Orgânicos, mais que um estilo de vida

Atualmente, muito se tem ouvido falar do estilo de vida baseado na alimentação orgânica. Hortaliças e vegetais que também são cultivadas pela agricultura familiar e não são expostas a agrotóxicos ou fertilizantes, passam a ser a busca do consumidor, no mercado. Além do cultivo não prejudicar o solo, o alimento não perde seu sabor e valor nutritivo, de acordo com pesquisadores da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq). Por essa razão, muitos chefes de cozinha tem optado pela culinária constituída por alimentos naturais, como é o caso de Paola Carosella, jurada do really MasterChef, da Band, que é proprietária do restaurante Arturito, localizado em Pinheiros, na grande São Paulo.

De acordo com uma pesquisa realizada pelo o Conselho Nacional da Produção Orgânica e Sustentável (Organics) o mercado nacional de orgânicos cresceu 20% em 2016 e faturou, aproximadamente 3 bilhões de reais. Durante o primeiro semestre do ano passado, o Brasil contou com mais de 14 mil unidades de produção orgânica, que se distribuíram em 23% dos municípios brasileiros.

Além da procura pessoal pelo produto, as exportações desses alimentos aumentam a cada ano. O Chile, por exemplo, é referência na qualidade de produção de orgânicos. Em matéria divulgada no site Organics Brasil, cerca de 95% do cultivo é destino a exportações. Já o Brasil, conquistou US$ 160 milhões em 2015 com exportações de 77 empresas  produtoras e processadoras de alimentos orgânicos que fazem parte do Organics Brasil.

Horta orgânica do Tijolinho, em Piracicaba (SP)/ Foto: Larissa Santos de Oliveira

De acordo com o professor e pesquisador Carlos Armênio Khatounian, 57, que atua na área de Agricultura orgânica da Esalq, em Piracicaba (SP), a aceitação desses alimentos sempre foi total, mas o que pode interferir no crescimento das vendas, conforme comenta o professor, é acessibilidade. “Eu falaria em três aspectos, acessibilidade de espaço, quando a pessoa mora em um lugar onde ela não encontra e não tem aquilo. Acessibilidade de preço e acessibilidade informacional.” Sobre o terceiro ponto o professor ressalta, que em muitos casos o produto existe no local, porém, não está nos meios de comercializações usuais, o que impede o consumidor de conhecer essa opção.

Para aderir esse estilo de alimentação, além de acessibilidade, também é necessário estar pronto para abrir mão do consumo de alimentos comuns. Logo, que a agricultura é cultivada de forma natural, respeitando a época e ambiente em que cada alimento se desenvolve. “Se a gente quiser ter uma alimentação sustentável e com pouco impacto ambiental, ela precisa se acoplar aos ritmos das estações do lugar em que a gente vive.” comenta Armênio sobre a reeducação alimentar.

Convencional
Por meio de um estudo realizado pela Fundação Oswaldo Cruz, o brasileiro consome, em média, 7 litros de agrotóxico por ano. Acompanhado de uma pesquisa da Esalq, o resultado mostra o quanto o insumo químico pode ser prejudicial. Segundo informações da analise, os agrotóxicos mais nocivos estão presentes em nossa alimentação.

Embora seja muito criticado, o agroquímico reúne uma série de estudos até que a sua formula seja aprovada no mercado. Para registrar um agrotóxico a empresa leva, em média, 10 anos. De acordo com informações oficias da Anvisa, é permitido o comercio de agrodefensivos, produzidos,  importados e exportados em território nacional, se forem devidamente registrados nos órgãos federais responsáveis pelos setores de agricultura, saúde e meio ambiente. A Anvisa também proíbe o registro de um agrotóxico, se não houver um tratamento eficaz para ele no Brasil ou se ele for considerado cancerígeno e capaz de gerar mutações observadas em testes, além de outras complicações.

Algumas das maiores empresas produtoras de agroquímicos, como a Bayer, no Brasil, vislumbram a acensão de controle natural de pragas, como, o controle biológico. Esse controle é realizado no campo e através de outro organismo vivo, que ataca o predador da lavoura, com insetos, bactérias e fungos. Essa técnica protege grande parte da colheita, garantindo comida na mesa de milhões de pessoas, sem causar um impacto no ecossistema e mantendo o alimento limpo, por meio de um cultivo sustentável.

