Precisamos falar sobre controle biológico

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Durante o 14º Congresso Brasileiro do Agronegócio, realizado em São Paulo (SP) pela Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG) nos últimos dias 3 e 4 de agosto, uma fala chamou a atenção: “é preciso pensar nas adversidades da natureza com as quais iremos de encontro ao produzirmos o mesmo cultivo em uma única área por muito tempo. Pragas se reproduzem com muito mais facilidade nessas condições”, afirmou Alexandre Mendonça de Barros, sócio-consultor da MB Agro.

O crescimento sustentável do setor agrícola foi o mote do evento. Entre vários focos, como produção de alimentos e a Integração Lavoura, Pecuária e Floresta (ILPF), o aumento da produtividade também foi tema de debate. Na ocasião, além do contraponto, Mendonça propôs uma solução durante o painel “Agronegócio Brasileiro, produção 365 dias” ante a questão da safrinha da soja. “A tecnologia biológica aplicada como defesa das pragas é uma estratégia espetacular. A biologia, aliada da ciência, pode controlar até a própria natureza”, explicou.

A tecnologia da qual Mendonça se referiu é o controle biológico. De acordo com Alexandre José Ferreira Diniz, pós-doutorando do Departamento de Entomologia e Acarologia da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (USP/ESALQ), a prática possui uma definição bem simples. “O controle biológico consiste na utilização de um organismo vivo para controlar, dentro da natureza, outro organismo vivo”, conta.

Alexandre Mendoança de Barros durante Congresso da ABAG

Tecnologia

Diniz desenvolveu, em 2013, uma técnica de produção em larga escala do inseto parasitoide Tamarixia radiata durante a realização de seu doutorado na ESALQ, quando buscava uma alternativa biológica para combater o psilídeo Diaphorina citri, causador do greening, uma das patologias mais temidas nas produções citrícolas. O pesquisador explica que toda praga possui um inimigo natural. “No caso do greening, o inimigo natural da Diaphorina citri é a Tamarixia radiata. Esse programa de manejo já existia, o problema era produzir inimigo natural em quantidade suficiente para combater essa praga com eficiência”, esclarece.

Alexandre Diniz

 

O estudo do pesquisador baseou-se na produção da praga in loco a partir das plantas de citros e murta, hospedeiras da D. citri. “Para termos um inimigo natural, precisamos criar a praga em um ambiente fora dos cultivares. Da mesma forma que a praga precisa da planta, o inimigo natural precisa da praga para sobreviver e se reproduzir. Após esse processo, obtivemos grande quantidade da T. radiata, que foi liberada nas propriedades que fizeram parte do estudo”, explica Diniz.

De acordo com o pesquisador, graças ao seu projeto, hoje existem seis biofábricas de T. radiata funcionando. “Uma é do Laboratório de Biologia de Insetos da ESALQ, outra da Fundecitrus. A Citrosuco possui quatro unidades de produção do inseto”, comenta.

Sobre os perigos de surtos ou aumento desequilibrado de insetos, a resposta é simples – apenas inimigos naturais seletivos são utilizados. “Qualquer espécie de inimigo natural liberado é previamente estudada para estabelecer seu grau de especificidade como predador ou parasitoide. Isso acarreta em um ambiente equilibrado. Só haverá inimigo natural enquanto existir a praga especifica, extinguindo a praga não há mais condições para o inimigo natural”, frisa.

Ainda sobre o controle do greening, Alexandre Diniz conta que o T. radiata é um parasitoide. “Parasitoides não se alimentam das pragas. Esse tipo de relação se dá a partir da necessidade de reprodução. No caso, a T. radiata insere seus ovos nas ninfas da D. citri. Só assim os ovos conseguem concluir seu desenvolvimento, dentro do corpo da ninfa, o que leva a praga à morte”.

Por se tratar de uma necessidade tão específica, os inimigos naturais parasitoides possibilitam os programas de manejo de pragas mais eficientes. “Alguns parasitam a oteca, a lagarta, o casulo ou os ovos de pragas, por exemplo. Sendo assim, esses insetos não oferecem riscos para a produção ou meio ambiente”, completa.

“Esse é o momento”

Autoridade brasileira no assunto, José Roberto Postali Parra, docente da ESALQ, aponta que “esse é o momento do controle biológico”. “Os agricultores têm dado cada vez mais atenção para esse método alternativo de controle de pragas. Contrapondo a tradição de utilização de inseticidas no Brasil, é necessário aumentar a acessibilidade aos produtos biológicos, divulgando mais o conceito e aplicando a tecnologia corretamente”, explica.

José Roberto Postali Parra

O docente aponta que o controle biológico não deve ser pensado isoladamente. “Este método deve estar inserido no sistema de Manejo Integrado de Pragas (MIP), que leva em conta critérios econômicos, sociais e ambientais”, enfatiza. Além disso, o docente esclarece que o controle biológico deve agir como mais uma ferramenta para o produtor. “No entanto, a redução do uso de agroquímicos é uma necessidade para a obtenção dos resultados desejados”, ressalta.

José Otávio Machado Menten, docente da ESALQ e especialista em defesa fitossanitária, explica que “precisamos entender o risco que o agronegócio está assumindo ao realizar a safrinha da soja.”. O especialista acredita que o vazio sanitário é uma alternativa. “Inserida no MIP, essa prática auxilia muito o controle biológico”, pontua.

