Pequenos sonham grande

Eu acordei aquele dia com apenas um objetivo: voltar com uma boa história. Quando cheguei ao local do treino, me deparei com um espaço abandonado, uma bola de má qualidade e muitos meninos em busca de um só sonho: se tornar jogador de futebol. O campo que eu fui visitar é apenas mais um dos milhares que existem pelo país. Ali acontecem diversos projetos sociais, e muitos são voltados para o esporte.

(foto: catraca livre)

Não é novidade que o esporte é capaz de transformar vidas, ainda mais se estiver relacionado ao trabalho de organizações não governamentais que lutam pelo fim de situações de vulnerabilidade social. Muitas organizações no Brasil têm como objetivo comum a promoção do protagonismo social dos beneficiados, além de criar condições para a melhora no desempenho escolar e potencializar futuras oportunidades de inserção profissional.

Depois que eu comecei a observar todos aqueles pequenos jogadores com mais atenção, eu entendi que aquilo era mais que um simples treino. Para cada um deles – todos os dias – entrar em quadra representava mais uma fase da sua batalha para o seu sonho se concretizar. Mais um dia em busca do seu desejo, da vida melhor, da oportunidade de ser alguém. Foi nesse momento que eu percebi que aqueles olhares para mim, eram olhos famintos. Famintos de sonhos. Famintos de vontade. Famintos de garra. Famintos de coragem para enfrentar o mundo em busca de um ideal.

Bruno

“Deixa eu bater?”. Foi assim que Bruno Alves da Cruz –  mais conhecido como Bruninho – fez o primeiro gol da partida. A redonda entrou na caixa. Belíssimo chute de perna direita. Jogando com os chinelos nas mãos, ele mostra que para quem tem habilidade, um par de chuteiras é mero detalhe. Tímido e determinado, sabe que leva jeito pra coisa. Desde o início me despertou curiosidade. Olhando para ele, você percebe o quanto o futebol pode modificar a vida de uma criança. Menino respeitoso, cauteloso, mas ‘marrento’ dentro de campo. É bonito ver Bruninho jogar. No intervalo, enquanto os outros estavam bebendo água, lá estava ele seguindo o treinador. “Deixa eu colocar a camisa pra falar com a senhora”, me disse.

O menino acanhado de apenas 9 anos, em poucos segundos se tornou o garoto do sorriso fácil, do olhar distante. Falava de futebol com destreza de adulto. Jeito muito simples, mas com muito apetite de evolução. Acredita num amanhã melhor. Sua voz saía firme enquanto fantasiava sobre o futuro. Se o sonho de se tornar um jogador de futebol não se concretizar, ele gostaria de ser “trabalhador de padaria”. Quando perguntei o porquê dessa escolha de profissão, ele rindo, respondeu: “Ah, eu gosto muito de comer. E o que eu mais gosto é de comer pão”.

(foto: unicef)

Orgulhoso de sua posição de meia, me explica que o seu negócio é esquematizar a jogada, dar o passe, e não fazer o gol.  Ele não gosta de ser o centro das atenções. Quer ser tratado como o jogador que é indispensável ao time. Aquele que quando não joga, o time consequentemente não consegue fazer jogadas excelentes ou gols bonitos. Enquanto ele falava, o vi num jogo de xadrez, onde todas as peças são “figurantes” da rainha, mas sem elas a protagonista não sobrevive. Bruno é assim. Sem ele, os outros companheiros não conseguem vencer a partida.

“Desde pequeno minha mãe mandava eu jogar bola para eu ter um futuro”. O que antes era um esporte de elite, com o passar do tempo se tornou popular. Muitos jogadores que vieram de uma classe desfavorecida economicamente, trouxeram para esses jovens de hoje muito mais visibilidade. Isso faz com que as fantasias que crianças como o Bruno idealizam, se tornem mais reais, mais possíveis. Pelé, Neymar e muitos outros proporcionaram expectativa nos desejos dessas crianças. Eles são os espelhos dessa geração. São reflexos de garra e força para quem almeja insistir no sonho. São esperança em uma realidade tão difícil. “Eu não ligo para a fama. Só quero jogar bola e ajudar a minha família. Isso é tudo o que importa pra mim”.

