‘Querido diário, hoje eu tive medo’

Enquanto você chega em casa, estaciona o carro na garagem e abre a porta da sala, uma pessoa é estuprada. Enquanto você entra em casa, deixa as chaves do carro na cozinha, abre a geladeira e pega uma garrafa de água, outra pessoa é estuprada. Enquanto você senta no sofá, liga a televisão e passa por alguns canais até achar algo que te agrade, mais uma pessoa é estuprada. No Brasil, uma pessoa é estuprada a cada 11 minutos, conforme divulgado pelo 9º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. O estupro e o feminicídio são as pontas extremas da violência embasada pelo machismo, mas não são casos isolados. O assédio sexual, seja ele verbal ou físico, assola cerca de 77% da população feminina no país, de acordo com informações da ONG ÉNois Inteligência Jovem, em parceria com Instituto Vladimir Herzog e o Instituto Patrícia Galvão.

Por mais assustadores que os números pareçam, estima-se que apenas 10% dos casos são notificados pelas mulheres. Seja pela vergonha em ter sido agredida ou pelo medo em incentivar mais agressões, 90% das mulheres que sofrem violência sexual não procuram as autoridades. Isso significa que enquanto você chega em casa, estaciona o carro e abre a porta, muito mais que uma pessoa é estuprada.

No Brasil, uma denúncia de assédio sexual contra a mulher é registrada a cada sete minutos; estima-se que apenas 10% das vítimas denunciem.

 

Medo

O medo é um sentimento espontâneo e saudável. É quando seu instinto de defesa entra em ação diante de situações que apresentam perigo. Entrar na jaula de um leão, por exemplo, pode causar medo. Assim como nadar com tubarões, ou assistir a um filme de terror, ou ter uma doença terminal, ou ver alguém que você ama morrer. Porém, há um medo em comum que aponta uma ameaça real e diária para as mulheres: o medo da violência sexual e da repressão de sua liberdade. A ideia de hierarquização entre gêneros causada pela sociedade patriarcal faz com que mulheres como a Sofia Beatriz Martines, 19, restrinjam suas vidas e se privem de fazer simples ações do cotidiano, como andar de moto-táxi. “Já tentaram mudar a rota da viagem e eu tenho muito medo de andar de moto, então costumo segurar no motorista. Sempre recebo olhares estranhos. Não ando mais de moto-táxi”, desabafou a estudante. Para as mulheres, os assédios podem vir de formas variadas, como um assovio, uma cantada grosseira, um beijo forçado ou uma “mão boba”.

Sofia ainda retratou uma violência psicológica sofrida pelas mulheres e destacou que sente medo até em dar a própria opinião, porque ela vê a fala da mulher deslegitimada perante a voz masculina. “Se um homem reafirma o que você acabou de falar com outras palavras, ele tem mais mérito que você”, afirmou. No Brasil, o feminismo acatou ao termo americano bropriating para caracterizar essa situação. Assim, o que pode ser normal para homens (héteros, cisgêneros e normativos), como andar na rua, pedir um táxi ou dar sua opinião, se torna uma situação constrangedora e, principalmente, perigosa para as mulheres.

Uma das principais causas desse medo diário é a represália que a mulher sofre a respeito da roupa que ela veste. “No calor de 35ºC, você já sai preparada de casa com shorts sabendo que você vai sofrer algum tipo de assédio e isso faz com que você fique limitada: ‘será que devo mesmo ir shorts ou devo colocar uma calça para não ter que passar por esse tipo de situação?’”, comentou a estudante de Direito, Sara Lima.

A jornalista Camila Duarte contou que seu contato com o feminismo é recente, mas que já avalia seus conceitos no dia a dia e tenta aplicar as ideias feministas sempre que nota uma atitude equivocada de sua parte ou dos outros. “A união feminina é uma das formais mais fortes de dizer ‘não’ a essa opressão. As mulheres se sentirem seguras com outras mulheres é um passo muito grande para a gente acabar com essa cultura do medo”, destacou.

Ainda de acordo com a jornalista, a diferença entre o medo que a mulher e o homem sentem é grande. “Vamos dizer que um homem tenha medo de sair à noite porque ele pode ser assaltado, perder a carteira e o celular. Além do susto e do medo, o maior transtorno que isso causará ao homem é ter que tirar todos os documentos de novo e comprar um celular. Mas tem muitas mulheres que em virtude da violência sexual nunca mais conseguem ter uma relação saudável, ou confiar nos homens ou ter uma vida sexual ativa. Muitas vítimas se sentem sujas e passam a tomar os banhos mais demorados e longos. Eu não sei se algum teórico disse isso, mas a sexualidade é a coisa que mais nos pertence e é a coisa que mais nos é tirada”, argumentou Camila.

“Eu estava no carro com minha amiga em uma rua, que não era deserta, a gente estava esperando para pegar uma coisa em uma casa e veio um cara andando na nossa direção. Eu disse para minha amiga ‘não gosto da gente sozinha aqui’. O cara foi se aproximando e eu não quis olhar, fiquei vendo pela visão periférica. Na hora que ele parou na janela, ele virou, como se tivesse mudado de ideia, e na hora que ele virou e eu olhei para ele foi como se eu pudesse sentir o meu medo, sabe? Foi muito palpável, parece uma coisa que vem do coração e descarrega em você, as pernas tremem e você não sabe o que fazer. Eu só conseguia pensar em ligar o carro e sair dali, mas por fim não era nada demais, ele só estava pedindo dinheiro. Mas o medo está ali. ” Esse é o depoimento da estudante de Cinema e Audiovisual, Júlia Pacheco. Ela confessou que não se sente totalmente segura na companhia de homens que não sejam seus amigos homossexuais. “Eu tenho amigos homens, mas, sendo bem sincera, é muito difícil eu ficar sozinha com eles se eles não forem gays. Não que isso muda alguma coisa… ah! Mas muda, né? (sic) Porque a fonte de prazer deles é diferente”, esclareceu a estudante.

