Perrengues da vida de estudante e estagiário

A vida de um estudante universitário que mora sozinho pode parecer extremamente prazerosa: festas todos os dias, dieta regada a cerveja, pizza e “miojo” e liberdade total longe dos pais compõem o imaginário de todo vestibulando que sonha com o ingresso na universidade. A realidade, porém, lembra muito pouco o filme “American Pie”, e fazem parte dela despesas da casa, multas por atraso no pagamento, falta de grana e pequenos bicos para ajudar no orçamento.

A média salarial de um estagiário no Brasil é de R$ 969,83, de acordo com a Pesquisa Nacional de Bolsa Auxílio 2014, realizada pelo Nube (Núcleo Brasileiro de Estágios). Maior que o salário mínimo brasileiro, que em 2015 chegou a R$ 788, a remuneração muitas vezes é insuficiente para que os estudantes se sustentem, e não é raro precisar recorrer aos pais para conseguir ajuda.

Alex Moraes é natural de Araras e divide uma casa com três amigos em Piracicaba. Decidiu morar com outras pessoas para dividir as despesas, e guardou dinheiro por um período antes de se mudar para se sustentar na cidade nova. O dinheiro durou apenas um mês. “Quando me imaginava morando sozinho achava que estaria trabalhando e me sustentando sem ajuda. Acabei quebrando a cara, foi totalmente o contrário. Ainda dependo dos meus pais”, conta, aos risos.

Júlia Godinho saiu de Avaré para estudar jornalismo em Piracicaba. Alugou um quarto em uma casa por um tempo, mas devido às restrições da proprietária preferiu morar sozinha. A decisão só foi aceita pelos pais com o acordo de que ela deveria trabalhar para ajudar a pagar as contas, e com isso, perder algumas regalias. “Foi bem frustrante gastar mais da metade do salário com contas. Tive que aprender a me organizar com o dinheiro que tinha. Sempre que recebia o salário queria gastar com roupas e festas, mas não dava”, lembra ela.

A alegria pela recém-adquirida “independência” acaba na primeira conta a pagar. E são muitas: água, luz, aluguel, condomínio, internet, telefone e cartão de crédito são algumas das mais comuns, e que consomem boa parcela do salário. É nesse momento que a responsabilidade é posta a prova e é preciso agir como “adulto”. “Todos os meses preciso deixar marcadas as datas para pagar contas no prazo. Aprendi isso no dia que tive que pagar uma multa gigantesca”, lembra Isabel Oliveira, de Jundiaí, que estuda ciências biológicas e divide um apartamento com duas amigas.

Organização

A maior dificuldade é organizar o orçamento com despesas que até então quem lidavam eram os pais. Enquanto estudantes que vivem com os pais administram, no máximo, os próprios gastos, aqueles que saíram do teto paterno precisam aprender na prática como administrar um lar, sem muitas vezes ter vivido essa experiência antes.

Marcos Santos Mendes, de Guarulhos, estuda agronomia e mora na CEU (Casa do Estudante Universitário). Gasta menos de R$ 50 com moradia, já que a CEU é destinada para estudantes de baixa renda. O maior gasto é com alimentação no refeitório da universidade, o famoso “bandejão”, onde deixa mensalmente R$ 100. O choque com as despesas veio do lado de fora da faculdade. “Geralmente em casa seus pais fazem a compra, e quando você começa a comprar sozinho vê que qualquer coisa no supermercado custa R$ 40, R$ 50. É a primeira vez que precisa sair olhando todas as gôndolas para ver o que vai levar”.

Depois do aluguel, o gasto com alimentação é o que mais impressiona. Por falta de dinheiro, Julia passou uma semana à base de macarrão, e hoje busca alternativas para gastar menos nessa área. “Onde eu trabalho tem café da manhã, almoço e café da tarde, então hoje em dia não gasto muito com comida. Quando vou para a casa dos meus pais sempre trago comida pronta”.

O jornal Diário do Grande ABC fez uma reportagem sobre os preços dos alimentos com a taxa de inflação alta. Com R$ 100 foram às compras e conseguiram levar apenas 17 itens de primeira necessidade, como cinco quilos de arroz, um quilo de feijão, uma dúzia de ovos, cinco litros de leite e uma lata de sardinha. “Uma compra no mercado para durar uma semana sai de R$ 80 a R$ 100, enquanto se eu comer todo dia no ‘bandejão’ gasto R$ 10 por semana”, conta Isabel.