O Diretor de Assuntos Corporativos e Governamentais da Bayer, Christian Lohbauer, afirmou “A própria Bayer já tem alguns produtos biológicos. É uma ciência nova. Hoje, a gente tem quatro ou cinco produtos no campo que são biológicos. Produtos vivos, bactérias, fungos, que entram em estado de ação quando vão para o campo”, sobre isso, o diretor ainda acrescenta, “Um dia, mas do que o controle biológico, o conhecimento genético vai levar a humanidade para outro patamar, onde não será mais necessário o agrodefensivo.”

Custo
Um bom motivo para muitas pessoas ainda optarem por alimentos convencionais, são pelos altos preços das hortaliças, vegetais, entre outros produtos, em sua versão natural. Em um breve diálogo, o professor Armênio explicou que, nos acompanhamentos de produção há sempre uma mudança na planilha de custos. Para os produtos convencionais, a utilização dos agroquímicos tem um preço considerável, portanto, não aparecem no custo de produção do orgânico. Mas o grande peso na agricultura orgânica é a mão de obra, um fator que se torna cada dia mais caro, de acordo com Khatounian.

Em síntese, um dos principais benefícios de uma alimentação orgânica e cultivo sustentável, é de que todo o ecossistema deixa de sofrer os impactos de contaminação ambiental. Desde a água, peixes, solo, até o ser humano. Além disso, enriquece nutricionalmente o organismo e leva a população a um contato direto com a época de cada alimento, o professor Armênio, ainda arrisca dizer, que essa decisão abrange questões psicológicas “Quando você se acopla ao ritmo das estações, você também se acopla ao seu ambiente. Você passa a apreciar o frio, porque o frio vai trazer cenoura. Aprecia o calor, porque ele traz manga. Além de valorizar os pratos da sua terra e o convívio social que eles reúnem.” finaliza, o professor.

Cultivo
A famosa agricultura familiar, que cultiva o alimento orgânico e também o convencional, foi mistificada por muito tempo na sociedade. É comum ter a ideia de que esse tipo de agricultura é desenvolvida para o benefício próprio de uma família, que possui alguns Hectares de Terra. Mas na verdade, de acordo com pesquisadores da Esalq, o Agronegócio é constituído essencialmente por agricultura familiar. Pode ser um negócio movido pela família em maior escala, com auxilio de tratores, colheitadeiras ou em menor escala, com excesso de mão de obra e em pequena proporção de terra. De acordo com Armênio, a principal força de trabalho da agricultura, tanto de alimentos convencionais, quanto de orgânicos, ainda é da família.

É importante ressaltar, que a agricultura da família movimenta o agronegócio em diversos lugares, como por exemplo, na Europa, Estados Unidos, Japão e também no Brasil. A razão para que esse tipo de negócio se mantenha no domínio familiar é por conta da oscilação de preços. Geralmente, os valores de produtos agrícolas flutuam com o decorrer do tempo, por isso, se o mercado for movido por uma empresa, que em sua estrutura universal é construída por funcionários, superiores, chefes e subordinados, o empreendimento corre o risco de falir, por esse motivo, o negócio agrícola não se abateu na crise nacional.

Além disso, o brasileiro tende a imaginar a família agrícola inserida em um contexto social baixo, o que também é um mito. Para que esse equivoco não ocorra, a lei brasileira tem um teto para definir o que é grande e pequena agricultura. Se a propriedade tiver mais que quatro módulos fiscais, não é agricultura familiar. Um modulo fiscal é definido pelo tamanho de 10 hectares. Se a terra for um conjunto de 35 hectares, é negócio familiar. A lei também estipula um teto de renda, se o agricultor não se encaixar em nenhum dos contextos aplicados, é considerado agricultura empresarial, mesmo que quem trabalhe predominantemente seja o núcleo familiar. O regulamento oficial foi definido para o camponês que não é bem sucedido.

Por meio da agricultura familiar percebe-se que hoje a dificuldade de adotar novos métodos alimentares, está muito mais ligado a zona de conforto de cada cidadão, do que a acessibilidade a esse alimento, já que é possível cultivar uma horta natural em pequenos locais, como, na própria residência.

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