Unimep destaca a representatividade negra durante o semestre

Texto: Fernanda Rizzi e Lauren Milaré

Durante o segundo semestre de 2019, o curso de jornalismo da Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba), trouxe para seus alunos a proposta de trabalhar, em várias disciplinas, com pautas a respeito da “comunidade negra”. De maneiras diversas, professores solicitaram aos alunos que desenvolvessem notícias e coberturas de eventos que tivessem os negros, sua cultura e história como foco principal. 

Durante o segundo semestre de 2019, o curso de jornalismo da Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba), trouxe para seus alunos a proposta de trabalhar, em várias disciplinas, com pautas a respeito da “comunidade negra”. De maneiras diversas, professores solicitaram aos alunos que desenvolvessem notícias e coberturas de eventos que tivessem os negros, sua cultura e história como foco principal. 

Segundo o coordenador do curso, Paulo Roberto Botão, a decisão foi tomada no encontro de planejamento do semestre, quando os professores da turma acharam importante que existisse um tema que unificasse a produção e as reflexões para parte dos alunos das diferentes turmas. “As propostas foram apresentadas às turmas, que aceitaram e apresentaram um volume de produções acima até da nossa expectativa”, disse. 

Os alunos produziram notícias, reportagens investigativas e coberturas ao vivo durante a semana da consciência negra.

Para Botão, a escolha deste tema tem a ver com a sua relevância na atualidade no Brasil e também por haver uma data, no mês de novembro, o Dia da Consciência Negra, que já ajuda a potencializar o debate.

O coordenador disse que esse o projeto é importante porque contribui na formação dos estudantes, que passaram a ter contato com um conteúdo importante sobre consciência negra, racismo, preconceito e a necessidade de atuar para formar leitores mais conscientes em relação a estas situações que existem no país.

Foto: Adelle Gebara

Dentro do projeto foi criada a Agência Baobá Comunicação, pelos alunos do 4º semestre, na disciplina Assessoria de Imprensa. Mas, no contexto mais amplo o Projeto Consciência Negra 2019, envolveu estudantes de todos os semestres do curso, em disciplinas como Comunicação e Cidadania, Jornalismo Investigativo, Comunicação Audiovisual, Crítica de Mídia, entre outras. O projeto também contou com a colaboração de professores e alunos de outros cursos, como os de Publicidade e Propaganda, Design Gráfico e Cinema e Audiovisual.

As alunas Fernanda Rizzi e Lauren Milaré escolheram como tema de sua matéria o Quilombo do Corumbataí. Ao levantarem informações sobre o Quilombo, descobriram muitas histórias sobre as quais nem tinham conhecimento. O local, que hoje se transformou em “Parque Histórico do Quilombo do Corumbataí” e é ponto de lazer para moradores do distrito de Santa Teresinha, foi e ainda é um marco na história dos negros na região. Mas, mesmo assim, ao escreverem essa matéria, as alunas perceberam que quase ninguém de lá sabe da importância histórica que esse espaço tem. 

Adelle Gebara trouxe como pauta o cinema brasileiro e a representatividade negra. Ou melhor, a falta dela. A matéria informa que de 142 filmes produzidos no Brasil, os negros representam apenas 13,3% do elenco, segundo a pesquisa Diversidade de gênero e raça nos lançamentos brasileiros de 2016, divulgada pela Ancine (Agência Nacional do Cinema). 

Laís Maio e Carolina Piazentin também trazem a representatividade como tema, mas, dessa vez, sob a perspectiva de alunos negros da universidade. Os estudantes entrevistados apontaram a pouca representatividade na mídia brasileira e internacional, o quanto a internet ajudou a propagar a luta pelos negros e, que, mesmo assim falta muita coisa para acontecer. 

Na mesma linha, as alunas Bianca Martim e Letícia Azevedo escolheram falar sobre beleza, empreendedorismo e a educação negra — pilares que movem o grupo Beleza Preta, criado em maio de 2018.  No primeiro final de semana de novembro, o grupo comemorou o 16º aniversário da Casa do Hip Hop de Piracicaba, local onde tudo começou. O Coletivo busca sair da superficialidade ao debater a moda e tem como objetivo promover a troca de experiências entre mulheres negras. 

