Representatividade Negra: o Sou Repórter conversou com dois jovens que contam mais sobre o assunto

“Eu demorei para me descobrir negra”. A estudante de jornalismo, Júlia Heloísa da Silva, 20 anos é filha de pai descendente de índios e mãe branca. Ela conta que tem fotos dela durante a infância com uma fralda na cabeça porque não gostava do cabelo, que gostaria que fosse igual ao cabelo das primas – liso. “Eu sempre gostei muito de Barbie, de Polly [Pocket], e a minha avó, por parte de mãe, é loira, e eu sempre chorava porque queria ser como a família da minha mãe”. 

As bonecas Barbie sofreram diversas modificações ao longo das décadas. A primeira boneca Barbie negra foi lançada na década de 80, porém, ainda hoje existe certa dificuldade em encontrá-las nas estantes das lojas ou que representem a realidade. Segundo Júlia, as bonecas de hoje em dia melhoraram muito, mas ainda não é o suficiente. Ela ainda completa que as bonecas são fabricadas com traços finos o que não causa representatividade. 

Segundo pesquisa realizada pelo IBGE nesse ano, em sete anos cresceu 32% o número de pessoas que se declaram preta no país. Apesar desse crescimento, a estudante diz que não existe representatividade suficiente na mídia brasileira. “Esses poucos que existem nos ajudam muito, mas ainda não é suficiente”. De acordo com ela, a internet ajudou a propagar a luta pelos negros, mas mesmo assim falta muita coisa para acontecer. “Se não fosse a internet, eu estaria alisando o cabelo até agora”. 

“Antes de começar a alisar o cabelo, eu odiava o meu cabelo, o meu tom de pele”.

Ela realizou a transição capilar há dois anos, devido ao incentivo de várias pessoas para ela aceitar os fios naturais e, apesar do medo em cortar o cabelo, ela garante: “Não me arrependo”. Júlia ainda conta que antigamente precisava manter ele sempre preso, porque não era bonito ter cabelo volumoso e por ainda não ser fabricado nenhum produto eficiente para controlar o volume dos cabelos afros. Hoje a história muda, cabelos volumosos recebem mais atenção da mídia e o número de produtos cresce em disparada comparado a outros. Nesse cenário, até mesmo a pesquisa no Google sofreu mudanças. Entre 2016 e 2018, a busca por “cabelo afro” na plataforma cresceu 309%. 

Júlia Heloisa, estudante de jornalismo. Foto: Carolina Piazentin

Candidata do Miss Piracicaba 2019, ela foi uma das oito finalistas negras do total de 20 participantes. Um caso diferente na história do programa, segundo ela. Na cidade de Piracicaba, nunca teve uma miss negra. Ela ainda desabafa sobre os concursos de beleza. “Nos concursos ainda existe essa limitação, esse preconceito e a gente aos poucos vai conseguindo nosso lugar”. 

Já para o estudante de jornalismo, Leonardo Benedito, 22 anos, as referências, tanto na televisão nacional quanto internacional, eram poucas. Mesmo sendo um ativo telespectador, ele diz que era um número muito limitado de pessoas influentes negras que ele assistia: “Podia contar nos dedos”. Ele cita três, como exemplo: Glória Maria no jornalismo, Taís Araújo na televisão e Beyoncé na música. 

Em relação a fabricação de brinquedos que retratam as pessoas negras, assim como brancas, Leonardo entende como uma atitude positiva das empresas responsáveis. “É uma forma de mostrar que esse tipo de pessoa existe (…) tanto para a criança negra saber se reconhecer, tanto para a criança branca saber que aquilo é bonito, para normalizar aquilo na vida dela”, afirma Leonardo. 

Leonardo Benedito, estudante de jornalismo. Foto: Carolina Piazentin

Para ele, sempre existiu representatividade negra na mídia brasileira, porém, não cresceu tanto nos últimos anos comparado às pessoas brancas em destaque na mídia. Segundo o estudante, enquanto os negros na mídia vão somando, os brancos vão se multiplicando. 

Questionado sobre o que as crianças negras consomem atualmente, Leonardo diz que os pais são os principais agentes nesse momento para fazer com que a criança se reconheça. De acordo com ele, atualmente existem mais brinquedos e mais personalidades na mídia que são negros ou não-brancos, dependendo da etnia, porém, isso ainda não é efetivo. 

Sobre ser negro e jornalista, ele acredita que é muita responsabilidade. Esse jornalista traz o seu empoderamento e engajamento para apresentar mais pautas para essa parte da população, dando mais visibilidade. “A comunicação sempre foi muito elitizada, então eu acredito que estamos tendo uma oportunidade, um dever de estar levando essas informações para pessoas que são como nós, (…) estamos construindo uma ponte dentro do jornalismo enquanto negros”, finaliza o estudante. 

Texto: Carolina Piazentin e Laís Maio

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