 

(Fotos: Felipe Caires e Tainá Marchi)

 

Consequências

O assédio sexual é crime de acordo com a Lei 10.224/2001 e pode resultar entre um e dois anos de prisão. Mas a punição para o criminoso não é a única consequência do assédio: as mulheres sofrem traumas psicológicos que podem afetá-las de diversas maneiras. Segundo o relato da psicóloga Fabiana Piacentina, que trabalha na Casa Dia – Piracicaba e possui consultório particular, o assédio sexual pode encadear uma série de ameaças à sanidade mental da vítima. “Quando algo te constrange e ainda se torna rotina, não tem como não afetar o dia a dia. Isso pode alterar os quadros de ansiedade, nervosismo (estresse), depressão e até mesmo transtorno de pânico. Uma situação problemática ou não resolvida pode sim levar a doenças ou transtornos afetivos (psicossomáticas) ”, esclareceu a profissional.

Além dessas complicações, a vítima de assédio sexual também pode se sentir culpada pelo ocorrido, ou ainda ter sua autoestima abalada. “Tenho para mim que ficamos com raiva quando isso ocorre, às vezes minimizamos o problema e até mesmo o tratamos como se não existisse. Isso porque nos sentimos invadidas”, declarou a psicóloga.

 


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O homem

O sociólogo e professor universitário Gessé Marques Jr. defende que o assédio sexual tem base numa cultura machista histórica. “Quanto mais avançado e desenvolvido o país, mais próximas dos homens as mulheres estão, há menos desigualdade, mas ela ainda existe”, destacou. O termo reforçado pelo sociólogo é o de “dominação masculina”. Segundo ele, estamos inseridos em um mundo em que essa dominação é real e faz com que o homem se enxergue em uma posição superior à mulher, sentindo-se no direito de agir sobre a vida dela.

Marques Jr. ponderou que o incentivo para os homens assediarem é a sensação de potência – superioridade. As cantadas deixam de ter um teor natural e passivo, como o “você é bonita”, e partem para uma vertente mais sedutora, com elogios sexualizados. “Os homens fazem isso de um modo geral porque eles se sentem na posição de poder fazer isso, ou seja, se sentem legitimados”, apontou.

Entretanto, o professor universitário explicou que nem todos os homens apresentam este comportamento, graças à chamada “desconstrução” – palavra usada por coletivos de minorias para se referir à ação de ‘desconstruir’ os preconceitos de alguém. “A desigualdade vem diminuindo graças ao feminismo, à luta das mulheres e à conscientização maior tanto das mulheres, quanto dos homens. Nem todos os homens são truculentos ou violentos, mas isso não quer dizer que eles não estejam em uma posição de dominação”, avaliou.

O jornalista e escritor uruguaio, Eduardo Galeano, definiu o machismo como “o medo dos homens das mulheres sem medo”. Em sua entrevista para a revista Brasileiros, em 2011, ele caracteriza a violência contra a mulher como a ilusória ideia masculina de ter propriedade sobre alguém. “E quando acontecem esses casos, que às vezes se registram nas crônicas policiais e às vezes não, o macho dominante, o criminoso, se explica dizendo: ‘Matei porque era minha’. Como se fosse realmente parte de seu direito de propriedade o de aniquilar a mulher que a sorte (vida) lhe deu. Nenhum macho ou supermacho que seja, nem o mais valente de todos, se anima em dizer que a verdade não é essa. Nada a ver com: ‘Matei porque era minha’. Na verdade, deveria confessar: ‘Matei-a por medo’. Porque a violência do homem é o espelho do medo do homem de uma mulher sem medo”, declarou o jornalista.

 

Sororidade

Sororidade é o termo para o laço que une todas as mulheres por companheirismo e empatia, fortemente ligado ao feminismo e à luta contra o patriarcado. Sara também é integrante do Coletivo Feminista Rosa Lilás da cidade de Limeira. Ela nos reforçou que, além de uma educação para homens e um empoderamento para mulheres, outro ponto importante para o combate ao machismo e ao assédio sexual é a sororidade. “Temos que parar de olhar para outra mulher e julgá-la. Precisamos mostrar para as mulheres que elas são irmãs. O mesmo medo que eu sinto usando shorts, eu tenho certeza que uma mulher que usa saia até o pé sente também, porque em algum momento ela já sofreu um assédio”, justificou.

Para Camila, a sororidade é o ponto central do feminismo. “A gente precisa espalhar para todas as mulheres entenderem essa necessidade de aliança entre nós. Eu vejo muitas meninas falando que não tem nada melhor do que quando você está andando na rua sozinha, ouve um barulho de passos e fica com medo, mas olha para trás e vê que é outra mulher. Só o fato de você saber que tem outra mulher ali já te deixa mais tranquila”, ressaltou.

Camila Duarte, integrantes da Frente Feminista da Unimep e alunas da equipe de jornalismo participaram de um debate sobre o papel do feminismo na sociedade feito pela produção dessa reportagem. A discussão de aproximadamente uma hora foi dividida em capítulos.

 

Equipe: Felipe Caires, Julia Hortenci, Nathalia Salvador e Tainá Marchi.

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