O cultivo da cana-de-açúcar rumo à sustentabilidade

Post By RelatedRelated Post

O Brasil é o maior produtor mundial de cana-de-açúcar, colhendo quase 600 milhões de toneladas do produto na safra 2012/2013, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Somente o estado de São Paulo responde por 60% desse total.

Dados da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), demonstram que o etanol produzido a base de cana-de-açúcar representa 15,7% de toda a energia gerada no país, o que tem papel inegável na economia interna e na diminuição da dependência de combustíveis fósseis, como a gasolina. Além do etanol, a produção de bioeletricidade é uma das atividades mais significativas da indústria sucroenergética, pois, por meio da queima do bagaço em caldeiras, as cerca de 400 usinas de açúcar e etanol existentes no país geram eletricidade para abastecer suas próprias atividades, tornando-se auto-suficientes em energia e, uma parte delas, ainda gera excedentes comercializáveis.

Apesar desses benefícios, seu cultivo ainda gera muitos debates, pois seu processo produtivo, se mal administrado, pode acarretar inúmeros malefícios para o meio ambiente. O principal deles é o uso de fogo para despalha do canavial quando o processo de colheita é realizado manualmente, atividade que gera altos índices de gases do efeito estufa. Para combater a prática, cresce o número de iniciativas, programas e legislações, como o Protocolo Agroambiental do Estado de São Paulo – que visa a eliminação da prática da queima até 2014 nas áreas onde já é possível a colheita mecanizada e até 2017 nas áreas em que não existe tecnologia adequada para a mecanização.

Essa foi a principal mudança que incentivou a sustentabilidade da lavoura de cana-de-açúcar, pois assim leva-se para a indústria somente os colmos da planta, deixando sobre o solo as folhas e palmitos picados. Com isto, tem-se a formação de uma cobertura vegetal, a qual traz uma série de benefícios, como: conservação do solo, aumento do sequestro de carbono, diminuição da oscilação de temperatura da superfície do solo, maior equilíbrio biológico do solo, maior retenção de água, menor perda de água por evaporação, melhor controle de plantas daninhas e reciclagem de macro e micronutrientes.

“Dentro desse contexto, todo o manejo da cultura da cana-de-açúcar passou a visar a preservação desses resíduos orgânicos em superfície, implicando, sob o ponto de vista econômico, em ganhos de produtividades e sob o ponto de vista ambiental, minimização na degradação do solo, além da redução do fornecimento da adubação mineral, pelo fato da palha fornecer parte dos nutrientes necessários para a planta”, afirma Claudimir Pedro Penatti,  gerente Regional do Centro de Tecnologia Canavieira.

Além da colheita mecanizada e da geração de energia, outras práticas internas podem ajudar a indústria canavieira a manter índices sustentáveis em sua produção. O uso da vinhaça, subproduto da cana rico em potássio, que antes era descartado, hoje volta como fertilizante biológico para o solo, reduzindo o uso de produtos químicos. O baixo uso de fertilizantes industrializados nos canaviais brasileiros também contribui para a redução dos gases de efeito estufa, uma vez que na fabricação de adubos minerais são utilizados combustíveis fósseis.

Em relação ao uso de defensivos agrícolas, a lavoura canavieira apresenta menores índices quando comparados aos de outras culturas. Uma parte significativa das pragas e doenças que ameaçam a cana-de-açúcar é combatida por meio do controle biológico e de programas avançados de melhoria genética que ajudam a identificar as variedades resistentes às doenças. “A cana-de-açúcar utiliza menos fertilizantes que as culturas do algodão, café e laranja, destacando-se a reciclagem de nutrientes com a utilização de resíduos orgânicos, como a vinhaça. Nesse caso, verifica-se uma redução no custo com a aquisição de adubos minerais, o que é mais uma vantagem sob o ponto de vista de sustentabilidade. Já o melhoramento genético da cana-de-açúcar contribui significativamente para a sustentabilidade da cultura, pois permite o desenvolvimento de variedades mais produtivas e, portanto, com mais produção por hectare, sem aumentar os insumos utilizados na cultura”, afirma Pennati.

Uso do solo

De acordo com o IBGE, o cultivo de cana-de-açúcar no Brasil ocupa cerca de 9,5 milhões de hectares, o equivalente a 1% do território nacional. Uma participação não tão expressiva se levarmos em conta, por exemplo, a área destinada para pastagens, que é de quase 200 milhões de hectares.

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram ainda que mais de 60% da expansão recente de cana-de-açúcar na região Centro-Sul ocorreu em áreas de pastagens, em sua maior parte degradadas, o que demonstra que não há desmatamento para abrigar a lavoura. Os novos plantios de cana estão ocorrendo sob áreas já consolidadas, como as utilizadas pela pecuária, que são ineficientes. A expansão da cana no Brasil é também guiada pelo Zoneamento Agroecológico da Cana-de-Açúcar, lançado em 2009 pelo Governo Federal. Esta regulamentação indica as áreas aptas para o cultivo e exclui qualquer expansão em biomas sensíveis, como Amazônia e Pantanal, assim como em qualquer área de vegetação nativa.

Apesar de ser uma monocultura, os canaviais brasileiros apresentam níveis relativamente baixos de perdas de solo, isso porque a cana-de-açúcar possibilita que vários cortes possam ser feitos ao ao longo de cinco a sete anos antes do replantio. A tendência é de que a capacidade de conservar e reter o solo nas áreas canavieiras aumente expressivamente nos próximos anos, com a permanência da palha no campo decorrente da colheita mecanizada e a adoção do sistema de plantio direto. “A cana-de-açúcar é reconhecidamente uma cultura conservacionista. Estudos de perdas de solo em diversas culturas demonstrou que a perda de solo na cultura de cana é 38% menor que a observada na cultura de soja e 70% menor do que a observada em cultivos de mamona. A junção das duas tecnologias, colheita sem queima e preparo reduzido, deverá, nos próximos anos, melhorar o nível de conservação de solos sob plantio com cana-de-açúcar”, finaliza Pennati.

 

 

 

 

Share

Elisabete Alhadas

Aluna de Jornalismo da UNIMEP bete_alhadas@hotmail.com elasantos@unimep.br

DEIXE UM COMENTÁRIO

Email (will not be published)

*