Parque Corumbataí foi um dos quilombos mais importantes de SP

Perdida no bairro de Santa Teresinha, em Piracicaba, perguntei para um morador que lavava a calçada de sua casa onde ficava o Parque Histórico Quilombo Corumbataí. Ele não sabia do que se tratava e sugeriu que eu fosse ao posto de gasolina próximo para conseguir a informação. 

Mas o curioso foi que ao virar a esquina me deparei com um letreiro que tinha o nome do Parque bem em frente à casa daquele morador. Com essa situação, percebi como as histórias caem no esquecimento e são apagadas. 

Naquela manhã de domingo, o parque estava lotado. Pessoas caminhavam, jogavam futebol em um campo de areia, se exercitavam na academia ao ar livre, faziam piqueniques; as crianças brincavam no playground e na pista de skate. Alguns adultos conversavam com seus amigos ou observavam a movimentação. 

Em 1750, aquele lugar formava um dos principais quilombos já existentes do Estado de São Paulo e do Brasil. Sendo um dos mais antigos, se encontrava no ponto inicial do Campos de Araraquara (como era chamada a região de Piracicaba sentido ao Mato Grosso), às margens do rio Corumbataí. 

Perguntei a dois amigos que conversavam sob uma árvore se conheciam a história daquele lugar. A resposta também foi negativa. Então, fiz uma última tentativa: um senhor de idade com um dos braços engessado e um chapéu de palha na cabeça, foi o que mais se aproximou da resposta que eu esperava. Ele tinha noção de que havia sido habitado por negros no passado e, inclusive, a principal casa se localizava no centro do parque, mas também não sabia mais que isso. 

No quilombo urbano havia escravos fugitivos de aventureiros e exploradores, conta o historiador, Noedi Monteiro, arqueólogo da cultura afro-brasileira, em colaboração para a 24ª edição da revista IHGP (Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba) de 2018. Ele relata em seu texto “Campos de Araraquara e Quilombo Corumbatahy: extremos da capitania de São Paulo à expansão Oeste do Brasil-Colônia (1700-1804)”, que com a navegação fluvial que ocorria no rio Piracicaba, realizada por viajantes que seguiam do Campos de Araraquara ao Mato Grosso até Goiás, o comércio foi intensificado entre escravos e comerciantes locais. Lenha, madeira e aguardente eram os principais produtos que sustentavam a relação entre eles. Além disso, o escambo era mais comum na agricultura, envolvendo o milho, a mandioca e a cana de açúcar.

O local era caminho para aqueles que iam atrás das minas de ouro em Minas Gerais, mas após haver a suspeita de mineração de ouro nos Campos de Araraquara e da possível povoação de negros que começaram a se povoar com a criação de fazendas de gados, o quilombo recebeu atenção do governo. 

Em abril de 1804, o quilombo urbano Corumbataí foi destruído pelo sargento Carlos Bartolomeu de Arruda Botelho – que hoje dá nome a uma avenida importante em Piracicaba –  com a ajuda da força militar da Capitania de São Paulo e a pedido do governador Antônio José de França e Horta. 

Ocupado por quilombolas na época, o Quilombo Urbano Corumbataí foi responsável pela extensão política, econômica e social na região e, é claro, trouxe o conhecimento da construção da cultura africana, recebendo um dos primórdios no país. 

O historiador e filósofo Antônio Filogenio Júnior, com base em sua pesquisa para a tese de doutorado a respeito dos quilombos já existentes no Brasil, afirma que o local teve a presença de escravos de origem Bantu, vindos das regiões conhecidas atualmente como Congo e Angola, localizadas na África. 

Segundo ele, o tempo de existência do quilombo é um período importante para as análises históricas da presença negra no país e tem um papel altamente significativo, não só para a comunidade negra no reconhecimento da sua história e dos seus atos de resistência, mas também para um reconhecimento histórico do município e da região. 

Júnior também pontua que o local era uma organização comunitária e mesmo não utilizando necessariamente os valores que conhecemos hoje, como uma democracia moderna, era uma área aberta para o recebimento de outros povos, além dos negros como indígenas e pessoas brancas, que compartilhavam um espaço em comum. “O quilombo é um exercício democrático de uma organização social que existiu no Brasil em uma época que praticamente não se discutia isso. Eles foram um exemplo vivo dessa possibilidade”, ressalta.  

O historiador diz que há registros históricos da quantidade de pessoas que não eram negras, mas residiam e viviam no quilombo e registros, não somente aqui no estado de São Paulo, mas também em outras regiões do país, além da interação social, cultural e econômica desses quilombos com as comunidades vizinhas. Havia relações econômicas e sociais entre os quilombolas e o restante da população.  

Marcado por sua resistência escrava e influência territorial, o então vereador Walter Ferreira da Silva (1951-2011), conhecido como Pira e defensor da causa negra, resolveu reerguer a importância da história local. Foi então que criou o projeto de lei 295/2009, no qual o denominou de Parque Histórico Quilombo Corumbataí. 

O Parque se localiza no Distrito de Santa Teresinha, na avenida Nossa Senhora do Carmo e na rua Adelmo Cavagioni. O parque costuma ser frequentado pelos moradores locais e se tornou um espaço de lazer. Além das atrações oferecidas aos munícipes, algumas festividades também são comemoradas ali, principalmente voltadas à comunidade negra. Entre elas, o Festival Afropira e o grupo Batuque de Umbigada já realizou oficinas ali. 

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