Parra conta que a técnica consiste no planejamento do produtor para não plantar nada por um período de tempo. “Sem as plantas hospedeiras, ocorre à redução das pragas a um nível que podem ser controladas, não mais afetando a produção”.

O mercado

Antonio Carlos Zem, presidente da FMC América Latina, afirma que as grandes empresas estão se voltando para as tecnologias biológicas. “Temos a transgenia e o controle químico, mas sabemos que ambas as técnicas não são infalíveis. Está chegando o momento em que devemos agregar o controle biológico”, ressalta.

Zem aponta que o número de aplicações de agroquímicos está aumentando junto com o custo para o produtor. “O controle biológico sempre esteve disponível, o que nos faltava era tecnologia para oferecer um produto estável, para suportar o armazenamento e o transporte até chegar ao campo”, explica.

Sobre o custo-benefício da tecnologia, João Henrique Mantelatto Rosa, pesquisador do Programa de Educação Continuada em Economia e Gestão de Empresas (PECEGE-USP/ESALQ), cita um programa aplicado na cana-de-açúcar. “Com quatro copos de Cotesia flavipes por ha, a um custo de R$4,50 cada, o produtor controla a broca da cana. Para aplicar o controle químico contra a mesma praga, o produtor desembolsa até R$30,00 por ha apenas com a aplicação, sem somar o custo do produto”, esclarece.

João Alberto Oliveira Junior, gerente técnico de manejo integrado de pragas da Monsanto Brasil, revela que a multinacional americana fez a aquisição da empresa Novozymes, que atua com controle biológico. “A Monsanto tem grande anseio por atender as demandas do mercado, principalmente quando falamos em tecnologias sustentáveis”, conta.

Em contrapartida, sobre a safrinha da soja, Oliveira apresenta alguns gargalos que o controle biológico deverá enfrentar para protagonizar o manejo das pragas específicas do cultivo. “Essa commoditie é produzida em áreas muito extensas. A logística para que a quantidade adequada de um produto biológico – seja fungo ou inseto – chegue ao destino ainda é muito incipiente”, lembra o gerente técnico.

Em vista disso, Gustavo Hermann, diretor comercial da Koppert Biological Systems, empresa multinacional sediada em Piracicaba (SP), aponta que o desafio agora é a extensão territorial do Brasil. “Estamos nos preparando para que nossos produtos cheguem às áreas mais distantes. Antes, o desafio era explicar a técnica para os produtores, agora, é fazer chegar até eles. Por enquanto, temos atendido todas as demandas e vamos buscar melhorar todos os processos constantemente”, afirma.

Ainda de acordo com Hermann, qualquer esforço para levar a tecnologia para o campo é válido porque “o controle biológico em sistemas de manejo de pragas e doenças pode reduzir em 30% a 100% as aplicações de defensivos tradicionais, dependendo do nível de infestação e histórico da área. Defensivos biológicos preservam inimigos naturais, que trabalharão de graça para o produtor no controle das pragas”, completa.

Otimista, José Roberto Postali Parra revê o histórico das iniciativas para combate de pragas no país e afirma que o controle biológico se tornará cada vez mais viável em grandes e pequenas áreas. “Em 2014, o programa de controle biológico com Trichogramma na cana-de-açúcar, que foi criado na ESALQ, completou 30 anos, e em 2013, 500 mil ha de canaviais foram tratados com o inseto. Na safra da soja 2013-2014, obtivemos sucesso nos programas contra as pragas Helicoverpa armigera e Chrysodeixis includens aplicando o Trichogramma pretiosum em 250 mil ha do cultivo”, conclui o docente.

“Ração” de percevejo

Em 2011, ainda dentro dos laboratórios da ESALQ, um estudo trouxe importante estimulo para o uso de controle biológico nas produções de soja. Agustín Cerna Mendoza, pesquisador peruano que, na época, era doutorando orientado pelo professor Parra, concluiu uma linha de estudos que resultou em uma dieta artificial liofilizada para criação in loco do percevejo-marrom, Euschistus heros, um dos percevejos-da-soja, pragas que mais afetam a cultura no Brasil.

Percevejo-da-soja se alimentando da dieta artificial

Diniz recorda que esse é um grande feito. “Por meio dessa dieta, que se parece muito com uma ração, podemos reproduzir grande número da praga sem a necessidade da planta. A partir disso, é possível reproduzir também os inimigos naturais do percevejo, os parasitoides Telenomus podisi e Trissolcus basalis”, explica.

Mendonza conta que “após a criação da dieta e a multiplicação dos inimigos naturais em grande escala, os insetos foram liberados no campo”. Ainda de acordo com o pesquisador, o programa, que já existia, esbarrava em um obstáculo. “A produção em massa era impensável por conta da planta hospedeira. Esse processo resultou em uma alternativa biológica para a redução dos impactos de um problema muito sério para os 24 milhões de ha de soja plantados no país”, ressalta.

Hoje, a “ração do percevejo-da-soja”, que é constituída de base de vagem de feijão liofilizada, amendoim, sacarose, agentes anticontaminantes e água, com 25,7% de proteína, está mantida em segredo industrial. “O produtor ainda não pode acessar essa tecnologia por conta da outra etapa do estudo – o desenvolvimento da dieta para comercialização. Mas só de sabermos que há mais um programa de defesa biológico viável para a soja em larga escala, podemos esperar grandes avanços para essa commoditie em um futuro muito próximo”, encerra Alexandre Diniz.

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lucasjacinto

Estudante de jornalismo, aprendiz de mídia livre.

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