Henrique

Me surpreendi com ele logo de cara. Já chegou conversando como se me conhecesse há tempos. Timidez não faz muito o seu estilo. Fala como se fosse gente grande, e ainda tem 14 anos. Com opiniões fortes e definidas, fala de futebol como se fala da vida. Henrique Martins. Respira futebol desde que aprendeu a respirar. Tem um ar determinado. Ele sabe o que quer. O mais incrível de tudo é que tem plena consciência da dificuldade que é conseguir espaço no futebol, mas como eu já disse, ele sabe o que quer.  Tem atitude, foco, e acredita no seu potencial.

“Caso eu não consiga ser jogador de futebol, pretendo fazer educação física, para poder me manter dentro do esporte, mas primeiramente eu quero estar dentro de campo”. Da pra ver que o que ele sente é uma paixão inexplicável. Isso faz toda a diferença. Faço perguntas mais complexas sobre negros e brancos no futebol, e ele mais uma vez me surpreende: “Eu acho que o número de negros cresceu muito no meio do futebol, está mais equilibrado do que antigamente. Mas, infelizmente, ainda existe muito racismo dentro de campo, o que é errado. A cor da pele não deveria ser motivo de comparação entre os seres humanos, não é isso que define a habilidade de um jogador”.

(foto: sjove)

Entro em um assunto delicado, e sobre o qual a maioria dos jovens não sabe dissertar muito bem, mas com ele é diferente. Inteligente e atento, não hesita quando eu o questiono sobre as mulheres dentro desse esporte, que é predominantemente masculino: “Essa diferença e desvalorização entre os sexos dentro do futebol existe, mas não é justa. As mulheres têm tanto potencial quanto os homens, então eu acho que tem que ter mais oportunidades pra elas, realizar mais testes e peneiras. Dar a visão que elas merecem”.

Emanuele

Eu me vi nela desde o início. Um dia eu fui aquela criança que desejava ser jogadora de futebol. Um dia eu sonhei em ser Marta ou Formiga. Um dia eu sonhei em representar a minha nação jogando futebol. Eu me vi nela desde o início.

(foto: mnjp)

Ela falava de futebol com um brilho nos olhos, com desejo de ouvir uma torcida gritando o seu nome, de ser reconhecida por fazer bem o que ama. Eu me perdi muitas vezes entre uma frase e outra porque lembrei de mim mesma. Lembrei de como no meu tempo era muito complicado um sonho desse. De como era difícil ter espaço em uma escola profissional de futebol. De como era complicado ser uma das únicas meninas no meio de tantos garotos.

Emanuele Frisolla me contou que hoje ainda é assim: “Eu jogava em duas escolas profissionais de futebol, e ninguém deixava eu jogar. Aqui é mais tranquilo, os meninos deixam eu me misturar e mostrar que eu sei jogar como eles. Ou muitas vezes, melhor do que eles”. Com muito orgulho, ela me conta que jogar futebol é o que mais gosta de fazer. Quando não está estudando, está jogando bola. Futebol é a sua vida. Ela não se importa com o caminho que vai precisar enfrentar, só tem uma certeza: quer ser jogadora de futebol.

Quando falou da família, mais uma vez me vi nela. O apoio dos pais é fundamental, principalmente quando a criança quer fazer do esporte a sua profissão. A autoconfiança só existe quando há alguém te falando para confiar em si mesmo. Nela, vi uma firmeza de quem sabe que tem talento para mostrar e faz bonito quando o assunto é futebol. Apenas 12 anos, mas com muita vontade de jogar. Vontade de vencer. Vontade de fazer o seu nome se tornar um exemplo para as próximas gerações. Vontade de provar para si mesma que o seu sonho pode sim, se tornar realidade.

Futebol

O que o esporte muda na vida das pessoas? O que o esporte muda na vida das crianças? Nada? Tudo. Muda a educação, muda a relação com o próximo, consigo mesmo. Muda – nem que seja por alguns segundos – a realidade em que ela se encontra. Esporte. Uma palavra simples, mas com um significado gigante. Ele muda tudo. Por dentro e por fora. Faz o ser humano se sentir vivo, se sentir dono de si.

