Projeto ensina cegos a fotografar em Piracicaba

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Quando imaginaríamos que deficientes visuais pudessem fotografar? Nunca. Até eu participar de uma aula em que isso acontece corriqueiramente. Eu, com minha visão perfeita, encontro dificuldades para fotografar, tenho problemas com a luz, posicionamento da câmera e até mesmo com o foco. Porém, os oito alunos do fotógrafo Cláudio Coradini, deveriam ter dificuldades maiores ainda. Mas não, eles fazem tudo aquilo parecer fácil. Através do tato e da audição, conseguem saber onde estamos. Sentindo a câmera eles sabem o posicionamento ideal para o retrato. Sim, foi uma grande surpresa e grande experiência poder presenciar tudo isso. De fato, o que importa na fotografia não é você enxergar, mas, imaginar a fotografia, trabalhar além do olhar físico, trabalhar o olhar imaginário.

O “Projeto Retratos Especiais” vem sendo desenvolvido há mais de três meses. Uma oficina, em Piracicaba, que se baseia na aplicação de fundamentos fotográficos para os deficientes visuais, que tem como principal objetivo resgatar a autoestima de quem participa do projeto e a produção de fotos com qualidade técnica e artística.

Coordenador do Projeto Retratos Especiais Claudio Coradini (FOTO: Caio Nogueira)

Coordenador do Projeto “Retratos Especiais”, Claudio Coradini (FOTO: Caio Nogueira)

A equipe do Projeto é formada por três fotojornalistas, Claudio Coradini que é Coordenador do curso, Moreno Moura e Amanda Vieira. Coradini partiu da ideia de que o olhar fotográfico pode ser desenvolvido por pessoas que não possuem o olhar físico, sabendo que em muitos casos a composição fotográfica nasce na imaginação antes mesmo do clique. “Como eu estou completando 25 anos de carreira, e eu sempre vivi do meu olhar, eu pensei como seria não ter isso (olhar), e ai resolvi desenvolver esse projeto de ensinar as técnicas da fotografia a deficientes visuais. Nesta primeira edição, o projeto é focado em retratos de pessoas, para que seja trabalhada de forma positiva a autoestima dos fotógrafos e fotografados.”, contou.

Em 2003, a ideia de Claudio já havia sido elaborada e desenvolvida. “Após consultar amigos psicólogos e voluntários de entidades sociais, desenvolvi técnicas específicas e iniciei o laboratório do projeto com alguns participantes. Deu muito certo, o resultado e a repercussão foram espetaculares, mas infelizmente, a falta de tempo me fez engavetar a ideia”, disse.

 

 

Olhar imaginário

Ao todo, o curso conta com oito alunos, seis deles cegos e dois com baixa visão. Marcelo Baptista, um dos alunos, contou que a partir do momento que ele perdeu a visão tudo mudou. “Na minha última cirurgia, tudo acabou pra mim. Não queria sair de casa, não queria fazer mais nada”, disse. Mas com o passar dos anos, conheceu o AVISTAR (Associação de atendimento à pessoas com deficiência visual) e o Claudio, coordenador do Projeto.

Alunos da oficina fotográfica. (FOTO: Caio Nogueira)

Alunos da oficina fotográfica. (FOTO: Caio Nogueira)

 

Marcelo nos contou sobre suas perspectivas com relação à área fotográfica. “Pretendo continuar fotografando, já fui ver uma câmera para comprar, se Deus quiser em breve já tenho. E já que o Claudinho foi um bom professor, acho que vou ficar sempre no pé dele, vou querer sempre acompanha-lo, sem compromisso”, contou.

 

Técnica

O fotojornalista, Coradini, explicou como é desenvolvido o trabalho com os alunos cegos. “Trabalhamos o empunhamento das câmeras, refinamento do tato e audição, para a captação de imagens, no caso retratos. A assimilação e o resultado são surpreendentes para todos os envolvidos e principalmente os fotografados”, finalizou.

O aluno Gilmar Falcão, demonstrou e explicou sua técnica para fotografar. “Para fotografar paisagens e flores, eu uso a técnica do tato, identifico onde está o objeto, e faço a fotografia”, contou.

Para Baptista, o processo é o mesmo, o tato. “Primeiro eu sinto o objeto, para conhecer ele como ele é, dou dois passos para trás dependendo do que for e faço a foto. Agora, eu posso fotografar uma pessoa usando o tato e também ouvindo a voz do fotografado. Não tenho o olhar físico, mas tenho a sensibilidade, o que ajuda no olhar fotográfico”, finalizou Marcelo.

 

Galeria de fotos feitas pelos alunos do curso, utilizando o retrato de pessoas e de paisagem:

 

 

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Caio Nogueira Antunes

4 COMENTÁRIO

  1. Muito bacana a matéria. Parabéns!

    • Muito obrigado! =D

  2. Parabéns Caião

    • Valeu, Ericão!!!! Abraços

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