Os congressos que mudaram o rumo da UNE e da UNIMEP

Congresso da UNE em Piracicaba. Fotógrafo: Christiano Diehl Neto

Congresso da UNE em Piracicaba. Fotógrafo: Christiano Diehl Neto

O ano era 1980. O país estava vivendo em ditadura militar, instaurada desde 1964. Na tentativa de voltar para a sua legalidade e tentando não chamar muita atenção, Ruy Cesar Costa e Silva, então presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), decide promover o 32º Congresso no Campus da Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP), no interior de São Paulo.

Na ocasião, estavam presentes aproximadamente, quatro mil estudantes, Elias Boaventura, na época reitor da Universidade, lideranças católicas, políticas e João Herrmann Neto, então prefeito de Piracicaba. Nos dez dias de recesso acadêmico, a Universidade e as pessoas que ali estavam, presenciaram muita atividade estudantil, política e reivindicações. Sendo assim, os Congressos de 1980 e 1982 marcariam para sempre a história da UNE e da UNIMEP.

O que os participantes não sabiam, é que o congresso de 1980 seria apenas uma prévia para o que aconteceria dois anos mais tarde. Em 1982, Piracicaba foi novamente escolhida para sediar um congresso da UNE. Seria sua 34º edição. Mas, desta vez, a tensão em torno no evento seria ainda maior.

Por ser véspera de eleições para governadores, e também porque o presidente da UNE era Javier Alfaya, um cidadão espanhol. Alfaya tinha sua liberdade vigiada e diariamente comparecia a Polícia Federal, correndo o risco de ser expulso do país. Por esses motivos, pelas curiosidades da época e especulações envolvendo o governo, que o Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (DEOPS/SP) usaria, em 1982, a espionagem para levar vantagem e obter informações sobre o que estava sendo discutido e os rumos não só da UNE, mas do Brasil.

Com o cargo de Vice-Reitor da UNIMEP, na época em que ocorreram os congressos, Almir de Souza Maia, fala sobre a preocupação da organização com a possibilidade de uma intervenção policial para que os congressos não acontecessem. “A UNE era uma entidade visada pelo regime. Era considerada ilegal e subversiva. Era atuante e incomodava o regime em vigor, enquanto trabalhava para sua reconstrução e demonstrava a força da participação dos estudantes no processo de redemocratização brasileira”, afirma.

Entre os participantes que ali estavam uma mulher se destacava. Na época, Clara Maria Araújo de 21 anos era presença garantida e voz ativa em todos os congressos da UNE. Mesmo com as constantes ameaças diretas e indiretas que sofria e, até mesmo, com uma prisão sofrida em 1977, em Belo Horizonte, a estudante se manteve firme no sonho pela volta da democracia. “Minha prática no movimento estudantil já me ensinará que o machismo existia e sabia que isto pesaria, mas creio que no final consegui quebrar certas resistências”, comenta.

Em 1982, está força e constante participação no movimento, rendeu a Clara uma emocionante e receosa indicação a presidência da UNE. Clara garante que mesmo feliz, a indicação para eleição no congresso não era algo repentino. “Cada força política já selecionava os seus nomes antes da realização do congresso em si. Ocorria a disputa para ganhar a presidência no campo das articulações e da política. Ou seja, quando cheguei ao congresso já era a indicada de minha corrente”, enfatiza. Ao final do Congresso deste ano, Clara Araujo foi eleita a primeira presidente mulher da UNE.

Não foi apenas Clara, e os estudantes “revolucionários” que sofreram com a pressão para a não realização dos congressos na UNIMEP. Umberto Cantoni, então maestro do Coral Universitário da Universidade, também passou por apuros. Nesse ano, Cantoni, que a todo tempo era chamado de “comunista”, não se amedrontou e liderou um grupo formado por 80 cantores e se apresentou na abertura do congresso, realizado no estádio Barão de Serra Negra.

