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‘Serenesta’

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“A serenata era numa luxuosa mansão. Os trovadores entraram cantando e se posicionaram frente a um senhor, muito simpático, que sorria o tempo todo. Terminada a apresentação, leram o nome do homenageado, Bob, e foram cumprimentá-lo. Imediatamente ele retrucou: “Bob não sou eu, é ele!”, apontando a um cachorrinho. A serenata tinha sido contratada para um pequinês”. Chega a ser hilária uma história assim, concorda? Mas aconteceu! E está publicada como uma das muitas situações inesperadas a que o grupo musical paulista “Trovadores Urbanos” testemunhou.

“Acredito que a serenata é um momento de celebração à vida, ao afeto, amizade e família. A delicadeza de um momento tão visceral, simples e pé no chão se faz necessário em um tempo no qual as pessoas estão conectadas ao mundo virtual e precisam se encontrar consigo mesmas. Nesse sentido, a serenata transforma as pessoas”, sintetiza Maísa Novaes, cantora e fundadora dos ‘Trovadores Urbanos”.

É interessante perceber, em pleno século 21, como a serenata foi repaginada, já que ela, em sua origem, é “o hábito de cantar à noite pelas ruas, geralmente com o propósito de fazer-se ouvir por amadas inacessíveis”, de acordo com o historiador José Ramos Tinhorão. Mais fiel à antiga tradição é o que se pode ver até hoje na “Cidade da Seresta”, em Conservatória, distrito de Valença, no estado do Rio de Janeiro. Ali, os costumes se perpetuam desde a segunda metade do século 19 e, semanalmente, uma serenata coletiva, atrai visitantes brasileiros e estrangeiros.

“A serenata sai todas as sextas e sábados às 23 h da frente do antigo Museu da Seresta e circula pelas ruas do Centro. Nesses mesmos dias, na Casa da Cultura, bem próximo, o pessoal se reúne em seresta a partir das 20h30”, conta o músico local, Zé Maria Ferr, 67, profissional há quase três décadas. Ferr cita com orgulho, o que os moradores de Conservatória fazem pela divulgação e preservação da seresta, considerada Patrimônio Cultural Imaterial do lugarejo.

“Atualmente tem duas mulheres que dão aulas gratuitas de seresta em violão para crianças em praça pública. Também há museus e acervos particulares, como o da “Seresta e Serenata”, com um dos maiores acervos de seresta do mundo, idealizado pelos irmãos José Borges e Joubert de Freitas. Eles que impulsionaram a seresta em Conservatória”. O artista sinaliza o que acredita ser o verdadeiro espírito desse tipo de música: “ninguém recebe nada nas serenatas aqui. Fazem pelo puro gosto de cantar e tocar”, conta.

Derivada da serenata, a seresta é definida pelo pesquisador, compositor e radialista Paulo Tapajós, como “uma mistura do sarau com a serenata”. O encontro democrático dos seresteiros, em rodas com violão e outros instrumentos, permite que todos se revezem na cantoria. Acontecem geralmente nas casas de um dos seresteiros ou também em bares, clubes e locais públicos, como em Rio Claro, interior paulista.

Na cidade, terra de Dalva de Oliveira, os encontros são organizados pelo Grêmio Seresteiros Rio-Clarenses, há mais de 20 anos. “Todos os domingos, das 11h às 13h, temos cerca de 500 a 600 pessoas que vêm cantar conosco na praça. É um grande encontro familiar, com a presença marcante também dos jovens, que gostam muito desse tipo de música”, conta Valdir Duarte, um dos fundadores e presidente do Grêmio. Valdir ressalta a importância do apoio municipal à seresta local. “A Prefeitura sempre nos ajudou. Nós recebemos incentivos por meio de emendas e doações particulares, e assim conseguimos nos manter. Nosso próximo passo é a construção da sede que deve começar em junho. É a realização de todo um trabalho de duas décadas”, finaliza.

Distante 30 quilômetros dali, em Piracicaba, terra da música caipira e celeiro de grandes músicos e compositores, como Belmácio Pousa Godinho, Cobrinha, Nhô-Serra, Ernest Mahle, Craveiro e Cravinho, Cezar e Paulinho, entre tantos, mais um artista trabalha para marcar seu nome na música brasileira, levando a seresta emprestada até no nome artístico: Roberto Seresteiro.

O piracicabano, 31, criou gosto pela seresta por incentivo do avô e, há 8 anos na capital paulista, é considerado um dos expoentes da nova geração. “Desde a minha adolescência nunca me vi fazendo outra coisa senão ouvir e cantar seresta. Vivo isso o tempo inteiro”, entrega o jornalista Roberto Saglietti Mahn, que também leciona história da música brasileira em cursos universitários para a melhor idade.