Futebol. O esporte mais popular no Brasil. Mais de 200 milhões de corações batendo por um time, por um esporte. Uma nação tomada por uma mesma paixão. Um desporto que prende, que junta, que unifica todos os gêneros e gerações. Um sonho de milhões de crianças no Brasil. Milhões. Milhões. O que torna aquela criança diferente? O que a faz ser um futuro jogador profissional? A vontade de tornar o impossível possível. O desejo, a ambição de não ser apenas mais um. O tamanho da vontade de tornar a sua fantasia realidade. O seu sonho, veracidade. A sua existência, precisa. O seu nome, uma lenda.

(foto: Albari Rosa)

Infelizmente ainda falta. Falta apoio, falta infraestrutura, falta incentivo ao esporte, ao futebol. Falta muito para o país do penta ser considerado uma referência quando se trata de assuntos que vão além dos gramados. Antes da fama, do luxo, da riqueza, o atleta enfrenta muitos obstáculos.

Um estudo realizado na Bahia com o apoio do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), mostra que nem sempre os ambientes destinados à prática esportiva se constituem em espaços seguros, onde os direitos da infância e da adolescência são respeitados. Falta. Falta muito.

Henrique está certo. As mulheres precisam ganhar o destaque que elas realmente merecem. Mulheres são discriminadas dentro do futebol simplesmente por serem mulheres. Na verdade, simplesmente por não serem homens. O machismo está presente o tempo todo. Uma mulher é julgada e discriminada apenas por jogar futebol. Não é revoltante que em pleno século XXI elas tenham que lidar com esse tipo de cenário para perseguir seu sonho? Mas o mundo intolerante que são submetidas a encarar todos os dias, não as impediu de brilhar, de mostrar para o que vieram, de fazer história, de serem reconhecidas por todos.

Atualmente, podemos dizer que as mulheres ganharam um pouco mais de visibilidade nos gramados brasileiros. Marta virou a principal referência mundial da modalidade feminina. A Seleção Brasileira feminina de futebol foi duas vezes vice-campeã olímpica, e ficou com a prata na Copa do Mundo de futebol de 2007. O Brasil se mostrou satisfeito com o espetáculo que elas proporcionaram. As guerreiras foram aplaudidas de pé, porque provaram para o mundo que não é preciso ser homem para saber chutar uma bola e jogar um futebol de excelente qualidade.

O que o esporte muda na vida das pessoas? O que o esporte muda na vida das crianças? Nada? Tudo. Bruno, Henrique e Emanuelle apenas representam milhões de crianças do país que se igualam por ter um mesmo sonho. Mostram que ainda é possível – mesmo sendo de realidades completamente diferentes – acreditar em si e buscar um futuro melhor. Provam o quão extraordinário é sonhar, fantasiar, ser criança. E mesmo num mundo tão concorrido como o do futebol, acreditar que você pode ser diferente, que você pode se destacar entre os outros.

 

(foto: gabriel campos)

Talvez eles não consigam realizar o grande sonho de se tornarem jogadores profissionais. Talvez eles escolham ir para caminhos distintos, caminhos que ao longo da vida irão conhecer. Não importa. Eles tentaram. Durante um momento da vida, eles tiveram a certeza do que queriam e tentaram. Tentaram realizar um sonho. Só o fato de tentar, já faz de você um ser humano singular. Apenas tentar, faz de você, humano. O que o futebol muda na vida das crianças? O que as crianças mudam na vida do futebol? Nada? Tudo. Elas fazem o esporte renascer a cada ano. Elas lotam os estádios. Elas veneram os seus ídolos. Elas recriam o novo. Elas dão imortalidade a uma paixão. Elas fazem o futebol ser uma arte. Elas transformam tudo. Tudo.

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Laís Maio

3 COMENTÁRIO

  1. Excelente matéria, filha! E continua excelente, mesmo quando deixo minha “corujice” de lado!

    Gosto do seu estilo, da maneira como você repete palavras pra dar ênfase às ideias. A gente vai mergulhando pouco a pouco, e se sentindo parte na reportagem. E o leitor é capaz de ouvir sua voz – conhecendo-a ou não – enquanto se delicia com a mensagem.

    Parabéns, filha!
    Parabéns, Laís Maio! Você faz a diferença!
    Te amo!

  2. Que texto gostoso de ler. Redondinho como a bola! Parabéns!

  3. Parabéns, muito linda a história, faz parecer que conhecemos cada um que você menciona no texto, muito bom.
    Você é meu maior orgulho.

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