‘A crise é da gestão, não da água’, diz ex-engenheiro da Sabesp

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“A crise é da gestão pública, não da água” – é o que afirma o ex-funcionário da Sabesp Darcy Brega, graduado em Engenharia Florestal pela Universidade Federal de Viçosa. A declaração vem após a Grande São Paulo e algumas cidades do interior terem enfrentado uma escassez hídrica sem precedentes no ano de 2014, quando choveu abaixo da média. Em 2016, o alto volume de chuvas recebido na região aparentemente conseguiu recuperar os reservatórios; porém, especialistas advertem que o real problema ainda não foi resolvido.

A condição climática e hídrica do Estado de São Paulo entre janeiro de 2014 até meados de 2015 era de muita seca e baixa vazão nos rios e reservatórios. Em São Paulo, o sistema Cantareira, que abastece cerca de 8 milhões de pessoas, chegou a atingir 3,9% da capacidade. Já em Itu, que fica no interior do Estado, a situação foi ainda pior: a cidade enfrentou colapso de abastecimento por volta de outubro de 2014. Um levantamento feito pelo jornal “Estado de S. Paulo” revelou que a falta de água atingiu 68 municípios da região, afetando cerca de 14 milhões de habitantes.

Apesar de ter atingido a população de surpresa, a escassez hídrica tem um histórico que envolve falta de planejamento do poder público, crescimento populacional desordenado e mudanças climáticas impulsionadas pelo aumento constante das temperaturas globais.

Para Darcy, o que ficou conhecido como “crise hídrica” na verdade trata-se de sucessivos erros cometidos pelo governo do Estado de São Paulo e pela Sabesp, que em plena falta de água pagou bônus para seus diretores e ainda arrecadou mais de 800 milhões de reais através de uma cobrança compulsória ao consumidor, como relatado no “Estadão” e no “UOL“, respectivamente. Além disso, de acordo com Darcy, a Sabesp explorou de maneira excessiva o sistema Cantareira, superando sua capacidade de se recompor:

“A água tem uma natureza finita. Se você faz a exploração de um manancial para além da sua capacidade de prover recurso, ele começa a se esgotar. Quando se diz que há uma ‘crise da água’, suas verdadeiras razões são omitidas”, apontou.

A arquiteta e urbanista Mônica Abreu, mestre em Saneamento Ambiental pelo Mackenzie, alega que experimentamos uma “crise crônica”, pois “a falta de preocupação com os sistemas de distribuição continua”. Mônica diz que a ocupação das áreas dos mananciais também contribuiu para a fragilidade do Cantareira e dos demais reservatórios, uma questão bastante conhecida pelos órgãos responsáveis.

Um documento de 2009 da ANA – Agência Nacional das Águas, chamado de “Conjuntura dos Recursos Hídricos do Brasil” aponta a existência de “conflitos pelo uso da água, especialmente devido à ocupação desordenada do território”, citando a bacia hidrográfica do Paraná, que abrange o Estado de São Paulo e Atlântico Sudeste.

População periférica é a mais afetada

Outra questão pouco discutida diante da escassez hídrica é justamente quem mais sofre com ela. Segundo a ativista da água Martha Lu, a população mais pobre foi e é a mais afetada.

Martha Lu contou que na época em que o racionamento começou a ser adotado em diversas cidades do Estado, as regiões mais pobres sofreram com longos períodos sem água e a população não tinha condição financeira de comprar ou manter em funcionamento uma caixa d’água. A população periférica também pagava contas altíssimas, mesmo sem receber água de fato.

Moradores de Carapicuíba chegaram a ficar 3 dias sem água, em 2014 (Foto: Martha Silvak Lu)

 “Houve surto de diarreia, hepatite e outras doenças. Em algumas áreas, 15 crianças de uma mesma família ficaram doentes na mesma semana”, completou Martha.

Mudanças climáticas

Também não faltam alertas em relação ao aquecimento global, que vem sendo associado a eventos climáticos mais extremos, como ondas de calor mais persistentes, longos períodos de seca e também fortes tempestades.

Em dezembro de 2011 houve a publicação de um documento elaborado pela UNICAMP e pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) tratando sobre “A vulnerabilidade das megacidades brasileiras às mudanças climáticas“. De acordo com os autores, coordenados pelo pesquisador Carlos Afonso Nobre, a Região Metropolitana de São Paulo se tornará cada vez mais suscetível a eventos extremos, devido a elevação média da temperatura de 2 a 3° C até o fim desse século.

Ao mesmo tempo em que existem modelos capazes de prever condições climáticas, a ocorrência de extremos traz um desafio.

Darcy Brega explica que anteriormente as séries históricas seguiam uma linha mais previsível, isto é, as precipitações de chuva ocorriam conforme o padrão estabelecido. Porém, agora “os dados começaram a funcionar de forma errática”, finalizou.

 

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Marcos Spallini

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