Na capital carioca, Leonardo da Camara Thurler, 20, mecânico, se encantou também pelos tons melodiosos, românticos e nostálgicos da seresta: “meu pai me educou desde pequeno ao som de Nelson Gonçalves e Ângela Maria. Fui crescendo e tomando cada vez mais gosto por essa música de estilo e estética incomparáveis. Quero um dia poder viver da seresta”, fala o jovem com propriedade.

Perguntado sobre como divulga a seresta, Thurler conta que mantém um canal no Youtube (Thurler7cordas) há cinco anos, com mais de cem vídeos e 1 milhão de visualizações. “Eu, com poucos recursos, fazia de qualquer jeito mesmo. O importante é espalhar a música e que ela toque com qualquer foto de fundo”, revela Leonardo, que ainda comenta sobre a indústria fonográfica: “Ao contrário da seresta que passa paixão, as músicas de hoje são descartáveis. Eu penso na indústria fonográfica como um bichão voraz, porém sem culpa, pois é apenas uma marca do nosso espírito de época”, resume.

Pensando no que a sociedade pode fazer pela preservação da seresta e cultura musical brasileira, os músicos, seresteiros e arte-educadores Rui Kleiner, 36, e Guilherme Girardi Soares, 31, são unânimes em afirmar que as crianças deveriam ser apresentadas à cultura musical brasileira na rede pública de ensino. “Teve uma geração que foi prejudicada quando se tirou o ensino da música das escolas públicas. Aí as crianças ficam sem referências, sem identidade”, afirma Rui. O ribeirão-pretano, Guilherme, segue a mesma linha de pensamento. “Você sai perguntando nas ruas o que é isso, o que é aquilo na música e ninguém sabe. Sentem uma enorme dificuldade em identificar algo com o mínimo de qualidade. Se a pessoa não vai atrás por conta própria ou não tem família que incentive à música, ela passa a vida inteira sem saber nada de coisa nenhuma e fica sem os benefícios de uma boa música”.

 

 

 

www.recantodasletras.com.br/teorialiteraria/1851407 – canto orfeônico no brasil – música-educação – Maestro Lozano, Piracicaba-SP

www.dicionariompb.com.br – dicionário de MPB do Instituto Cultural Cravo Albin

http://www.academia.edu/9682298/Serenatas_de_Conservatoria_-_Magno_Marluce – Livro Serenatas de Conservatória de Marluce Magno.

www.conservatoria.com.br – Portal sobre cultural, gastronomia, turismo em Conservatória, “cidade da seresta”, distrito do município de Valença-RJ.

www.youtube.com/thurler7cordas – Canal do Youtube do seresteiro Leonardo Thurler. Mais de 100 vídeos (slides de fotos) com músicas dos mais renomados cantores de seresta, tango, choro, samba-canção etc.

www.youtube.com/senhordavoz – Canal do Youtube com quase 50.000 inscritos e mais de 50 milhões de visualizações. Muitos vídeos sobre choro, valsa, seresta, tango, além de documentários, entrevistas e muito mais.

www.musicosdobrasil.com.br – uma enciclopédia que conta com centenas de verbetes sobre nossos instrumentistas, além de ensaios – escritos por especialistas especialmente convidados pelo projeto – e dissertações universitárias sobre grupos musicais, instrumentos, estilos e discos significativos, complementados por 11 painéis sobre o contexto cultural, social e econômico de cada uma das décadas do século XX. Referências cruzadas, através de links, permitem o aprofundamento da pesquisa sempre que o leitor desejar.

www.memoriamusical.com.br – Site do IMMUB (Instituto Memória Musical Brasileira) é uma organização não governamental sem fins lucrativos sediada em Niterói – RJ que é voltada para a pesquisa, preservação e promoção da Música Popular Brasileira.

www.sovacodecobra.uol.com.br – Blog destinado à música brasileira. Produz conteúdo informativo e crítico sobre música brasileira, estimulando a sua discussão na Internet.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

Academia.edu. Serenatas de Conservatória. Disponível em: <www.academia.edu/9682298/Serenatas_de_Conservatoria_-_Magno_Marluce> – acesso em 25 de abril de 2015.

Conservatória.com.br. Definição de Seresta . Informação disponível em: <http://www.conservatoria.com.br/?item=ILPEaX6s> – acesso em 25 de abril de 2015.

DicionárioMPB. Release Roberto Seresteiro. Disponível em: <www.dicionariompb.com.br/roberto-seresteiro> – acesso em 24 de abril de 2015.

Mundo da Voz. Gil Vicente. Informação dispovível em <http://seresta.mundodavoz.com.br/wp/historia/> – acesso em 25 de abril de 2015.

TINHORÃO, José Ramos. Música popular – Os sons que vêm da rua. São Paulo: Edições Tinhorão, 1976. p.9

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Renan Bosquilia

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