Nepep arrecada livros e brinquedos para comunidade indígena

Estudantes da Unimep estão arrecadando livros e brinquedos para os 2,5 mil índios da etnia Guarani-Kaiowá que habitam os 60 hectares da aldeia Limão Verde, em Amambai, no Mato Grosso do Sul. A campanha está sendo realizada pelos integrantes do Núcleo de Estudos e Programas em Educação Popular (Nepep) da Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep) e promete abranger questões sociais visando o bem-estar da comunidade indígena. De acordo com um balanço parcial até o dia 2 de outubro, 40 livros e nenhum brinquedo foram coletados. A ação estende-se até 13 de outubro.

O início da expedição se deu com uma viagem de oito dias (17 a 25 de julho) do grupo do projeto de extensão para o local. Em parceria com a Igreja Metodista da região, a excursão pretendeu ser uma ação social pela promoção e prevenção da saúde, bem como uma interação entre os nativos e os estudantes.

No total, 35 alunos de diversos cursos da Universidade, um professor e três funcionários participaram da viagem. Duas aldeias e uma comunidade periférica foram visitadas.

“Nós trocávamos muitas informações, cada um contribuindo com o que sabia, abrangendo várias áreas e oferecendo não só o conhecimento técnico, mas também o valor como ser humano na causa do próximo, trazendo igualdade para a sociedade”, contou Raphael Godinho, membro do Nepep e estudante de farmácia da Unimep.

Inocencio Franco Vera Foto: Matheus Calligaris
Inocencio Franco Vera
Foto: Matheus Calligaris

A ideia da campanha surgiu por meio de um depoimento de Inocencio Franco Vera, agente de saúde e representante da escola indígena da aldeia, que perguntou à Izabela Biagioni, integrante do Nepep e aluna de enfermagem na Unimep, qual o preço de um livro do curso, pois almejava terminar seus estudos. Então, o indígena enviou uma carta à ela agradecendo e informando seus contatos, para que, posteriormente, os materiais fossem encaminhados.

Izabela contou que sua experiência na viagem foi muito emocionante. “O interesse deles era em querer aprender. Nós explicamos tudo de um modo didático, prático. O resultado foi muito positivo, todos estavam dispostos a adquirir conhecimento”, ressaltou.

O objetivo, segundo Patricia Sampaio, integrante do Nepep e estudante de direito da Unimep, é ajudar o Inocencio. Porém, outros focos são abordados, como o intuito de alcançar mais pessoas para levar uma maior quantidade de livros aos índios da região, que não possuem acesso pela falta de renda. “A mídia não dá o enfoque necessário aos índios. Sabemos que existem povos indígenas no Brasil, mas é raro ouvirmos noticiar. Nunca problematizam e não trazem a realidade que eles estão enfrentando”, expressou.

Os materiais coletados são: livros acadêmicos nas áreas de direito, saúde, biologia, psicologia, pedagogia, música, livros infantis de contos, gibis, desenhos, literatura em geral e brinquedos em bom estado de conservação. O local de recolhimento é o Nepep (campus Taquaral, bloco 9) ou diretamente através dos estudantes da universidade, integrantes do Nepep: Izabela, Juliana, Larissa, Patricia e Val.

Grupo do projeto de extensão em Amambai Foto: Matheus Calligaris
Grupo do projeto de extensão em Amambai. Foto: Matheus Calligaris.

GUARANI-KAIOWÁ

Desde 2005, a etnia Guarani-Kaiowá, composta por 48 mil indígenas, está sofrendo em virtude da suspensão dos efeitos da homologação da terra indígena Ñande Ru Marangatú, com ordens de fazendeiros do Supremo Tribunal Federal. Os índios foram expulsos de seus terrenos e obrigados pelo Serviço de Proteção aos Índios (SPI) a instalar-se em oito reservas, que objetivavam liberar as terras para as propriedades de fazendeiros e manter os indígenas sob controle. Diante desta situação, as tribos passaram a viver menosprezadas e estão sendo vítimas de violências e assassinatos.

De acordo com o Conselho Indigenista Missionário, em 2014, 138 índios morreram assassinados no país por causa de conflitos de terra, e 29% destes foram no Mato Grosso do Sul.

Porém, em 22 de agosto, os Guarani-Kaiowá decidiram reocupar sua terra tradicional. A resistência indígena ocasionou ataques dos latifundiários e parlamentares locais contra a comunidade.

O grupo de extensionistas, frente a esses acontecimentos, presenciaram os genocídios que estão ocorrendo no estado do Mato Grosso do Sul. O professor e coordenador do Nepep, José Eduardo Fonseca, disse que atua “nas comunidades periféricas, carentes, indígenas para conhecer as suas realidades, conversar e aprender com eles. Fomos vivenciar a questão da exploração das terras, invasões e conflitos dos pecuaristas, agricultores com os índios, que reivindicam dizendo que aquele local é deles”.

EXTENSÃO

Nepep no 21º Grito dos Excluídos Foto: Natália Marim
Nepep no 21º Grito dos Excluídos
Foto: Natália Marim

O Nepep possui um grupo de trabalho voltado para atividades de extensões, com curso de formação para os alunos da Unimep a fim de que eles possam atuar nestas ações, em nível local, regional e nacional. Através de planejamentos e projetos, os trabalhos são desenvolvidos pelos estudantes, que são preparados desde o início da Extensão.

Ao longo dos 32 anos de existência, o Nepep vem trabalhando junto com os movimentos sociais, valorizando comunidades e associações, buscando a troca de conhecimento e o diálogo próximo entre a universidade e a sociedade. A ideia é a formação de equipes interdisciplinares, a fim de se obter a troca de experiências entre os participantes.

O Nepep também foi um dos oito grupos presentes no 21º Grito dos Excluídos, manifestação popular de âmbito simbolista que ocorreu em todo o Brasil, no dia 7 de setembro, e foi aberta a pessoas, grupos, entidades, igrejas e movimentos sociais. O objetivo foi reivindicar a causa dos índios, a reforma política, reforma agrária e agrícola, reforma tributária, auditoria da dívida pública, defender direitos dos cidadãos ao alimento, à educação, à moradia, à terra, ao trabalho digno, lutar pelas formas de expressão da sexualidade humana e criticar questões sociais.

As finalidades do protesto pacífico englobavam: propor a todos uma reflexão sobre a atual situação do Brasil, denunciando, questionando e criticando as explorações que acometem os seres humanos, buscar uma ruptura de dogmas pré-estabelecidos e mexer com a mente e espírito das pessoas, atingindo o contexto social de forma a dar visibilidade aos excluídos.

Realizando uma comparação com o projeto de extensão em Amambai e o evento, Rodrigo Correa, membro do Nepep e estudante de história, indicou algumas questões fundamentais. “A dinâmica de exclusão, periferia e marginalidade, só muda o contexto cultural: o daqueles, o indígena, o destes, o urbano e o rural. Mas, em geral, é o mesmo problema com latifundiários, os quais incendeiam ocas lá, e, aqui, barracos das pessoas dos acampamentos do Movimento Sem-Terra. Os preconceitos, a falta de assistência do Estado com relação a essas populações, as negligências, dificuldades são iguais. Dois espaços distantes mostram que não precisamos ir tão longe para entender uma realidade de omissão, desigualdades e abuso”, disse.

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Um comentário em “Nepep arrecada livros e brinquedos para comunidade indígena

  • 22 de outubro de 2015 em 14:38
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    Parabéns pela matéria jovem, ficou muito boa 🙂

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