Foto: divulgação

O que no início partiu de um princípio estético, hoje também é voltado para conhecimento e identidade. O Coletivo é formado por cerca de 15 mulheres negras que carregam histórias únicas, mas com muita coisa em comum. São realizados desfiles temáticos, palestras em escolas, rodas de conversa e eventos educacionais. Todos os eventos  são abertos ao público. 

A aluna negra Jeniffer Oleca, do 4º semestre, considerou o projeto impactante, de choque de cultural e essencial para conhecer histórias envolvidas. “Me senti representada em partes, porque mesmo que a gente faça todo esse trabalho social, não vamos acabar com o preconceito. É algo que leva tempo”, conta ela. 

Jornalismo Investigativo

Para a disciplina de jornalismo investigativo, o professor Wanderley Garcia solicitou aos seus alunos dos 4º e 6º semestres elaborassem matérias investigativas que trouxessem, como personagens principais, pessoas negras. Vários foram os temas desenvolvidos entre os alunos, mas Juliana Fuzato, juntamente com seu grupo decidiu trabalhar com uma pesquisa sobre escolas municipais onde há estudantes negros do primeiro ao quinto ano, em Piracicaba.

A aluna conta que precisou entrar em contato com a Secretaria Municipal de Educação (SME) de Piracicaba, no qual conseguiu uma planilha com todas as escolas do município com a identificação das etnias dos alunos. “Só confirmamos o que já imaginávamos, a escola que tem mais estudantes negros fica no bairro Bosque dos Lenheiros. Os negros estão mais nas áreas periféricas”, disse a graduanda. 

“Estamos conseguindo fazer um jornalismo investigativo preocupados socialmente que não seja necessariamente acusatório de corrupções e, que, não dependa de fontes oficiais para passar informações”, disse o professor Wanderley. “Nós vemos mais brancos e poucos negros estudando. Fazemos com que os nossos alunos brancos percebam que a realidade dos negros é um aspecto muito importante para quebrar a questão do preconceito”, completou ele. 

Coberturas realizadas pelos alunos

Pintura facial infantil (Foto: Daiany Oliveira)

No dia 20 de novembro, os estudantes realizaram a cobertura do 7º Afro Pira, no Engenho Central. O evento tem como objetivo incentivar o grupo afro a realizar trabalhos sociais e resgatar a cultura africana. A programação contou com uma missa, ministrada pelo padre Ademilson Lopes da Silva, da pastoral do Divino Pai Eterno (Balbo). O grupo GEACAP (Grupo Estilo Angola ao Acrobático de Capoeira) também esteve presente e introduziu crianças nas atividades para agregar a elas o conhecimento cultural e o respeito pelo próximo. Além disso, a atividade também recebeu pessoas das religiões de Umbanda, Candomblé e Jurema, que foram criadas por escravos negros.

A 7ª Festa da Consciência Negra também foi registrada pelos graduandos de jornalismo. Realizada no dia 10 de novembro, a celebração contou com apresentações musicais, danças africanas e contou com a presença do grupo de Batuque de Umbigada. 

O Festival Curto Circuito teve como atração discotecagem, breakdance e basquete, no Sesc Piracicaba, em 24 de novembro. O circuito é uma mostra de grafite, no qual os graduandos puderam registrar da arte de grafiteiros negros da região.

Promovida pelo Festival Curau, os alunos participaram da Rota Negra e percorreram pontos históricos da cidade onde houve relevante participação dos negros. A rota deu início na praça José Bonifácio e seguiu para a Escola Estadual Moraes Barros, a Igreja de São Benedito, o Parque do Engenho Central e o Centro de Documentação, Cultura e Política Negra. A atividade ocorreu no dia 14 de outubro e reuniu cerca de 30 pessoas.  

Os universitários também tiveram suas presenças na Batalha do Parafuso, que acontece todas sextas-feiras, às 20h30, na Praça do Parafuso. O evento se trata de uma batalha entre MCs com o objetivo de enaltecer a cultura do Hip Hop.

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