito

Apesar de toda miscigenação de culturas e raças que há no Brasil, ainda existe um racismo velado quando o assunto são os costumes, a raça, os valores ou a religião do próximo. E a cidade de Piracicaba não fica de fora.

Um exemplo contado por Bira foi um processo de aceitação da comunidade com a abertura da Casa do Hip Hop. “O mais difícil de fazer, depois que o estatuto saiu, foi acabar com a questão do que o pessoal entendia como ‘cultura do hip hop’. Pensavam que estávamos aqui para ‘zoar’ e usar drogas. Então começamos a desfazer esses pensamentos por meio de atitudes”.

Para Elaine Teotônio, quando se é militante no assunto “preconceito”, muitos dirão que esse comportamento é o famoso “mimimi”. Mas, ela explica: “Nós temos que vir desconstruindo muitas coisas pra depois construir. Quando vemos uma criança não querendo dizer que ela é negra, ai já não é mais ‘mimimi’, alguma coisa está acontecendo. Nós estamos aqui e não é à toa”.

Em Piracicaba, a população considerada preta ou parda é de apenas 23,7% (dados do IBGE), mas este número não reflete a realidade. Segundo Elaine, a cidade de Piracicaba foi a terceira cidade do estado de São Paulo com mais negros na época da escravidão. “Especialistas que trabalham com o IBGE, já comemoram porque, em 2010, data do último censo, já houve um crescimento de pessoas que se declaram pretas ou pardas, mas concluem que ainda falta muita aceitação para que esse número seja real”, conclui a cantora.

A resistência na aceitação da cultura negra no dia a dia dos piracicabanos, de acordo com Mendes, é nítida, mas, tem uma explicação. “A culpa da não aceitação dessa cultura, não é dessas pessoas, pois, a maioria vive aquilo que outros impõem para elas ao invés de ir, realmente, pesquisar e entender o verdadeiro significado da cultura negra”.

História

O Brasil é o país com a maior população de origem africana fora da África. Por isso, a cultura desse continente, que se manifestam principalmente por meio da música, da religião e da culinária, exerce grande influência, principalmente no Norte e Nordeste.,. Essa influência acontece devido à quantidade de escravos recebidos e também pela população interna destes.

No inicio do século XIX, os rituais e costumes africanos não eram permitidos, pois não faziam parte da cultura europeia. Deste modo, era considerado atrasado. Mas, a partir do século XX começaram a ser aceitos e expressados artisticamente e hoje fazem parte da cultura brasileira e influenciam no dia a dia da população.

 

 

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Júlia Heloisa Silva

UM COMENTÁRIO

  1. Parabéns Júlia!!! Linda sua matéria!! Amei!! Com certeza vc será bem sucedida em sua profissão!!!

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