No aconchego de Elba

“Cara, quase pari no palco”. Como numa conversa entre amigos, Elba Ramalho nos recebeu em seu camarim.  Antes a  regra estava dada, nada de perguntas, estaríamos presentes em sua coletiva, porém sem direto à palavra. Com muita insistência e com a ajuda de um de seus produtores, conseguimos quebrar esta regra e os poucos segundos cedidos  se transformaram em mais de 10 minutos. Nossa ousadia rendeu uma bronca  seguida de um elogio de seu produtor e pudemos descobrir que por trás da  energia contagiante e do timbre tão conhecido por todo Brasil, existe uma pessoa que no seu agir carrega marcas inerentes de suas raízes. A nordestina que abre suas portas para os amigos, que expressa o sertão através de seu forró nos recebeu com humildade após duas horas de espetáculo.

Ariane – O que ainda resta de teatro na sua vida, na sua carreira?

Elba Ramalho – No meu espírito, é a atriz que entra primeiro em cena, nunca vai deixar de ser. Eu acho que o teatro é o que dá a régua ao compasso, é o que põe você democraticamente livre, desprovido de qualquer amarra que você tenha lá fora. Você ali não é você, mesmo eu sendo Elba Ramalho, eu ainda posso ser Margot, posso ser qualquer personagem, ou o que você queira entender. Por isso que eu brinco tanto em cena, pra mim é tudo teatro e eu aprendi assim. Eu comecei na música como baterista, tocava violão, cantava nos bares, mas eu era um bicho de teatro, a que fazia os textos, a que encenava, a que criava, meu espírito é esse, a de operaria da arte. O teatro dá essa consciência, essa liberdade, o teatro me ensinou, a ser humilde, a cuidar do cenário, da luz, de mim, da roupa, do público, parar tal hora, dizer aquilo tal hora, é que me faz ser uma mulher show, fazer espetáculo.

Ariane – E sobre todas as parcerias ilustres que você já fez, tem alguma que marcou mais. Como elas se dão?

Elba Ramalho – (risos) A primeira pessoa que me convidou e eu fiquei muitíssima honrada foi Luiz Gonzaga, porque ele era meu mestre e a forma como ele me conheceu e me recebeu, eu tava despontando na música e ele: “ei loira”. Eu nem era loira na época (risos). E ele ficou meio que paizão, pra mim foi a coisa mais honrosa do mundo, eu tava com um rei, com um cara que tinha criado tudo e na sanfona e voz residia todos os nossos sentimentos, dores e alegrias. E depois Dominguinhos, e Gil, é sempre uma emoção quando eu cruzo o palco com Gil, com Caetano. Agora eu tô fazendo um show chamado As Mulheres de Chico Buarque de Holanda, eu Daniela Mercury, Roberta Sá e Paula Lima, e às vezes a gente reveza com Margareth Menezes. É muito maravilhoso dividir o palco assim com outras cantoras. O Grande Encontro foi um momento transcendental para mim, eu Zé Ramalho, Geraldo e Alceu ali fomos os Beatles da música nordestina.

Ariane – Quando surgiu “O Grande Encontro” vocês já tinham em mente outros, por que são três, não são?

Elba Ramalho – Não, a gente só pensava num, mas foi tão retumbante o primeiro Grande Encontro, tão difícil juntar as personalidades de Alceu, principalmente, de Zé que são fortes diferentes da minha e de Geraldo, somos mais brincalhões, pacíficos, e levar aquilo adiante. Mas foi um fenômeno, a gente vendeu milhões de discos e vendemos até hoje. São discos que são sempre relançados e bem vendidos. Quando Alceu saiu, o público ficou saudoso, a gente resolveu continuar, eu, Geraldo e Zé. Fizemos ainda um DVD e dois discos, bem legal. Eu gosto desses dois discos gravados em estúdio do Grande Encontro. Acho que foi na hora certa, já faz 20 anos e as pessoas cobram muito o reencontro, é meio difícil, mas eu ainda tenho esperança que de bengalinha assim (risos), os quatro entrem no palco de novo. São quatro vozes fortes do nordeste. Poxa, fazer duo com Zé, fazer duo com Geraldo. Geraldo é meu compadre, gravei mais de 30 anos músicas dele e do Zé também. E Alceu é o mais difícil de todos (risos), mas é um artista maravilhoso, inegavelmente. Vamos ver né, foi um momento bom para mim.

Ariane – O nome “Marco Zero” do seu último CD e DVD vêm porque ele foi gravado na Praça Marco Zero em Recife. Quando se pensa em um disco que traz canções dos 30 anos de carreira, pode-se imaginar que o nome tenha partido do principio de ser um marco da carreira, existe alguma ligação entre as duas idéias?

Elba Ramalho Foi coincidência, o nome “Marco Zero” é um nome bom, eu nem ia chamá-lo de Marco Zero, mas é um polo cultural de Recife. Eu tava chamando de “Elba 30 anos”, aí complementei Marco Zero, porque Marco Zero também é um registro. São as duas coisas misturadas, aconteceu mesmo porque o lugar se chama Marco Zero e porque é um marco zero na minha vida também.

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arianeprecoma

Estudante do 3º semestre de Jornalismo. Contato: ane.precoma@gmail.com

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