Valorização do real e queda do dólar: quem ganha e quem perde?

Já há algum tempo, a mídia vem anunciando a recorrente queda do preço do dólar frente ao real, moeda brasileira que esse ano completa 17 anos de existência. Após valer mais de dois reais no ano de 2009, o dólar comercial, hoje, vale R$ 1,61. Diante desse cenário, muitas pessoas ficam confusas: o que seria melhor para o Brasil em termos de valor monetário? Por que a moeda estadunidense está se desvalorizando tanto? O que significa isso para o Brasil? De que maneira tudo isso afeta o meu cotidiano?

As respostas para essas perguntas são várias. O ponto principal é que, com a consolidação cada vez maior da economia brasileira, bem como de seu crescimento, há a atração de muito capital estrangeiro para o país. Assim, o Brasil acaba recebendo remessas altas de dólar, o que faz com que o preço da moeda caia (quanto mais dólar há disponível no mercado, menor seu valor, tendência natural de qualquer produto, bem ou serviço).

Isso significa que o país está, sim, recebendo investimentos externos, mesmo com a recente crise econômico-financeira mundial, que afetou, em maior ou menor escala, todos os países do mundo. Pensando assim, é positiva essa queda do dólar para o país.

Mas, para os exportadores brasileiros, essa queda da moeda norte-americana não significa algo bom. Isso porque, com a desvalorização do dólar, há uma valorização do real no mercado externo, dificultando a exportação de produtos brasileiros, já que, com o real em alta, os preços das commodities (matérias-primas, como a soja, principais produtos de exportação do país), ficam mais caros e menos atrativos para o mercado estrangeiro.

Os produtos, mais caros pela valorização do real, ficam menos competitivos frente a outros países, cujas moedas não estão tão valorizadas quanto o real. Considerando o potencial do Brasil em produzir e exportar as chamadas commodities, um real valorizado pode significar produtos caros para o mercado externo, e diminuir as vendas do país para fora (o que os economistas chamam de déficit, quando há mais entrada do que saída de dinheiro no Brasil).

Como investimento, o dólar pode ser uma alternativa, dependendo da intenção do investidor. Atualmente, a moeda vem caindo, o que significa que o investidor pode perder dinheiro comprando dólares e esperando uma mudança de valores do mercado financeiro internacional, que não são previsíveis a curto/médio prazo. Para quem não quer correr riscos, o mais indicados seria investir na renda fixa (poupança, fundos CDB, etc.), e se aproveitar da queda do dólar apenas se for com o objetivo de usar o dinheiro rapidamente (como compras no exterior).

O ideal para o país seria uma cotação do dólar que permitisse aos brasileiros viajar para o exterior e comprar bens de consumo importados, mas, principalmente, tornar economicamente atrativos os produtos da gama de exportação brasileira. Segundo estudo do banco de investimentos Goldman Sachs feito em 2009, esse valor seria em torno de R$ 2,60. Mas, ao mesmo tempo, não podemos esquecer que essa análise foi feita por um banco que podia ter previsto os indícios da crise norte-americana e não o fez, sofrendo inclusive com a retração econômica dos Estados Unidos.

Estimativas à parte, é evidente que o Brasil seria beneficiado quanto mais valorizados e procurados fossem os produtos exportados pelo país. No entanto, não podemos esquecer o mercado consumidor interno, um dos propulsores do atual crescimento da economia brasileira.

Um dólar valorizado, muito mais do que tornar mais caras as viagens de sacoleiros para o exterior e o preço de mercadorias importadas, pode significar que alguns produtos da cesta básica do Brasil também aumentem, como o trigo, que, por ser uma commodity importada quase em sua totalidade, é comprada pelo Brasil em dólar. Caso o preço da moeda subisse muito, certamente os preços de todos os derivados do trigo subirão, inclusive do pão francês que todos compram todos os dias nas padarias espalhadas pelo país.

Não há como garantir a todos os setores da economia brasileira uma cotação justa da moeda. No entanto, considerando todas as circunstâncias e efeitos de uma queda ou baixa do real frente ao dólar, é evidente que seja necessário um ponto de equilíbrio da moeda, garantindo condições de manutenção da economia, seja ela do setor das importações ou a dinâmica interna dos preços, que, caso aumentem muito, podem impulsionar as já temidas pressões inflacionárias, velhas conhecidas de um passado não muito distante de um país que chegou a ter variações de preço na casa de 2.000% ao ano.

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Saulo de Assis Saes Neto

Graduando em Comunicação Social: Habilitação em Jornalismo pela Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP). Contato: neto03@gmail.com

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