Agronegócio: avanços da década da transgenia

Antes considerado futurísticos, organismos geneticamente modificados ganham cada vez mais espaço no mercado – e na alimentação dos brasileiros

Amanda Wendland e Isabela Guevara

Plantação de sorgo transgênico no interior do estado de São Paulo (Foto: Isabela Guevara)
Plantação de sorgo transgênico no interior do estado de São Paulo (Foto: Isabela Guevara)

Nos últimos dez anos, a agricultura se consolidou como um fragmento de destaque na economia nacional. Enquanto a crise de 2008/2010 atingia vários setores do país, o agronegócio cresceu duas vezes e meia e expandiu seu processo de exportação. Parte desse sucesso é em função do engajamento do agricultor e das pesquisas realizadas para o aumento de produtividade, tendo sempre o cuidado em preservar o meio ambiente.

O agronegócio brasileiro é responsável por 24% do PIB (Produto Interno Bruto) nacional, cerca de 37% dos empregos e também por 41% das exportações, sendo a soja, a carne e o açúcar/álcool os principais destaques, com destinos a China e União Europeia. O setor agrícola brasileiro é o que mais contribui para a demanda alimentar mundial e, por isso, recebe a atenção de diversas pesquisas e discussões nacionais.

O crescimento do agronegócio no país, principalmente o agropecuário, é incomparável, sendo o único que obteve um crescimento mundialmente expressivo, crescendo cerca de 17% ao ano, produzindo o dobro nos últimos anos. A produção de grãos protagonizou também um crescimento de 131% nas duas últimas décadas, com aumento da área plantada de apenas 16%. O que causou tal desenvolvimento foram as pesquisas agropecuárias, responsáveis pelo cultivo adaptado de diferentes culturas, aumentando índice de produtividade no Brasil, que cresceu mais da metade nas últimas safras. O ex-ministro da agricultura e atual coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Roberto Rodrigues, afirmou que o agronegócio é “um templo de tecnologia”, trazendo sempre diversos cenários em ascensão, como por exemplo, a produção de alimentos.

Projeções mostram que a população mundial crescerá para nove bilhões de pessoas até 2050, o que em escala, cresce também a necessidade de oferta e demanda de alimentos. Sendo o Brasil o “celeiro do mundo”, a responsabilidade de alimentar essa população crescente cai diretamente nas mãos dos agricultores nacionais e, produz desafios e oportunidades para que tudo isso se concretize; até 2020, a previsão é que o Brasil será o país que mais ampliará a produção agrícola, com aumento de 40% no período, segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Há exatos 12 anos, o país lida com a transgenia de alimentos e tem sucesso na área. Países como a China e o Brasil tem negociado a parceria em pesquisas transgênicas, com o objetivo de melhorar a qualidade de seus produtos e aumentar a produção mundial; a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) deve atuar como parceira nas pesquisas.

Os transgênicos representam boa parte da história da agricultura. Segundo o produtor agrícola Paulo Sérgio Curtolo, a transgenia modificou todo o cenário, principalmente na produtividade e na competitividade. E ainda completou dizendo que “a transgenia tem dois pontos: o antes e o depois dela. Acho que a transgenia veio para mudar, e mudou mesmo, continua mudando. Veio como uma revolução e foi até mais do que eles estavam esperando que fosse”. São sementes deste tipo que abastecem a cadeia de produção de alimentos, que depois de plantadas, transformam-se na alimentação de toda a população, a partir também do fornecimento animal, como carne, ovos e leite.

Pioneira em pesquisas agropecuárias, a Embrapa está agora desenvolvendo uma alface transgênica, com maior teor de ácido fólico. Com o objetivo de oferecer à população maiores quantidades dessa vitamina essencial para a formação de proteínas estruturais, principalmente em grávidas, o agrônomo Francisco Aragão, responsável pelo desenvolvimento, diz que a hortaliça ainda precisa ser aprovada para consumo humano.

Alimentos como a soja, milho, arroz e feijão também sofrem alterações em seu gene para erradicação de pragas, fazendo com que sua produtividade seja maior, já que se perde menos na lavoura. Essenciais para o consumo humano, esses alimentos são a base da alimentação de grande parte da população mundial. Através do melhoramento genético, essas sementes possibilitam maior facilidade para o agricultor, além do menor uso de agrotóxicos na produção. Dessa forma, a plantação é feita do modo mais sustentável possível, para que a utilização de recursos naturais seja otimizada.

O Brasil é o segundo maior usuário de biotecnologia agrícola, e está atrás apenas dos Estados Unidos. No ano de 2014, o país cultivou cerca de 42 milhões de hectares de culturas transgênicas, com crescimento de 4,7% em relação ao ano anterior. O aumento do cultivo desse tipo de semente mostra que o agricultor tem cada vez mais confiado na tecnologia agrícola, e tem comprovado sua eficácia na plantação. A taxa de adoção dessa técnica no Brasil foi de 89,3% no cultivo de milho, soja e algodão, essas três culturas sendo aprovadas comercialmente no país; entre elas, o primeiro lugar é da soja, que protagoniza 93% da área plantada com variedades transgênicas. O aumento de produção alcançado devido ao uso de biotecnologia é relevante e necessário ao cenário agrícola, onde a demanda por alimentos cresce cada vez mais, acompanhando o aumento da população. Assim, técnicas que garantam maior produção de alimentos de forma mais sustentável são essenciais.

Estufa de tomates geneticamente modificados da empresa líder no ramo, Monsanto/Seminis, em Campinas (Foto: Isabela Guevara_
Estufa de tomates geneticamente modificados da empresa líder no ramo, Monsanto/Seminis, em Campinas (Foto: Isabela Guevara_

O agronegócio brasileiro se encontra hoje em um período favorável, uma vez que ocupa o primeiro lugar na produção de diversos alimentos. Apesar dos tempos de crise, o setor agrícola tem salvado a balança comercial do país. De acordo com dados da FGV (Fundação Getúlio Vargas), a área plantada no Brasil é de 80 milhões de hectares, mas sua capacidade de área agricultável é de quase 330 milhões. Segundo projeções, a quantidade de área plantada ainda pode subir cerca de 15%, totalizando aproximadamente um quarto de todo território nacional. Portanto, a capacidade produtiva do país, apesar de grande, tem potencial para aumentar, tornando o agronegócio brasileiro um ramo ainda mais valorizado.

Share

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*