Os saraus tiveram que invadir os botecos

por / 3 de maio de 2015 Cultura, Geral, Lazer sem comentários

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Renan Inquérito e outros colaboradores do projeto da Parada Poética chegaram cedo à Estação Ferroviária de Nova Odessa para organizar a 24ª edição, aniversário de dois anos de um sarau que reúne poesia, música, teatro e outros tipos de arte. Por volta das 17h do dia 13 de março, Renan e os amigos desciam cadeiras e mesas de um caminhão para espalhá-las pelo local. Estava tudo atrasado, e ainda haveria problema com o som cedido pela Prefeitura, situação resolvida com outro amigo, que chegou de última hora com uma caixa de som extra.

Parada PoéticaA entrevista com o idealizador do projeto foi marcada para às 17h, mas, nesse horário, Renan foi realista com a reportagem: “cara, enquanto a gente não terminar de montar essas mesas, não vou conseguir te atender, pode ser que não dê tempo. Você pode dar uma mão?”. Diante da falta de opções, as câmeras e gravadores foram postos de lado e a conversa sobre a Parada Poética aconteceu em meio a cadeiras, mesas e engradados de cerveja espalhados pela estação. O árduo trabalho foi acabar uma hora depois, e o fato de o próprio Renan, organizador da Parada e rapper com 15 anos de carreira, ter “botado a mão na massa”, revelou como tudo acontece naquele sarau: “sem fôrma, sem forma”.

Com a chegada do público, era difícil identificar quem estava ali para declamar e quem queria somente ouvir poesia. Livros, papeis, cadernos na mão denunciavam os poetas, que eram desde estudantes de física, a estudantes do ensino médio, passando por jornalistas e funcionários públicos. “O grande barato da Parada é esse, aqui é aberto a todo tipo de público, todo tipo de interesse. Aqui as pessoas são livres para falar sobre o que quiserem: desilusões, porres, amores, política, tudo”, explica Renan Inquérito.

A Parada Poética surgiu inspirada em outros sarais que levavam poesia a espaços públicos, segundo Renan. Um exemplo é o Sarau da Cooperifa, idealizado pelo poeta Sérgio Vaz, em São Paulo. “A poesia tem que ocupar os espaços, sair das bibliotecas”, defende Renan.


Poetas
A dinâmica da Parada Poética é simples: os interessados em declamar poesias colocam o nome em uma lista e são chamados ao microfone por Renan, que também declama alguns versos durante a noite. Na edição de aniversário, foram 61 poetas ao longo de mais de 3h de evento. Poetas falaram sobre injustiças sociais, problemas pessoais, amores esquecidos, amores perdidos, amores que ainda estão buscando. Já na primeira participação, uma jovem chorou ao declamar o texto “Primeiros Socorros”, de Maíra Viana.

Outro jovem inflamado por uma chacina acontecida semanas antes no ABC Paulista, em que amigos dele foram mortos pela polícia, chocou a platéia com um poema “bravo”, que critica o valor que algumas pessoas têm para a sociedade, e a falta de valor que alguns outros possuem. Em meio a tantos versos, até mesmo o repórter decidiu ter a experiência de encarar o microfone. Desta vez, não diante das câmeras, mas diante de mais de 200 pessoas reunidas para ouvir poesia. Versos de um amigo, Luis Gustavo Resende Gaiotto, foram declamados ao público:

“Coração. Quero outro, novo, casto,
Que esse já tão roto, gasto,
Cansado de tantos embaraços
Vou desfazer alguns laços para me amarrar outra vez”.

A experiência da reportagem comprova o argumento de Renan de que “qualquer pessoa pode fazer poesia”. E, de fato, todos os tipos de poetas deram as caras na Parada Poética. Veja abaixo no mapa onde a Parada Poética acontece, sempre gratuitamente.

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Leon Botao

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