O Coral de Cantoni tocou MBP, músicas ligadas à Teologia da Libertação, músicas regionais e de protestos. Na ocasião, o maestro comenta que quando o hino da UNE foi entoado, houve uma comoção muito grande, pois a entidade ainda se encontrava na clandestinidade.

O fato é que nem todos os funcionários e os políticos da cidade, concordaram com a decisão de João Herrmann Neto sobre os congressos da UNE acontecerem nas dependências da UNIMEP. “Havia temor sobre as consequências da realização de um congresso de cerca de 4 mil estudantes em termos de logística na organização, hospedagem, alimentação, transporte, etc., mas sobretudo, em termos de segurança interna e externa e possibilidade de intervenção”, explica Maia.

O fotógrafo Christiano Diehl Neto, teve o prazer de cobrir os Congressos da UNE, sediados em Piracicaba. Concordando com a posição do prefeito sobre os congressos acontecerem na Universidade, Neto foi nomeado a fotógrafo oficial da assessoria de imprensa do gabinete de João Herrmann Neto e também de um jornal local alternativo, de circulação semanal. O fotógrafo diz que sabendo da importância política, Herrmann Neto abriu as portas para que a UNIMEP pudesse realizar os congressos na cidade. “Na época Piracicaba fervia politicamente. Eu era de esquerda, como todo jovem, mas contestava muita coisa e estava ali para isso”, diz.

Outra peça fundamental nessa parte da história foi Silvana Zein, na época funcionária da Universidade e esposa de Elias Boaventura, ex-reitor da mesma. Silvana teve contato direto com os alunos que estavam na cidade para participarem dos congressos na luta pela legalização da UNE. Sobre as espionagens nos congressos, Silvana diz que alguns episódios foram montados para denegrir a imagem do evento e da UNE. “Ali não estava só sendo discutida a questão dos estudantes, mas sim do Brasil. As pessoas não entendiam muito isso e Piracicaba foi muita conservadora”, alega.

Começando no movimento sindical, José Paiva, um dos atuais vereadores de Piracicaba, acredita que Herrmann Neto foi ousado em aceitar os congressos da UNE na cidade e comenta que na época não havia espaço melhor que a Universidade. “Tivemos o poder de viver esse momento, de contestar a ditadura e realizar um congresso livre, democrático e que dava sustentação aos movimentos sociais”, explica Paiva. Para o vereador, a mídia ridicularizou o congresso, não foi verdadeira com os acontecimentos e foi a grande responsável pelas repercussões negativas.

“Percebia-se a todo tempo que estávamos sendo vigiados. Mas, em nenhum momento fomos abordados para isso”, confirma o fotógrafo Christiano Diehl Neto. “O Elias sofreu muitas ameaças. Não entendiam que ele estava formando novas lideranças democráticas e abriu a Universidade para todos os segmentos”, lamenta Silvana Zein.

Para o atual presidente do DCE da UNIMEP, Rafael Lacerda, os congressos da UNE de 80 e 82 foram importantes etapas da luta pró-democracia. “Sabemos da importância histórica desses eventos, principalmente para a rearticulação da União Nacional dos Estudantes e da relevância para a Universidade”, confirma Lacerda.

Na opinião do presidente do DCE, permitir que a UNE se organizasse era uma forma que se ela fortalecesse ainda mais “Era isso, que o regime militar não queria. As decisões desses congressos norteariam a luta democrática”, explica Lacerda. Sobre o resultado dessa espionagem ele é enfático. “Teve tentativa do regime espionar e não foi eficaz, pois desde então a UNE retornou para a sua legalidade e voltou a cumprir o que se propunha a fazer antes”, finaliza.

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Camila Figueiredo

Aluna do 3º semestre de Jornalismo da Unimep. cammyfig@yahoo.com.br

UM COMENTÁRIO

  1. […] creio que no final consegui quebrar certas resistências”, comentou Clara em uma entrevista para Jornal Sou Repórter do curso de Jornalismo da Unimep. A UNE tem certeza disso. Clara abriu o caminho para Gisela Mendonça (1986-1987), Patricia de […]

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