Despesas inesperadas

Os gastos extras também são um perigo. Se com planejamento é difícil se organizar, quando algo foge do controle há o risco de ficar no vermelho. “O que mais surpreende são os extras. Quebrei acidentalmente o celular de um amigo e o valor para consertar foi absurdo. Parcelei em cinco vezes e passei apertado cinco meses”, conta. Em 2014, Alex foi atingido na perna por uma bala perdida ao sair do estágio. Precisou ficar internado três dias e teve um gasto alto com remédios para a recuperação.

O professor de economia da Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba), Ivens de Oliveira, aponta que o planejamento orçamentário e controle dos gastos é fundamental para o equilíbrio financeiro, em especial para que o estudante possa realizar sonhos, como adquirir seu próprio carro ou fazer uma viagem. “É fundamental separar os gastos essenciais, os quais não há possibilidade de remanejamento, dos supérfluos, que podem ser cortados para ajustes”, orienta.

Outra dica importante, segundo o professor, é guardar uma parte do salário. O mínimo que seja é suficiente para começar uma poupança e criar o hábito de poupar. Julia aprendeu isso após sofrer com as despesas inesperadas e decidir montar um cofrinho. “Pode parecer bobo, mas isso salva quando acontece alguma emergência”.

Bicos e extras

Para equilibrar o orçamento, é preciso muitas vezes procurar alternativas que gerem o mínimo de renda. Nessas horas, vale ser criativo e explorar as principais habilidades a seu favor. Allan Douglas Miranda, estudante de ciências biológicas em Santa Bárbara d’Oeste, por exemplo, começou a fazer encomendas de origamis para ajudar nas despesas, e criou uma página no Facebook para divulgar seu trabalho. A ideia deu tão certo que decidiu montar uma microempresa para emitir nota fiscal e aumentar o orçamento, além de poder ministrar oficinas. Ele também dá aulas particulares e em cursinhos pré-vestibular.

“Essas atividades muitas vezes compõem 50% ou mais da minha renda, o que me auxilia muita no pagamento das despesas”, afirma Miranda, que divide apartamento com um amigo. Marcos uniu o útil ao agradável na busca por um orçamento mais polpudo. Ele costuma aproveitar o período de férias para trabalhar com o pai e conseguir uma renda. Durante o período letivo, quando ocorrem as tradicionais festas universitárias, ele aproveita para trabalhar durante os eventos e assim aproveitar enquanto lucra. “Trabalhei em todas as baladas que fui. Ficava mais tempo que todo mundo e tirava um trocado. Houve um período em que passei bastante apertado e não tinha dinheiro para ir ao ‘bandejão’. Trabalhei em duas festas e tirei R$ 60”, conta.

Dá pra se divertir?

É difícil, mas dá sim. O importante é ter em mente quanto vai gastar e procurar eventos e atividades mais baratos. “Normalmente a gente vai na casa de amigos ou em festas da faculdade, que acontecem no Centro Acadêmico, uma casa administrada pelos estudantes. Fazemos festas e oficinas lá”, diz Isabel. No fim do mês, quando o dinheiro está escasso, ela e os amigos se juntam para conversar e jogar videogame.

Julia não gosta de ficar em casa, por isso sai tanto aos finais de semana quanto em dias úteis. A vantagem é que a maioria de seus colegas vivem nas mesmas condições que ela, e assim fica fácil procurar por opções baratas de lazer. “Geralmente não determino o quanto vou gastar naquela noite, mas tenho noção dos meus limites”.

Allan se locomove pela cidade de bicicleta, o que o ajuda a economizar bastante na área de transportes. São cerca de 250 km rodados por mês na cidade para as atividades diárias. Aos finais de semana, conta com a carona da namorada ou de amigos para frequentar barzinhos e cinemas. “Busco sempre atividades de lazer no Sesc, pois além de apresentarem um grande valor cultural em seu espaço, muitas vezes o custo é baixo ou nulo”, diz.

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