Feijão, um ingrediente chave do agronegócio brasileiro

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Por: Felipe Gonçalves e Fernanda Maestro

O aumento no preço do feijão foi um assunto que entrou em pauta para o bolso do consumidor do tradicional grão que está presente em quase todos os almoços brasileiros. O fiel companheiro do arroz dessa vez enfrenta dificuldades para suprir a demanda, em meio às adversidades climáticas que assolaram as regiões produtoras.

A média de consumo anual de feijão pelo brasileiro é de 12,7 kg per capita, segundo dados da EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). A preferência do consumidor quanto à cor e ao tipo de grão muda de acordo com a região e os hábitos culinários locais. O feijão carioca é, atualmente, o mais consumido no Brasil, contudo, estados como: Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Santa Catarina e o sul do Espírito Santo preferem o feijão preto.

De acordo com Eduardo de Andrade Bressan, docente e engenheiro agrônomo da UFSCAR (Universidade Federal de São Carlos), o grão que faz parte da culinária tupiniquim é também um dos alimentos mais nutritivos e saudáveis do cardápio nacional. “O feijão está entre os alimentos consumidos desde a antiguidade, remontando aos primeiros registros da história da agricultura. Suas propriedades nutritivas e terapêuticas, o colocam como componente principal do combate à fome e à desnutrição. Quando combinado com cereais, especialmente o arroz, promove uma perfeita complementação protéica, disponibilizando um conjunto de oito aminoácidos essenciais ao organismo humano”, afirma.

Foto: Fernanda Maestro

A média de consumo anual de feijão pelo brasileiro é de 12,7 kg por pessoa, segundo dados da EMBRAPA. (Foto: Fernanda Maestro)

Economia

No primeiro semestre de 2016, o preço do pacote de 1KG de feijão carioca registrou aumento de 146% e afetou diretamente o bolso do consumidor. Este valor elevado reflete alguns fatores climáticos, econômicos e comerciais que devem ser discutidos como uma forma de desenvolvimento e investimento para o agronegócio interno brasileiro.

Nos últimos anos, a produção de feijão foi em média de 3,3 mil toneladas e o consumo interno, variado em torno de 3,3 a 3,6 mil toneladas, segundo dados da CONAB (Companhia Nacional de Abastecimento). De acordo com Bruno Pissinato, docente da Universidade Metodista de Piracicaba e economista Mestre em Economia Aplicada pela Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (ESALQ/USP), esta atual conjuntura por si só caracteriza um mercado frágil. “Em outras palavras, a quase totalidade do feijão que o país produz é comido pelo brasileiro”, enfatiza.

Plantio de feijão. (Foto: Banco de Imagens EMBRAPA)

Plantio de feijão. (Foto: Banco de Imagens EMBRAPA)

Ainda, segundo Pissinato, desde 2011 vem ocorrendo quedas nas áreas destinadas à cultura do feijão. Dessa forma, na primeira safra deste ano houve redução na área plantada, além disto, somam-se fatores de ordem climática, que afetaram Minas Gerais e a Bahia com a seca, e o Paraná (principal estado produtor do feijão carioca) com excesso de chuvas.

Para a safra atual, a previsão da CONAB é de 2,93 milhões de toneladas, ou seja, abaixo do necessário para consumo interno. Portanto, o desafio que o agronegócio brasileiro enfrenta nesta cultura é: o consumo (demanda) tem sido maior do que a capacidade de oferta, e a adversidade meteorológica, neste caso, apenas agravou o atual cenário de baixa produção. Com a procura em alta e a oferta baixa do feijão, o preço sobe – este é o efeito cascata da economia.

Exportação

Diferente do açúcar, café, soja e outros grãos, o Brasil não é um grande exportador do feijão carioca, segundo Alcido Elenor Wander, Doutor em Economia Agrícola e Chefe Adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento da EMBRAPA.

Apesar disso, o país exporta, em média, aproximadamente 50 mil toneladas/ano de feijão-caupi (popularmente conhecido como feijão de corda). “Muitos países consomem feijões devido ao seu alto teor de proteína. Em conjunto com outros alimentos que fornecem energia, o feijão é um excelente alimento, apreciado principalmente em países em desenvolvimento. Os tipos de grãos preferidos pelos consumidores variam de um país para outro, conforme seus hábitos culturais e culinários”, comenta Wander.

Futuro

O Brasil importará, , 200 a 300 mil toneladas de feijões, que serão, majoritariamente, de feijão preto. (Foto: Acervo EMBRAPA/LANZETTA, Paulo)

O Brasil importará 200 a 300 mil toneladas de feijões, que serão, majoritariamente, de feijão preto. (Foto: Acervo EMBRAPA/LANZETTA, Paulo)

Para esta próxima safra, espera-se uma produção total de aproximadamente 2,9 milhões de toneladas. Com uma demanda (consumo interno) de 3,3 milhões de toneladas. O Brasil importará, segundo medida anunciada pelo presidente interino Michel Temer, 200 a 300 mil toneladas de feijões, que serão, majoritariamente, de feijão preto, provenientes de países como a Argentina e a China.

Para Wander, além das importações, o Brasil precisa pensar também em medidas a médio e longo prazo.  “No médio prazo, o Brasil precisa melhorar seu planejamento de abastecimento interno (políticas de incentivo à produção, melhoria do detalhamento das informações estatísticas para cada tipo de grão, incluindo dados de produção e estoques). No longo prazo, seria muito salutar que nós brasileiros passássemos a consumir também, em maior quantidade, outros tipos de grãos de feijão, que possam ser importados quando houver falta e exportados quanto nossa produção for muito elevada”, sugere.

Questionado sobre se os preços do feijão carioca devem baixar, o economista Bruno Pissinato é otimista. “Por enquanto os mercados têm se mantido numa posição firme, com elevada procura, o que leva crer que os preços podem cair mais por força de uma diminuição da demanda. Uma suposição nesse sentido é associar o feijão à crise econômica. O feijão, apesar dos aumentos, tende a ser barato frente às demais alternativas de consumo que não propiciam tantas refeições ao longo do mês. Outro ponto a se ressaltar são as entradas de safra irrigada de feijão que entra a partir de julho, estendendo-se até final de agosto, puxando os preços para baixo.” – explica.

A maior preocupação atual dos agricultores, diante deste panorama, é garantir a produtividade e suprir a demanda interna do grão. O feijão é, indubitavelmente, um dos alimentos mais requisitados pelos brasileiros, sendo assim, investir e aprimorar este segmento agrícola, será uma aposta benéfica ao agronegócio, que poderá colher bons frutos a médio e longo prazo.

Consolidado e resiliente à crise econômica que assola o país, o agronegócio foi o único setor que não foi impactado drasticamente, sendo um dos pilares da economia nacional – representando 23% do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro, segundo dados estatísticos da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

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